
Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, afirmou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que sofreu ameaças e intimidações para não avançar com uma colaboração premiada. Em depoimento prestado a um juiz auxiliar do ministro André Mendonça , o empresário disse que pretendia revelar informações envolvendo pessoas ligadas ao “núcleo do atual governo” e acusou integrantes da Polícia Federal de dificultarem as negociações. As informações são do Estado de S. Paulo e do TMC.
Durante a audiência, Vorcaro afirmou que sofreu o que classificou como “tortura psicológica” durante a custódia e em deslocamentos realizados sob escolta federal.
Segundo o empresário, agentes teriam feito ameaças relacionadas às informações que ele pretendia apresentar às autoridades. Em um dos episódios relatados, um agente teria sugerido que ele fosse jogado de um helicóptero durante um deslocamento.
Vorcaro também afirmou que familiares teriam sido ameaçados e disse temer pela própria segurança e pela de sua mãe e irmã.
As acusações foram feitas pelo empresário durante o depoimento e ainda não representam comprovação de que as ameaças ou irregularidades tenham ocorrido.
Delação envolveria pessoas do governo
Vorcaro afirmou que sua intenção era colaborar com as investigações e revelar informações sobre pessoas com quem teria mantido relações durante sua atuação no setor financeiro.
Segundo ele, parte dessas relações envolveria integrantes do “núcleo do atual governo” e pessoas de instituições públicas.
O empresário declarou que algumas dessas relações teriam ultrapassado “linhas de moralidade” e “linhas de ilicitude”. No entanto, as declarações ainda precisam ser verificadas pelas autoridades.
Em junho deste ano, a defesa de Vorcaro apresentou uma proposta de colaboração premiada à Procuradoria-Geral da República. O acordo foi rejeitado sob o argumento de que não havia elementos novos suficientes.
Diretor da PF é citado
Entre os nomes mencionados por Vorcaro está o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
O empresário afirmou que mantinha uma relação pessoal e cordial com Rodrigues antes da Operação Compliance Zero, incluindo participação em eventos, viagens e encontros que também teriam envolvido familiares.
Para Vorcaro, essa relação poderia gerar um conflito de interesses caso uma eventual delação envolvesse pessoas ligadas à estrutura responsável pela investigação.
O empresário afirmou que não teria condições de prestar colaboração sobre fatos envolvendo pessoas que estariam encarregadas de acompanhar ou analisar a própria corroboração das informações.
A TMC informou que não conseguiu contato com a Polícia Federal ou com Andrei Rodrigues para comentar as acusações.
Defesa pede canal independente
Diante das alegações, a defesa de Vorcaro pediu ao STF que seja criado um canal seguro e independente para que o empresário possa negociar uma eventual colaboração premiada.
A intenção é evitar, segundo a defesa, que as informações sejam submetidas à estrutura da PF que Vorcaro acusa de tentar impedir seu depoimento.
O conteúdo da audiência foi mantido sob sigilo e encaminhado novamente a André Mendonça, relator do caso Master no STF.
Vorcaro não cita financiamento de Dark Horse
A declaração sobre a intenção de delatar integrantes do governo também chama atenção porque Vorcaro não mencionou, nesse contexto, sua relação com o financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Segundo informações divulgadas pelo Estado de S. Paulo, o empresário também teria sido questionado sobre outros assuntos relacionados às suas relações políticas e empresariais.
Reportagens recentes apontaram ainda que Vorcaro fez repasses milionários para a produção do filme, incluindo um novo pagamento de US$ 1,6 milhão, o que equivale a aproximadamente R$ 8.338.640, após cobranças relacionadas ao projeto.
Relação com Alexandre de Moraes
O depoimento ocorre em meio à divulgação de outro relatório da Polícia Federal envolvendo Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes .
A PF encontrou no celular do ex-banqueiro mensagens enviadas ao ministro pelo WhatsApp. Vorcaro utilizava o recurso de visualização única, mas deixou registros no próprio iPhone ao escrever os textos no aplicativo Notas e fazer capturas de tela antes dos envios.
Os investigadores conseguiram recuperar parte desse material e reconstruir a sequência das ações realizadas no aparelho.
Entre os registros estão cinco mensagens enviadas a Moraes em 17 de novembro de 2025, véspera da prisão de Vorcaro. Em outros contatos, o ex-banqueiro pediu ajuda diante de possíveis ações da PF e chegou a perguntar se deveria deixar o país.
O relatório também aponta pelo menos seis encontros entre Moraes e Vorcaro. Como apenas o celular do ex-banqueiro foi analisado, a PF não conseguiu recuperar eventuais respostas enviadas pelo ministro.
Caso está nas mãos do STF
O material sobre a relação entre Moraes e Vorcaro foi analisado por André Mendonça, que determinou a retirada do sigilo do relatório e encaminhou os autos para possível análise do plenário do STF.
Contudo, a Procuradoria-Geral da República pediu a nulidade do relatório e o arquivamento da apuração envolvendo Moraes.
Agora, caberá ao presidente do STF, Edson Fachin, decidir se o caso será arquivado ou levado ao plenário da Corte.
As novas acusações feitas por Vorcaro sobre ameaças e sobre uma suposta tentativa de impedir sua delação ainda precisam ser analisadas pelas autoridades. Até o momento, não há comprovação independente das acusações apresentadas pelo empresário.