Bolsonaro
Isac Nóbrega/PR
Últimas medidas do governo Bolsonaro, como as omissões nos números de mortes por Covid-19, geraram críticas da mídia internacional

Desde o início da pandemia do Covid-19, não foram poucas as vezes em que o governo de Jair Bolsonaro acabou tomando decisões contraditórias e que seguiam no caminho oposto ao que era tido como ideal por outras nações e instituições do planeta. Com as últimas definições, como a omissão de dados sobre o avanço da doença no país, o Brasil se tornou epicentro do novo coronavírus (Sars-Cov-2) e vê sua imagem cada mais manchada no cenário internacional.

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No cenário econômico, os posicionamentos de Bolsonaro sobre a Covid-19 podem afastar investidores, dificultar viagens de brasileiros e até acabar com as chances do país de fazer parte da OCDE  (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), grupo de países ricos que sempre foi apontado como sonho pelo presidente.

Porém, as mudanças no Ministério da Saúde , que envolvem a troca de horário de divulgação dos boletins epidemiológicos  e até a ocultação de dados relevantes para o combate ao vírus no país , são apenas o último episódio de uma batalha do presidente contra a doença, que já envolveu críticas à China, ataques à OMS, comparações negativas com países mais bem preparados neste enfrentamento e até a perda de apoios, dentro e fora do país.

Crise diplomática com a China

Eduardo Bolsonaro
Reprodução
Filho do presidente causou mal estar com um dos principais parceiros comerciais do país

No mês de março, quando a pandemia dava seus primeiros passos no país, o  deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) criou uma crise diplomática  ao afirmar que a China era a responsável pela disseminação do vírus e que havia escondido as informações sobre a doença.

Em resposta, o embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, repudiou a fala do filho do presidente, chegando a afirmar que Eduardo poderia ter contraído "um vírus mental" durante a viagem a Miami, onde uma  comitiva brasileira se encontrou com Donald Trump para um jantar. Tal viagem, inclusive, foi a responsável por infectar diversas pessoas que estiveram presente no evento , como o secretário de comunicaçõ Fábio Wanjgarten , e levantaram suspeitas sobre um possível contágio de Bolsonaro.

Cerca de um mês depois, nova polêmica com os chineses. Desta vez, foi o chanceler Ernesto Araújo quem apontou o país asiático como responsável pelo que chamou de "Comunavírus" . O próprio Araújo já havia sido  criticado por ruralistas brasileiros quando chegou a cogitar a possibilidade de não fazer negócios com a China, um dos principais parceiros comerciais do Brasil.

Da Suécia a Venezuela

Bolsonaro
Agência Brasil
Recentemente, Brasil foi comparado com Coreia do Norte e Venezuela por omissão de dados

Outro ponto que gerou críticas ao governo foram as tentativas de comparação por parte de Bolsonaro com países que, em sua maioria, viviam situações melhores de enfrentamento ao vírus, além de aponta sistemas já confirmados como falhos, como o ocorrido na Suécia, para defender certos pontos de vista.

Entre as análises que ficaram famosas, principalmente nas redes sociais, está o comparativo da situação nacional com a da Argentina por volta do dia 15 de maio. Questionado por repórteres, Bolsonaro disse que a conta deveria ser feita por milhão de habitante. Porém, tal análise mostrava que o Brasil tinha 70,7 mortes por milhão, enquanto os argentinos somavam 7,9.

Na mesma coletiva, o presidente voltou a apontar a Suécia como exemplo de enfrentamento, algo que já havia feito em outras oportunidades. Porém, o próprio idealizador do projeto sueco, o epidemiologista Anders Tegnell, admitiu recentemente que o plano tinha falhas e foi um erro estratégico , visto que o total de mortes ultrapassou o número que era esperado.

A questão sueca também foi tema de outro ponto negativo para o governo brasileiro. No último dia 5, durante coletiva na Casa Branca, o presidente Donald Trump, visto por Bolsonaro como um dos parceiros mais próximos no cenário internacional, criticou Brasil e Suécia por seus métodos de enfrentamento , afirmando que "se tivesse tomado as mesmas atitudes, os EUA teriam mais de 2 milhões de mortos".

OMS e América do Sul

Tedros
Reprodução/Twitter
OMS, que tem Tedros Adhanom como diretor-geral, tem sido alvo de críticas por parte de Bolsonaro

Não foram poucos também os presidentes sul-americanos que questionaram a postura de Bolsonaro em meio à pandemia. A explosão dos números no Brasil fizeram diversas autoridades, como o diretor de vigilância da Sáude do Paraguai  e o presidente da Argentina, Alberto Fernández , demonstrarem preocupação com a possibilidade de a doença extrapolar as fronteiras brasileiras. Outro a demonstrar seu descontentamento foi o secretario da Presidência do Uruguai , que ainda em maio decidiu aumentar o controle nas fronteiras.

Também no mês passado, a  Organização Mundial de Saúde (OMS) elevou as críticas e questionamentos sobre o tratamento dado pelo governo brasileiro ao tema. A entidade, que já apontou a América do Sul como novo epicentro da doença  por causa do Brasil, disse que o  país ainda não enfrentou o pior momento da pandemiacobrou coerência  após as omissões de dados dos últimos dias.

Tais cobranças fizeram com que Bolsonaro se revoltasse com a instituição e ameaçasse se retirar do grupo de financiadores. Segundo ele, a  OMS estaria apresentando "viés ideológico" e a possível saída se daria por conta do posicionamento sobre o uso da cloroquina e pela recente retirada dos EUA.

Bagunça na Saúde

General
José Dias/PR
Interino, general Eduardo Pazuello assumiu saídas de Mandetta e Teich da pasta da Saúde

Por fim, outro ponto que tem gerado descontentamento da mídia internacional é o fato de que o Ministério da Saúde já teve diversas mudanças em meio à pandemia do Covid-19. Não bastasse as duas trocas de ministros, com as saídas de  Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich , a pasta, que agora é comandada interinamente por um general , também  perdeu secretários e outros funcionários.

Tais modificações fizeram com que as diretrizes sobre tratamentos, isolamento social e outros pontos relacionados à pandemia sofressem diversas modificações. Um bom exemplo é o uso da cloroquina, exaltada desde o início por Bolsonaro, mas que encontrava resistência em Mandetta e Teich. Com a chegada de Pazuello, passou a ser opção de tratamento para todos os tipos de casos de coronavírus .

A "passagem relâmpago" do empresário Carlos Wizard , que foi cogitado para assumir secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde e desistiu da indicação após a repercussão negativa de uma fala sobre "recontagem de mortos" , também envolveu o uso do remédio. Apesar de não ser médico, ele também era favorável ao uso, até mesmo como prevenção.

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