“Tragédia mostra falta de conhecimento das autoridades brasileiras”

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo |

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Especialista diz que País não fiscaliza estabelecimentos, não se preocupa em aprovar lei nacional e não induz faculdades a ensinarem prevenção a futuros profissionais

Um dos fundadores do Grupo de Pesquisa em Segurança contra Incêndio (GSI) da USP, o professor e engenheiro Alexandre Itiu Seito afirma que a tragédia de Santa Maria não chega a surpreender quem conhece a fragilidade do Brasil no combate e prevenção a desastres do gênero.

Infográfico: Veja como aconteceu o incêndio na boate em Santa Maria 

“Não há nada de inédito. A tragédia mostra é a falta de conhecimento das autoridades brasileiras”, diz ele, que há 40 anos estuda o fenômeno e, como especialista, tem alertado os órgãos públicos. Seito acredita que a tragédia gaúcha é só mais um episódio da crônica de mortes anunciadas pela negligência com que os desastres causados por incêndio são tratados.

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Segundo ele, além de não fiscalizar adequadamente os estabelecimentos, as autoridades nunca se preocuparam em dotar o país de uma legislação nacional e nem em induzir as faculdades de arquitetura e urbanismo a implantarem cursos de prevenção e combate a incêndios.

Mauricio Barbosa/Futura Press
Falhas na segurança da boate Kiss em Santa Maria são gritantes, segundo Alexandre Itiu Seito

Seito lembra que o desastre da boate Kiss tem as mesmas características de várias outras ocorridas em ambientes semelhantes, como a da casa noturna The Station, em Rhode Island, nos Estados Unidos em 2003: superlotação, material inflamável e altamente tóxico como revestimento de teto e paredes e pirotecnia em ambiente inadequado. O Brasil, segundo ele, não aprendeu nada com isso.

Com a experiência de quem ajudou a implantar as primeiras normas existentes no país, Seito diz que as falhas em Santa Maria são gritantes. Uma única saída de emergência, em caso de desastre, só funciona quando outros objetos como mesas e cadeiras e demais instalações internas estão bem distribuídos no ambiente. Quem diz o contrário, afirma, quer se esquivar de responsabilidades.

A brigada de incêndio ou de segurança deveria ter recebido treinamento adequado; os extintores, mesmo com o selo do Inmetro, deveriam ter sido testados; na dificuldade no manuseio de mangueiras, a existência de mangotinhos poderia ter ajudado a resolver; o mais grave na hora do tumulto, segundo ele, foi a falta de sinalização, o que justifica a notícia de que 180 corpos estavam amontoados no banheiro.

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A permissão de uso, como revestimento do forro, de material que causa combustão incompleta, aquela que solta muita fumaça e gera alta concentração de o monóxido de carbono – de alta letalidade – definiu, segundo ele, as dimensões da tragédia. Seito diz que a medida deveria, originalmente, ter sido adotada pelo fabricante, informando a limitação de uso na embalagem.

“Em locais fechados e de concentração, antes de começar a festa, alguém deveria fazer como as aeromoças antes da decolagem de um avião: informar as saídas de emergência e como a agir em caso de tumulto. É simples e as pessoas passam a ter mais chances de sobreviver”, diz Seito.

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Segundo ele, as tragédias estão demonstrando que o Brasil deve investir numa cultura de prevenção e combate. “É necessário educar. (as autoridades) Acham que aqui nunca vai acontecer ou só acontece com o vizinho”, observa.

Ele lembra as mudanças deveriam ter vindo a reboque do longo histórico de desastres facilitados pelo clima do país. “Basta baixar a humidade do ar. No ano passado ocorreram cerca de 40 incêndios em favelas em São Paulo”.

Faculdades não ensinam 
Seito diz que é possível “contar nos dedos” de uma das mãos as faculdades de arquitetura e urbanismo que adotam os cursos de combate e prevenção contra incêndios. A matéria ensinada atualmente faz parte do curso de engenharia, mas a carga, de 60 horas, é insuficiente para formar um profissional.

“Em 60 horas o professor consegue apenas listar as normas e regulamentos. Mas não ensina”, diz Seito. Para ele, o fundamental, é que junto com uma legislação aprovada pelo Congresso, os governos estimulem a criação de um mercado que abrigue profissionais bem formados.

A deficiência fica mais escancarada ainda, segundo ele, quando as Prefeituras mandam para as vistorias profissionais que não sabem o que estão fiscalizando. O despreparo passa então a combinar com outra anomalia: o surgimento das máfias que vivem das propinas dos alvarás.

Segundo o especialista, o setor é tão carente de políticas públicas que não há sequer estatísticas oficiais sobre as baixas humanas e prejuízos causados por incêndios no Brasil, mas ambas são de grandes dimensões. “Em Santa Maria o país perdeu centenas de jovens que seriam engenheiros, arquitetos, agrônomos, veterinários, todos de alto nível”, lamenta Seito.

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