Dilma defende adesão palestina à ONU em discurso inaugural

Para a presidenta, o reconhecimento de um Estado palestino na organização ajudará na obtenção da 'paz no Oriente Médio'

iG São Paulo |

A presidenta Dilma Rousseff afirmou nesta quarta-feira, ao inaugurar o debate anual da Assembleia Geral da ONU, que "chegou o momento" para a adesão de um Estado palestino como membro pleno da organização.

AP
Dilma abre Assembleia Geral da ONU, em Nova York

Dilma abriu a Assembleia Geral nesta terça-feira. A função está a cargo do Brasil desde a 1ª Sessão Especial da Assembleia, em 1947. À época, coube ao diplomata brasileiro Oswaldo Aranha o discurso inaugural da sessão, tradição que se manteve desde então.

Leia o discurso de Dilma na íntegra

"Chegou o momento de ter representada a Palestina a pleno título", afirmou Dilma, deixando clara a posição do Brasil em meio às itensas negociações que visam evitar uma crise diplomática pelo pedido de adesão dos palestinos à ONU.

Dilma acrescentou que o Brasil já reconhece o Estado palestino com as fronteiras estabelecidas antes da guerra de 1967. Para a presidenta, esse reconhecimento ajudará a obter "uma paz duradoura no Oriente Médio", e assinalou que "apenas uma Palestina livre e soberana" poderá atender aos pedidos de Israel por segurança.

Ela ressaltou que em seu País, diferentes religiões convivem sem conflitos, e assim deveriam ser as relações bilaterais entre Israel e os palestinos. "Venho de um país onde descendentes de árabes e judeus são compatriotas e convivem em harmonia, como deve ser."

Ao finalizar seu pronunciamento sobre o polêmico tema, Dilma foi muito aplaudida pelos presentes na Assembleia Geral da ONU nesta quarta.

O presidente da ANP, Mahmoud Abbas, pretende formalizar o pedido de adesão plena à ONU na sexta-feira. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que se reunirá com o líder no final do dia, pedirá que ele desista da medida.

"O presidente dirá privadamente o que dirá em público : que os EUA não acreditam que esta seja a melhor forma de tornar realidade as aspirações palestinas", afirmou o assessor-adjunto de Segurança Nacional da Casa Branca, Ben Rhodes. "Não há atalho para a paz."

Os governos israelense e americano dizem que o reconhecimento do Estado palestino deveria se dar por meio de negociações diretas, e que o pedido palestino à ONU inviabilizará o processo de paz do Oriente Médio. Os palestinos dizem que se viram obrigados a recorrer à ONU devido à paralisação das negociações com Israel que já dura mais de um ano.

Obama quer evitar que a questão chegue ao Conselho de Segurança - onde as adesões precisam ser aprovadas - porque o uso do poder de veto, o qual os EUA já afirmaram reiteradas irão fazê-lo, acarretaria graves riscos políticos para os EUA num momento de turbulências políticas no Oriente Médio. O Brasil ocupa uma das cadeiras rotativas do Conselho, e os palestinos precisam de nove votos dos 15 membros para fazer valer sua medida.

Numa última tentativa de evitar o impasse, diplomatas do chamado Quarteto de Negociadores do Oriente Médio - EUA, Rússia, União Europeia e ONU - estão realizando várias reuniões nesta semana, mas até agora sem sinais de avanços.

Na reunião com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, Obama deve discutir formas de dissuadir Abbas, além de pressionar o israelense a melhorar suas relações com Egito e Turquia, dois importantes aliados islâmicos dos EUA na região.

Na terça-feira, Obama e Dilma re reuniram , mas evitaram falar sobre o reconhecimento do Estado palestino. De acordo com um diplomata brasileiro que acompanhava a presidenta, não houve diálogo sobre o tema "porque os dois lados sabem perfeitamente que têm posições completamente opostas nesse assunto".

No encontro, Obama convidou Dilma para visitar seu país em 2012 e os dois conversaram sobre a crise europeia e o futuro da Líbia, pós-queda do regime de Muamar Kadafi.

Crise econômica

Em seu discurso em Nova York, Dilma também cobrou a união dos países no combate à crise econômica internacional. Segundo ela, o mundo vive um "momento delicado e uma oportunidade histórica", que pode derivar em "graves rupturas políticas e sociais sem precedentes" por conta da crise.

"Ou nos unimos (para combatê-la) ou sairemos todos derrotados. A crise é série demais para ser administrada por poucos", disse Dilma, pedindo ajustes fiscais nas nações afetadas por crises da dívida, combate ao protecionismo, e, em aparente referência à China, estímulo aos mercados internos de países superavitários e fim da guerra cambial – ou seja, de reduções artificiais do câmbio para beneficiar exportações.

"A reforma das instituições financeiras multilaterais deve prosseguir, aumentando a participação dos países emergentes", prosseguiu a presidenta, repetindo uma cobrança brasileira por mais voz ativa em órgãos como o FMI.

A presidenta também pleiteou por mudanças no Conselho de Segurança da ONU, do qual o Brasil historicamente aspira se tornar membro permanente, com direito a veto. Para a presidente, o Conselho, na forma como está, perde "legitimidade".

Primavera Árabe

Dilma também saudou em seu discurso os protestos da Primavera Árabe, dizendo que o Brasil "se solidariza com a busca pela liberdade".

Mas a presidenta criticou interferências "com o uso da força" em países atravessando revoltas populares e repressão governamental – em nova mostra da oposição do governo brasileiro à ação militar da Otan na Líbia, feita com base em uma resolução aprovada na ONU.

Na opinião de Dilma, "é preciso que as nações encontrem uma forma legítima de ajudar (os países em convulsão)”. “Estamos convencidos de que o uso da força é a última alternativa. A busca pela paz não pode se limitar a intervenções em situações extremas."

Com AFP e BBC

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