Menino carrega caixa de sabão fornecida pela ONU
OCHA/ Muath Algabal
Menino carrega caixa de sabão fornecida pela ONU

Desde a madrugada de 24 de fevereiro (horário de Brasília), a cobertura jornalística no Brasil tem como foco a guerra da Rússia contra a Ucrânia. A dimensão do conflito justifica o espaço:  mais de 500 civis mortos e dois milhões refugiados , segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), além do impacto econômico a nível internacional.


Por outro lado, outros conflitos sangrentos ao redor do mundo não recebem a mesma atenção. Um exemplo é a guerra no Iêmen, considerada pela ONU a maior crise humanitária do mundo.


Para Inajara Abbude, professora de História da Escola Gênesis, em Salvador, tal disparidade tem como pano de fundo, entre outras coisas, o eurocentrismo. "A gente ainda tem um resquício do eurocentrismo. A Europa é o centro do mundo", frisa, em entrevista ao iG .


Declarações de líderes mundiais reforçam esse entendimento. O primeiro-ministro da Bulgária, Kiril Petkov, disse que não se trata dos refugiados "a que estão acostumados", mas sim de europeus. "Essas pessoas são inteligentes, elas são educadas. Essa não é a onda de refugiados a que estamos acostumados, cuja identidade não conhecemos, pessoas com passado pouco claro, que poderiam até ser terroristas", declarou.


Nesta semana, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Mattias Tesfaye, disse que quando "um vizinho europeu é exposto" como se vê na Ucrânia, "não há a menor dúvida" de que se deve ajudar. Porém, ele representa a mesma nação que, segundo a agência de notícias italiana Ansa, tem  pedido que refugiados sírios retornem ao seu país de origem, ainda em guerra civil.


"Ninguém se incomoda, a verdade é essa", diz a professora, ao citar conflitos que tomam o Oriente Médio, como a guerra civil na Síria, e também o continente africano. "Existe eurocentrismo e etnocentrismo aí nessa perspectiva, então a gente não pode deixar de abrir mão de visualizar dessa forma", ressalta, citando também a visão de mundo que faz o indivíduo ter o seu grupo étnico como mais importante ou superior aos demais.


Na própria Ucrânia, africanos têm enfrentado dificuldade para se refugiar em outros países. Logo nos primeiros dias de conflito, o presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari,  repudiou o racismo enfrentado por estudantes negros que eram impedidos de atravessar as fronteiras. A página Africa Facts Zone até divulgou um vídeo em que mostra africanos sendo mandados para o fim da fila de embarque em trens para dar prioridade aos ucranianos.


Em meio a isso, Inajara lembra que esse mesmo racismo foi manifestado no âmbito da pandemia, a exemplo do processo de doação de vacinas contra a Covid-19. Milhares de doses de imunizantes foram doadas à África com prazo curto de validade, conforme apontado por entidades como o African Vaccine Acquisition Trust (Avat), os centros africanos de Controle e Prevenção de Doenças, reunidos no Africa CDC, e a Covax, aliança criada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para distribuir vacinas.


"Então, qual é a questão que está ligada aí? Pro continente europeu, pro continente norte-americano? Porque há um posicionamento entre eles com essa comoção", pontua a professora, antes de oferecer outra camada de contexto ao conflito russo-ucraniano.


"Não é a Ucrânia necessariamente, né? É aquela tensão da corrida armamentista, da Guerra Fria. E o continente africano? E a guerra na Etiópia? Ela deixou de existir? De jeito nenhum".


Inajara afirma que essa guerra realça o "fantasma do socialismo", que põe de um lado os Estados Unidos e, do outro, a Rússia. De fato, a invasão russa foi justificada pelo presidente Vladimir Putin como uma reação ao desejo do governo do ucraniano Volodymyr Zelensky de integrar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).


Liderada pelos americanos, a aliança militar criada em 1949 para se opor à hoje  extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) reúne diversos países do Ocidente e já avança pelo leste europeu. Para o governo russo, tê-la tão próxima de suas fronteiras seria uma ameaça à segurança.


Já o presidente americano, Joe Biden, disse que a intenção de Putin é restabelecer a URSS, bloco do qual Rússia e Ucrânia um dia fizeram parte. Especializado no período soviético, o historiador Rodrigo Ianhez disse ao iG nesta semana que  o próprio líder russo critica a divisão territorial estabelecida no bloco socialista, pois partiu dali a delimitação do território ucraniano como é conhecido hoje. Para ele, se Putin quer restaurar alguma coisa são os "territórios historicamente russos".


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Diante desses fatores, Inajara sustenta que a guerra na Ucrânia acende o mito da luta entre socialismo e capitalismo. 


"Os países capitalistas estão ali, promovendo a comoção social. (...) Se você parar pra pensar em tamanho geográfico, a Etiópia é muito maior do que a Ucrânia. Mas por que então o mundo não se volta para os conflitos que tem na Etiópia? Por que o mundo não se volta pro conflito do Oriente Médio, por exemplo? A gente já está tratando a questão do Oriente Médio como se já não tivesse mais jeito", lamenta a professora, ao mencionar, por exemplo, os conflitos étnicos presentes em países como o Afeganistão.


Confira abaixo outros três conflitos simultâneos à guerra na Ucrânia que também merecem atenção:

Guerra no Iêmen

Tudo começou ainda em 2011, na Primavera Árabe. Na época, a revolta popular fez o então presidente Ali Abdullah Saleh renunciar. No lugar, assumiu o vice Abdrabbuh Mansour Hadi que, sem estabilidade, também caiu - rebeldes xiitas do movimento huti tomaram o controle da capital, Saná, em 2014, e, no início de 2015, Hadi se exilou.


Naquele ano, a guerra ganhou contornos internacionais, com a  Arábia Saudita e outros países árabes da região fazendo ataques aéreos contra os hutis, a fim de restaurar o governo de Hadi. Essas nações eram financiadas pelos Estados Unidos, Reino Unido e França, países que hoje repudiam a guerra iniciada pela Rússia contra a Ucrânia.


Desde então, as tropas da coalizão conseguiram restabelecer o governo de Hadi, mas não expulsar os hutis. Com isso, os grupos seguem em um confronto armado , classificado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como a maior crise humanitária do mundo .


A ONU tem fracassado em suas tentativas de restabelecer a paz e estima que 80% da população foi deixada em extrema vulnerabilidade. A entidade afirma que mais de 370 mil vidas foram perdidas direta ou indiretamente para o conflito.


Guerra na Síria

Assim como no Iêmen, a  guerra na Síria tem suas raízes na Primavera Árabe, nome dado aos protestos que eclodiram no norte da África e no Oriente Médio entre 2010 e 2011. Em meio ao cenário de instabilidade econômica e política, grupos começaram a protestar contra o presidente Bashar al-Assad.


A reação por parte do governo sírio foi violenta e o conflito chegou a outro patamar, com grupos de oposição se armando. O Estado Islâmico (EI) e a Al Qaeda também se envolveram, os  Estados Unidos e uma coalização internacional fizeram ataques aéreos contra o EI, a Rússia também bombardeou os opositores de Assad, e o resultado foi uma guerra civil que já dura mais de 10 anos. 


Em junho do ano passado, o Observatório Sírio para os Direitos Humanos apontou que os conflitos provocaram quase 500 mil mortes até aquele momento. Mais de seis milhões de sírios estão refugiados, segundo a Agência da ONU para Refugiados (Acnur).


Guerra na Etiópia

Mais recente, mas não menos devastadora. A guerra na Etiópia começou em novembro de 2020, com ataques e contra-ataques entre diferentes etnias. Após ganhar um Nobel da Paz, o primeiro-ministro do país, Abyi Ahmed, ordenou um ataque à Frente de Libertação do Povo Tigré (TPLF, na sigla em inglês), coalizão que antes comandava o governo local.


Em resposta, os tigré se rebelaram contra o governo e, desde então, os grupos brigam pelo controle do país. 


A Organização das Nações Unidas afirma que pelo menos 300 civis foram mortos por ataques aéreos apenas de novembro para cá. Quase 20 dias antes do início da guerra na Ucrânia, em fevereiro, a Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, declarou preocupação com a escalada de violência no país africano. Com o conflito armado, a Etiópia tem cerca de 400 mil pessoas passando fome.

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** Ailma Teixeira é repórter nas editorias Último Segundo e Saúde, com foco na cobertura de política e cidades. Trabalha de Salvador, na Bahia, cidade onde nasceu e se formou em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), em 2016. Em outras redações, já foi repórter de cultura e entretenimento. Atualmente, também participa do “Podmiga”, podcast sobre reality show, e pesquisa sobre podcasts jornalísticos no PósCom/Ufba.

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