
A Polícia Federal conseguiu reconstruir mensagens enviadas por Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes , do Supremo Tribunal Federal (STF), por causa de rastros deixados no celular do empresário. As comunicações eram enviadas pelo WhatsApp com o recurso de visualização única, que faz com que fotos, vídeos e áudios desapareçam depois de serem vistos pelo destinatário.
No entanto, o método não eliminava todos os registros. Segundo relatório da PF, Vorcaro escrevia os textos no bloco de notas do iPhone, fazia uma captura da tela e só depois abria o WhatsApp para encaminhar a imagem. As capturas permaneciam armazenadas no aparelho e acabaram permitindo que os investigadores identificassem um padrão de comunicação.
As informações constam de relatório de 218 páginas produzido pela PF e tornado público após o ministro André Mendonça retirar o sigilo da investigação. As informações são do Poder360.
Como funcionava a comunicação
De acordo com a investigação, Vorcaro e Moraes utilizavam um método que tinha como objetivo dificultar a permanência das mensagens nos celulares.
Em vez de escrever diretamente no WhatsApp, Vorcaro redigia o conteúdo no aplicativo de notas. Depois, fazia um print da tela e enviava a imagem pelo recurso de visualização única.
Quando o destinatário abria a mensagem, o conteúdo deixava de ficar disponível na conversa.
O problema para o empresário foi que a etapa anterior ao envio, a captura da tela, deixou registros no próprio iPhone.
Segundo a PF, a sequência se repetia em diferentes ocasiões. Vorcaro abria o bloco de notas, modificava o texto, fazia a captura da tela, o sistema gerava um arquivo temporário, o aplicativo era fechado, o WhatsApp era aberto e a imagem era enviada.
A proximidade entre essas ações permitiu aos investigadores estabelecer uma relação entre os textos preparados e as mensagens encaminhadas.
iPhone deixou arquivos que não eram visíveis ao usuário
Um dos principais elementos encontrados pela perícia foram arquivos em formato PDF que continham os mesmos textos presentes nas capturas de tela.
Segundo a PF, esses arquivos eram gerados automaticamente pelo sistema do iPhone e armazenados em uma área que não fica disponível para um usuário comum.
Ou seja, mesmo que a mensagem enviada pelo WhatsApp desaparecesse depois de ser visualizada, o conteúdo original havia deixado outro tipo de registro no aparelho.
A PF descreveu no relatório que a análise cronológica mostrou uma sucessão rápida entre a edição da nota, a captura da tela, a criação do PDF temporário e o posterior envio pelo WhatsApp.
PF usou dois softwares na perícia
Para acessar os dados do aparelho, a Polícia Federal utilizou inicialmente o Cellebrite, ferramenta empregada para extração de informações de dispositivos eletrônicos.
O celular analisado era um iPhone 17 Pro, apreendido com Vorcaro durante a Operação Compliance Zero, em novembro de 2025.
Depois da extração, os dados foram organizados por meio do Iped (Indexador e Processador de Evidências Digitais), software próprio da PF.
A ferramenta permitiu reunir e cruzar registros de diferentes aplicativos e atividades realizadas no aparelho. Dessa forma, os investigadores conseguiram identificar a sequência de ações que precedia os envios das mensagens.
Como a PF ligou os prints a Moraes
O celular de Vorcaro continha as capturas de tela, mas os investigadores precisavam estabelecer para quem aquelas imagens haviam sido enviadas.
Para isso, a perícia cruzou os horários dos prints e dos arquivos temporários com os registros de utilização do WhatsApp.
A sequência permitiu identificar um padrão, uma vez que depois de preparar e capturar o texto no bloco de notas, Vorcaro acessava o WhatsApp e fazia o envio.
Em parte dos registros, o destinatário aparecia associado ao contato salvo no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
Assim, mesmo sem a mensagem permanecer na conversa do WhatsApp, os investigadores conseguiram relacionar o conteúdo preparado no bloco de notas ao envio realizado pelo aplicativo.
PF não conseguiu recuperar as respostas de Moraes
Como o aparelho analisado era o de Vorcaro, a PF conseguiu identificar as mensagens enviadas pelo empresário, mas não teve acesso ao conteúdo das respostas que teriam sido encaminhadas por Moraes pelo mesmo sistema de visualização única.
O relatório aponta que não foi possível verificar se o ministro utilizava exatamente o mesmo procedimento de apagar os rastros das mensagens.
Por isso, em alguns diálogos, os investigadores conseguiram reconstruir o que Vorcaro escreveu, mas não o conteúdo da resposta recebida.
Foram encontradas 52 notas
A análise identificou 52 notas que apresentavam o mesmo padrão de produção e envio.
Cinco delas estavam relacionadas às mensagens encaminhadas em 17 de novembro de 2025, um dia antes da prisão de Vorcaro.
Naquele dia, o empresário enviou cinco mensagens ao contato atribuído a Moraes, entre 7h19 e 20h48. Os textos mencionavam investidores, possível vazamento de informações e pedidos para saber se havia alguma novidade ou possibilidade de bloquear medidas contra ele.
A última mensagem foi enviada às 20h48. Vorcaro afirmou que uma operação havia sido concluída e escreveu que, no dia seguinte, começariam “as batidas do Esteves”.
Relatório foi produzido em 72 horas
A PF informou ainda que a análise do celular não foi exaustiva. O trabalho foi realizado em um prazo de 72 horas, determinado judicialmente. Por isso, os investigadores alertaram que podem existir outras citações ou referências indiretas ainda não identificadas.
O relatório foi entregue pela PF ao ministro André Mendonça em 27 de agosto de 2026 e posteriormente teve o sigilo levantado.
Mendonça determinou que os novos elementos sejam analisados pelo Plenário do STF em uma sessão presencial e pública.
O que a investigação apura
O relatório faz parte da investigação sobre uma possível rede de influência e monitoramento atribuída a Vorcaro. A Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025, investiga suspeitas de fraudes relacionadas à venda de carteiras de crédito do Banco Master ao Banco de Brasília.
Na noite de 17 de novembro de 2025, Vorcaro foi preso pela PF quando tentava embarcar em um jato particular com destino a Malta e, depois, a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
As mensagens encontradas no celular passaram a integrar uma investigação mais ampla sobre os contatos do empresário com autoridades e outras pessoas ligadas ao caso.
Até o momento, os elementos descritos pela PF representam conclusões da investigação e ainda serão submetidos à análise das instâncias competentes.