Programas sociais e oposição fraca garantem popularidade de Chávez

Em meio a problemas acumulados em 13 anos no poder, presidente venezuelano também usa câncer para evitar desgaste de sua imagem

Marsílea Gombata - Caracas, Venezuela* | - Atualizada às

Violência , corrupção, falta de energia, inchaço da população carcerária, falha de abastecimento, inflação em torno de 30%. A lista de problemas que o presidente venezuelano, Hugo Chávez, carrega 13 anos depois de assumir o poder é extensa. Mas, surpreendentemente, os pontos baixos de seu governo não foram suficientes para desgastar sua imagem e, apesar dos pesares, o líder que se autoclama bolivarianista continua popular entre os venezuelanos.

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Petare, a maior favela da América Latina, fica em Caracas

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Dentro de casa, chavistas e opositores apontam o desenvolvimento na área social como o maior feito do presidente. Para muitos venezuelanos, o governante que lidera o processo classificado por ele mesmo como “socialismo do século 21” deu vida a uma classe social que até 1999 era praticamente desconsiderada pelos políticos.

“Tudo melhorou desde que ele se tornou presidente: educação, saúde, alimentos. Nas ruas, por exemplo, não vemos mais crianças”, disse ao iG a aposentada Clara Faridez Ribas. “É Deus no céu e nosso presidente na Venezuela.”

Para o cientista político Luis Lander, nos primeiros anos de seu governo o presidente priorizou programas sociais centrados nas “misiones”, voltadas principalmente para alimentação, com mercados populares com preços mais baixos. “Essas políticas tiveram êxito e publicidade tremendos. O governo executou de maneira importante no plano social o que nunca havia ocorrido em governos anteriores.”

Maivy Mat Machillanda, 17 anos, não consegue imaginar uma Venezuela – ou mesmo sua vida – sem Chávez hoje. Mãe de uma bebê de 1 ano, ela foi atingida pelas enchentes de dezembro de 2010 – que desalojaram 130 mil venezuelanos e deixaram mais de 30 mortos – e disse que ainda recebe assistência do governo e ganhou uma casa por meio de uma missão. “Como todo governo, o de Chávez tem seus defeitos, mas de modo geral é excelente”, avaliou.

Segundo a aposentada do setor têxtil María Sanchez, “o único problema do atual governo é querer ajudar gente que não merece”. “É preciso trabalhar para conseguir as coisas. No passado, trabalhávamos como animais e nos roubavam tudo”, protestou.

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As aposentadas Clara Faridez Ribas (E) e María Sanchez, na Praça Bolívar, em Caracas

Pela reeleição: Debilitado por câncer, Chávez aposta em campanha por rádio e TV

As missões são fundamentais para explicar o respaldo de Chávez dentro de casa, mas a personalidade do presidente e seu discurso inflamado contra o que chama de oligarquias também contribuem para que sua popularidade se mantenha alta depois de mais de uma década de governo. “Boa parte dos venezuelanos acredita na boa vontade dele. Para muitos cidadãos, o presidente tem vontade de fazer as coisas, ainda que alguns entraves não permitam que se chegue à ‘Venezuela do sonho de Chávez’”, disse o venezuelano Rafael Villa, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP.

Pesquisas do Insituto Datanálisis mostram que a popularidade do presidente gira atualmente em torno de 60%. O misterioso câncer que vem debilitando a saúde do presidente ajudou a aumentar a empatia e criar um sentimento de lástima e compaixão entre alguns. O presidente do instituto de pesquisa Datanálisis, José Antonio Gil Yépez, atribui o nível alto de aceitação do presidente ao manejo das informações sobre sua doença. Assim que anunciou estar com câncer, há um ano, Chávez viu sua popularidade crescer 10 pontos, chegando a 58,9%.

Gráfico mostra variação da popularidade de Chávez desde 1999:

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Problemas

Apesar do avanço social que se tornou a marca do governo chavista, sujeira, lixo e falta de investimentos em infraestrutura são visíveis nas ruas do país. A ânsia por dólares – e a facilidade em trocá-los por moeda local pelo dobro da cotação oficial – é reflexo de uma política de controle de divisas que não agrada ninguém. Nas zonas mais pobres, blocos de apartamento ao estilo soviético fazem a ideia de comunismo se confundir com pobreza. Vendedores ambulantes e excesso de sujeira em grandes avenidas de Caracas que levam a complexos de favelas como Petare (a maior favela da América Latina, com 1,2 milhão de habitantes) são notórios.

Até mesmo o avanço de programas sociais tem suas limitações. Como no caso da costureira Thais Ojeda, 41 anos. Natural de Maracaibo, no Estado petroleiro de Zulia, ela vive com os quatro filhos no cubículo que funciona como sua “tenda” em um mercado de artesanato em Caracas. “Busco uma casa por meio dos programas do governo há anos, mas eles dizem que tenho de esperar a minha vez. Falta moradia para quem precisa, mas as autoridades escondem isso”, contou. Há mais de dez anos, Thais abaixa as portas da loja quando anoitece e arma cinco colchões para ela e seus filhos de 23, 21, 18 e 12 anos dormirem.

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Thais Ojeda é vista onde trabalha e mora com os filhos na capital venezuelana

A falta de casas para quem precisa é apenas um tópico na lista de reclamações sobre pioras dos últimos anos. Em Caracas, o jornalista aposentado Ricardo Guerrero apontou também a deterioração da cidade, a falta de energia elétrica e os maus serviços como indicadores de fracasso dos últimos anos. “Hoje são muitos os descontentes. Além dos problemas estruturais, há perseguição política, violações constitucionais e insucesso econômico impossível de aceitar em um país que exporta um barril de petróleo a US$ 100”, avaliou. “Nunca acreditei em Chávez, ele é personalista e controla os poderes públicos.”

O descontentamento com o chavismo, explicou Lander, não garante o apoio necessário à oposição. As chances de reeleição do presidente são altas. Em pesquisa de 27 de março, ele aparece com 13 pontos de vantagem sobre Henrique Capriles Radonski , candidato da oposição pela Mesa da Unidade Democrática (MUD). Enquanto Chávez possui 44% das intenções de voto, seu rival tem 31%.

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Oposição

A impressão que se tem é que, durante os 13 anos de Chávez no poder, a oposição não conseguiu cativar os mais necessitados ou mesmo apresentar um projeto sólido voltado para camadas mais pobres do país. Se a parcela da população miserável passou a ter voz somente depois de Chávez assumir, há receio de que a volta da oposição ao poder signifique também o retorno da marginalização dessa parcela da população.

“A oposição não traz um projeto, algo contundente, que faça o povo se sentir parte”, observou o professor de diversidade cultural Jesús García. “Setores que antes estavam adormecidos hoje existem.”

Para o mecânico José Bolívar, a oposição ainda não está pronta para voltar ao poder. “Capriles não tem envolvimento político como Chávez. O governo atual não vai bem nem mal, mas vamos esperar. Nos roubaram durante décadas, por que não podemos aguardar mais para ver o resultado?”

A principal razão para o governo continuar com altos índices de popularidade, para a venezuelana Edmar Linarez, é o fato de Chávez ser “um presidente que se preocupa com seu povo”. “Veja o que as missões fizeram pelo país”, disse ao citar programas sociais voltados a crianças, idosos e moradias populares. Para a dona de casa de 36 anos, que vive em Maturín, no Estado de Monagas, com o marido e três filhos, todos os governos têm coisas ruins, mas em comparação aos anteriores, o de Chávez é bom.

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Nos edifícios de Caracas, pobreza se mistura ao estilo de blocos soviéticos

Que o chavismo conseguiu impulsionar a inclusão social é algo incontestável até mesmo para quem anseia por alternância de poder. Mas o líder de discursos eloquentes fez também com que a política se tornasse combustível para rivalidades e preconceito. “Do jeito que hoje o país está polarizado, a tendência é que haja cada vez mais exclusão”, opinou a estudante de sociologia Lucy Costa, 22 anos, que contou ter sido vítima de preconceito nas ruas. “Cansei de ouvir que sou rica porque sou branca”, contou.

A divisão no país pela qual a estudante culpa o chavismo é consequência direta de uma visão marxista que, segundo o cientista político Leandro Area, carrega o presidente. “Para Chávez, há duas classes que sempre se confrontarão. Ele continua sendo tão popular porque soube dividir o país e vende a ideia de que estamos divididos em duas partes: os privilegiados, que seguem partidos políticos tradicionais, e a Venezuela esquecida, marginalizada, que antes não recebia os benefícios da renda petroleira.”

Antonio Gonzáles, segurança do vice-presidente do governista PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), o comandante Árias Cárdenas, disse que é a vontade da maioria manter Chávez no poder. “O povo é quem manda e decide. Se acham que está há muito tempo no governo, que votem contra ele. O mesmo que o colocou tem o poder de tirá-lo”, concluiu.

*A repórter viajou a convite do Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela para o Programa de Acompanhamento Internacional das Primárias da Oposição

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