Escândalo de grampos enfraquece David Cameron no Reino Unido

Premiê britânico tenta se distanciar de figuras importantes em escutas ilegais, como Rebekah Brooks e Rupert Murdoch

Associated Press | 13/07/2011 14:13

Texto:
enviar por e-mail
* campos são obrigatórios
corrigir
* campos obrigatórios

Ele já pareceu defensivo, indignado, assustado. Mas, recentemente, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, raramente parece estar no comando.

O líder britânico perdeu sua aura confiante conforme sua amizade com figuras centrais no escândalo de escutas telefônicas gerou a maior crise de seu governo. Dúvidas sobre o escândalo ter prejudicado seu mandato continuam a aumentar.

Desde o primeiro momento em que surgiram alegações de que o News of the World havia grampeado o telefone celular da estudante Milly Dowler, Cameron tem estado na defensiva. Ele tem sido repetidamente forçado a responder a perguntas sobre suas ligações com Andy Coulson, seu ex-porta-voz e ex-editor do tabloide, que foi preso na semana passada por seu envolvimento no escândalo.

Foto: AP

David Cameron deixa sua residencia em direção ao Parlamento britânico, nesta quarta-feira

O jornal estava sob a administração de Coulson quando um repórter responsável pela realeza e um investigador particular foram presos em 2007 por grampear os telefones de membros da família real. Coulson renunciou ao cargo de editor, embora tenha afirmado que não sabia nada sobre a prática de escutas telefônicas.

Logo depois, Cameron, então líder da oposição, contratou Coulson como seu chefe de comunicações e o manteve no cargo quando se tornou primeiro-ministro do Reino Unido em maio de 2010. Coulson renunciou em janeiro depois do surgimento de uma nova onda de denúncias sobre a prática de escutas telefônicas no News of the World.

Confrontado com as críticas de Ed Miliband, líder do opositor Partido Trabalhista, por seu "terrível erro de julgamento" na contratação de Coulson, Cameron disse acreditar que Coulson merecia "uma segunda chance" e confiou quando ele disse que não sabia nada sobre as escutas telefônicas.

Quando Coulson, 43 anos, foi preso e solto sob fiança na semana passada, Cameron pareceu na melhor das hipóteses ingênuo. "Isso não o mostra em uma luz positiva", disse Victoria Honeyman, especialista em política britânica da Universidade de Leeds. "Isso faz com que seu julgamento pareça questionável”.

Apelo

Nesta quarta-feira, Cameron fez um apelo para que o magnata australiano Rupert Murdoch, dono da News Corporation, desista de finalizar a compra da operadora de TV a cabo BSkyB. A declaração foi feita no Parlamento britânico, durante uma sessão em que Cameron foi pressionado por parlamentares da oposição e buscou se distanciar da empresa de Murdoch, envolvida em um escândalo de escutas ilegais. A empresa do magnata australiano retirou sua oferta de compra da operadora de TV a cabo britânica BSkyB.

A amizade de Cameron com a elite da mídia agora envolvida no escândalo também alimentou uma reação pública, em particular a sua camaradagem com Rebekah Brooks.

Brooks era editora do News of the World na época em que o telefone de Milly Downer, jovem de 13 anos assassinada, foi grampeado. Agora é chefe-executiva da News International, a divisão de jornais britânicos da News Corp. de Rupert Murdoch.

Cameron foi fotografado com Brooks em diversas festas, embora todos os primeiros-ministros da Grã-Bretanha na última década tenham dado atenção á executiva de mídia de 43 anos de idade, uma das mulheres mais influentes no jornalismo britânico. Estações de televisão têm veiculado um vídeo de Tony Blair saudando ela com um aceno amigável enquanto caminhava pelos escritórios da News International. Gordon Brown era um dos convidados em seu casamento.

Relação

Mas enquanto existe uma percepção de que os antigos líderes do Partido Trabalhista tenham cortejado Brooks para garantir o aval do império de mídia de Murdoch, a relação entre Brooks e Cameron parecia mais próxima. A casa dela fica a poucos quilômetros da casa de campo de Cameron na região de Cotswolds - um conjunto de aldeias idílicas a algumas horas de Londres. Os meios de comunicação britânicos descreveram seu círculo social como o grupo de Norton Chipping - local da aldeia onde Brooks vive. A filha do magnata australiano Elisabeth Murdoch e seu marido, o publicitário Matthew Freud, vivem nas proximidades.

O jornal Daily Mail retrata o grupo como jornalistas e políticos poderosos que "frequentam as mesmas festas, jantam e até andam juntos”.

Círculo

Cameron, 44 anos, tem tentado se distanciar de Brooks nos últimos dias. Em uma entrevista coletiva na semana passada, ele disse que teria aceitado sua demissão se ela tivesse sido a responsável. No entanto, ele tem sido incapaz de desfazer a sua associação com Murdoch, cujos jornais o apoiaram na última eleição.

"Murdoch não parece bom no momento e se você estiver perto de alguém que parece fraco, vai parecer fraca", disse Tim Leunig, historiador da London School of Economics. "Se Cameron quer parecer forte precisa tomar uma posição decisiva, proibindo todos os jornalistas da News International de participar de briefings do governo".

Ainda assim, analistas sugerem que Cameron pode sobreviver. "Em última instância, Cameron não é responsável por esse escândalo", disse Honeyman. "Ele está implicado nele por ser amigo relativamente próximo de Rebekah Brooks, mas ele não é o único nisso".

De fato, o ritmo alucinante com que esse drama tem se desenrolado pode ser a salvação de Cameron - cada nova revelação do escândalo aprofunda o problema e trás consigo novos nomes da política.

O foco estava em Cameron e Coulson depois da prisão deste último na semana passada, mas a notícia foi rapidamente superada pela denúncia irritada feita pelo ex-primeiro-ministro Gordon Brown sobre o tabloide The Sun, que publicou detalhes sobre a fibrose cística de seu jovem filho, e do interrogatório mordaz feito pelos legisladores com os policiais encarregado de investigar o escândalo de escutas telefônicas anos atrás.

Howard Wheeldon, estrategista da corretora do BCG, sugere que o maior perigo para Cameron seja que a crise das escutas telefônicas distrai-lo da situação econômica da Grã-Bretanha. "Cada minuto que o primeiro-ministro é obrigado a estar envolvido na crise da News International menos trabalho ele e sua equipe conseguem fazer para colocar economia do Reino Unido no caminho certo", disse ele.

"Com vários anúncios do governo agora adiados para o segundo semestre e com o Parlamento em recesso a partir do dia 19 de julho, parece que a nação está pagando um preço demasiado alto pelo fracasso de Murdoch em fazer alguns de seus negócios de uma forma boa e adequada”, disse Wheeldon.

*Por Meera Selvaa

Texto:
enviar por e-mail
* campos são obrigatórios
corrigir
* campos obrigatórios

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG


Previsão do Tempo

Previsão Completa

 
  • Hoje
  • Amanhã

INDICADORES ECONÔMICOS

Câmbio

moeda compra venda var. %

Bolsa de Valores

indice data ultimo var. %
  • Fonte: Thomson Reuters
Ver de novo