BBC é acusada de usar estudantes para filmar na Coreia do Norte

Por BBC Brasil |

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Associação de estudantes diz que emissora usou grupo como 'escudo humano' para filmar no país; BBC diz que alunos sabiam de plano e defende levar programa ao ar

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Para Alex Peters-Day, BBC não deu informações detalhadas aos alunos sobre a gravação

A BBC se viu envolvida em nova polêmica neste fim de semana, acusada de por em risco a segurança de estudantes da universidade britânica London School of Economics (LSE). O programa de TV Panorama enviou três repórteres com um grupo de estudantes que obteve autorização para visitar a Coreia do Norte. Os repórteres filmaram em segredo um documentário sobre o país.

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Alex Peters-Day, representante de uma associação de alunos da LSE, afirmou que o programa - que deve ir ao ar no Reino Unido nesta segunda-feira (15) - deveria ser cancelado porque os alunos teriam sido enganados e, por isso, não poderiam ter dado autorização consciente para a gravação. Peters-Day acusou a BBC de "usar os estudantes como escudo humano" para gravar no país.

A BBC se recusou a cancelar a programação, afirmando que os estudantes foram devidamente alertados sobre os riscos antes da viagem. O diretor de programas de jornalismo da emissora, Ceri Thomas, disse que o governo norte-coreano foi a única parte enganada pela BBC. Ele afirmou que os estudantes foram informados dos riscos em três ocasiões, e que a autorização para a viagem foi dada "pela cúpula" da BBC.

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Segundo Thomas, o programa tem informações que são de grande interesse do público. A Coreia do Norte é um dos regimes mais fechados do mundo, e nas últimas semanas tem escalado seu discurso, ameaçando atacar com mísseis a vizinha Coreia do Sul e o Japão.

"Nós temos a obrigação de dar informações adequadas a pessoas envolvidas em uma viagem como essa para que elas possam nos dar o consentimento plenamente informadas", afirmou Thomas. "Eram dez estudantes. Nós dissemos a eles que haveria um jornalista na viagem e, se ele fosse descoberto, isso poderia significar prisão (para todos)."

Nove dos estudantes tinham entre 21 e 28 anos de idade, e o outro tinha 18, segundo Thomas.

Queixa

A LSE, entretanto, reclama que os estudantes não foram avisados de que havia no grupo uma equipe de três jornalistas, cujo objetivo era gravar um programa de televisão. A BBC afirma que a viagem foi organizada pela esposa do repórter do Panorama John Sweeney. O casal passou oito dias no país para fazer o programa, ao lado de um câmera.

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Thomas afirma que a esposa de Sweeney havia organizado uma viagem semelhante para estudantes há um ano, e que a última viagem não teria ido à frente se o Panorama não estivesse envolvido na organização.

A BBC admitiu que os estudantes tinham sido avisados inicialmente de que haveria apenas um jornalista viajando com eles, e que teriam sido avisados que na verdade havia três jornalistas na viagem quando o grupo estava em Pequim, antes de voar para Pyongyang.

A BBC informou ainda que três dos estudantes pediram "que suas imagens sejam retiradas" do programa ou que seus rostos não sejam visíveis nas imagens. "Uma das estudantes deixou absolutamente claro que não sabia o que aconteceu", protestou a representante da associação de alunos Alex Peters-Day, que não participou da viagem.

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"Para nós, essa é uma questão de bem-estar dos estudantes", acrescentou. "Os estudantes foram enganados e não tiveram condições de dar seu consentimento."

Peters-Day afirmou ainda que todas as futuras viagens de pesquisa da LSE estão "agora em risco". "Acho que a viagem foi organizada pela BBC como um possível artifício para entrar na Coreia do Norte, e isso é vergonhoso", comentou a representante de alunos. "Eles usaram estudantes basicamente como um escudo humano nesta situação."

Risco

Para o professor George Gaskell, pró-reitor da LSE, os estudantes foram colocados em um situação de potencial "perigo extremo".

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Gaskell afirma ter ficado aliviado pelo fato de funcionários da LSE não terem ficado "em dúvida sobre como retirar esses estudantes da solitária em uma prisão norte-coreana". "Acho que há menos perigo para estudantes do que há para meus colegas", acrescentou. "Alguns dos meus colegas no momento estão na África, na China e em vários outros países em situação delicada."

"Se a independência e integridade deles for contestada, eles podem ficar sob um risco considerável."

Censura

Diante da polêmica provocada pelo programa, a entidade Universities UK, que reúne algumas das mais renomadas universidades britânicas, disse lamentar "a abordagem da BBC neste caso". "As universidades precisam conseguir trabalhar com integridade e operar em áreas delicadas do mundo", afirmou a diretora-executivo da entidade, Nicola Dandridge.

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"A maneira como essa investigação da BBC foi conduzida pode não apenas ter colocado a segurança de estudantes em risco como também prejudicado a reputação de nossas universidades no exterior."

O repórter John Sweeney afirmou que a maioria dos estudantes com quem ele viajou apoiou a realização do programa. "Contestamos o que a LSE está dizendo", afirmou Sweeney a um programa de rádio da BBC. "Todos aqueles estudantes poderiam ter me dissuadido, mas não fizeram isso."

O jornalista do Panorama descreveu a Coreia do Norte como um "Estado nazista" que pratica "a forma mais extrema de censura". "É mais parecido com a Alemanha de Hitler do que qualquer outro Estado neste mundo no momento", comentou Sweeney. "É extraordinariamente assustador, sombrio e maligno."

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