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Nos últimos dias, presidente afirmou que não há fome no Brasil, questionou o trabalho da Comissão da Verdade e contestou o conceito de escravidão

Que Bolsonaro não mede as palavras na hora de dar uma opinião, todos já sabem. Mas, nos últimos 14 dias, o presidente parece ter intensificado sua metralhadora giratória. Tudo bem que o próprio já havia pedido desculpas por suas “caneladas”, ao dizer que nasceu para ser militar e não presidente. Pois as caneladas de Bolsonaro não param.

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A última declaração polêmica, e uma das que mais causaram indignação até agora, foi aplicada na segunda-feira (29), quando Bolsonaro afirmou que se o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, quisesse saber o que havia acontecido com o seu pai, Fernando Santa Cruz , ele contaria. De acordo com documentos oficiais, Fernando foi morto pela ditadura militar. Bolsonaro, contudo, afirmou que o jovem de 26 anos, na época, foi assassinado por um grupo de esquerda.

Ontem, Bolsonaro contestou o trabalho da Comissão Nacional da Verdade, que apura violações dos direitos humanos no período da ditadura militar. Apesar de um registro secreto da Aeronáutica datado de 1978 sobre a prisão de Fernando e um atestado de óbito aponta que ele foi morto “pelo Estado brasileiro”, ele insistiu que não existem documentos sobre a morte do pai de Felipe:

"A questão de 64, não existem documentos de matou, não matou, isso aí é balela", disse o presidente, afirmando que sua conclusão sobre o caso é um “sentimento”.

As declarações provocaram reações. Também ontem, o Ministério Público Federal (MPF) afirmou em nota que Bolsonaro tem o dever de revelar eventuais informações sobre crimes ocorridos na ditadura militar, em especial sobre o caso de Fernando Santa Cruz . De acordo com a nota, o desaparecimento forçado é considerado um crime permanente até que seja descoberto o paradeiro da vítima e, por isso, qualquer pessoa que tenha conhecimento sobre o caso e intencionalmente não revele à Justiça pode ser considerado participante do crime .

No total, foram 15 comentários polêmicos do presidente, em média, um a cada 24 horas. Veja quais foram: 

  • 1) 17/07 - "Não posso admitir que, com dinheiro público, se façam filmes como o da Bruna Surfistinha. Não dá. Não somos contra essa ou aquela opção, mas o ativismo não podemos permitir, em respeito às famílias."

A frase foi dita por Bolsonaro durante evento de comemoração dos 200 dias de governo, onde assinou um decreto que transferiu o Conselho Superior de Cinema do Ministério da Cidadania para a Casa Civil. 

  • 2) 18/07 - "Pretendo beneficiar filho meu, sim. Pretendo, se puder, dar filé mignon, eu dou." 

A declaração aconteceu quando, durante uma transmissão ao vivo pelo Facebook, o presidente  reafirmou a indicação de seu filho Eduardo Bolsonaro à embaixada do Brasil nos Estados Unidos. 

  • 3) 19/07 - "E vai ter filtro sim, já que é um órgão federal. Se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine. Extinguiremos ou privatizaremos. Não pode é dinheiro público ficar sendo usado para filme pornográfico." 

Após uma solenidade em Brasília, Bolsonaro afirmou que pretende transformar a Ancine (Agência Nacional de Cinema) em uma agência subordinada ao governo e impor um "filtro" para os filmes. 

  • 4) 19/07 - "Com toda a devastação que vocês nos acusam, a Amazônia já teria se extinguido."

Também no dia 19, o presidente questionou os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o desmatamento na Amazônia. 

  • 5) 19/07 - "Ela estava indo para a guerrilha do Araguaia quando foi presa. E depois conta um drama todo mentiroso, que teria sido torturada sofreu abuso, etc. Mentira. Mentira."

Ainda na mesma data, o presidente mentiu sobre a jornalista Míriam Leitão, ao dizer que ela integrou a luta armada contra a ditadura militar. Miriam era estudante e militante do PCdoB quando foi presa, em 1972. Grávida, foi torturada e ficou presa por três meses. 

  • 6) 19/07 - "Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira."

Bolsonaro ainda disse que  não há fome no Brasil e que não se vê "pessoas pobres pelas ruas com físico esquelético" como em outros países. Pouco depois, ao ser questionado por jornalistas sobre a declaração, o presidente disse que não estava vendo  "nenhum magro" ali e admitiu que "alguns passam fome". 

  • 7) 19/07 - "Daqueles governadores de 'paraíba', o pior é o do Maranhão. Não tem que ter nada com esse cara."

No mesmo café da manhã com jornalistas, um microfone captou a frase em uma  conversa informal do presidente com o ministro Onyx Lorenzoni. Ao ser questionado por sobre a declaração, Bolsonaro disse: "Se eu chamar você de feia agora, todas as mulheres do Brasil estarão contra mim. Eles acham que o Nordeste é uma massa de manobra. Na verdade, a imprensa brasileira está com saudade do PT e do Lula."

  • 8) 26/07 - "Com licença, estou numa solenidade militar, tem familiares meus aqui, eu prefiro vê-los do que responder uma pergunta idiota pra você."

Em Goiânia, Bolsonaro foi questionado sobre o uso de um helicóptero da Força Aérea Brasileira (FAB) para levar familiares seus ao casamento do filho Eduardo Bolsonaro no Rio de Janeiro. "Tá respondido? Próxima pergunta", disparou, abandonando a entrevista. 

  • 9) 27/07 - "A minha família ia comigo. Eu vou negar o helicóptero a ir para lá e mandar ir de carro? Não gastei nada além do que já ia gastar."

No dia seguinte, já no Rio, em uma solenidade de formatura de paraquedistas na Vila Militar, o presidente voltou a falar sobre o uso do avião da FAB para ir ao casamento. 

  • 10) 27/07 - "Malandro para evitar um problema desse, casa com outro malandro ou adota criança no Brasil. O Glenn não vai embora, pode ficar tranquilo. Talvez pegue uma cana aqui no Brasil, não vai pegar lá fora não."

Bolsonaro foi questionado sobre a portaria 666, assinada por Sergio Moro, que permite a deportação de estrangeiros considerados "perigosos". Ao responder a pergunta, Bolsonaro citou o jornalista Glenn Greenwald, editor do site The Intercept Brasil, e disse que ele pode ser preso. 

  • 11) 27/07 - "Questão ambiental só importa aos veganos que comem só vegetais."

Ainda na Vila Militar, o presidente foi questionado sobre preservação do meio ambiente e reafirmou a intenção de transformar a baía de Angra dos Reis na "Cancún Brasileira". 

  • 12) 29/07 - "Se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto pra ele. Ele não vai querer ouvir a verdade, eu conto pra ele." 

Na segunda-feira, Bolsonaro atacou o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, e afirmou que sabia a verdade sobre o desaparecimento de seu pai, Fernando Santa Cruz, que desapareceu durante o regime militar. Logo depois, o presidente disse que Santa Cruz teria sido morto por um grupo de esquerda, mas  documentos da Comissão Nacional da Verdade apontam que ele foi assassinado pelo Estado. 

  • 13) 30/07 - "Pergunta para as vítimas dos que morreram lá o que eles acham"

Ao ser questionado sobre o massacre no presídio de Altamira, no Pará, que terminou com 57 mortos em uma disputa de facções, o presidente voltou a causar polêmica. 

  • 14) 30/07 - "E você acredita em Comissão da Verdade? Você acredita no PT? Por que não começou com Celso Daniel? Nós queremos desvendar crimes. A questão de 64 não existem documentos de matou, não matou, isso aí é balela."

O presidente voltou a falar sobre o assassinato de Fernando Santa Cruz e contestou o trabalho da Comissão da Verdade, que apura violações de direitos humanos no período da ditadura militar. Após as declarações sobre o caso, Bolsonaro substituiu integrantes do órgão por militares e filiados ao PSL nesta quinta-feira (1). 

  • 15) 30/07 - "Alguns colegas de vossa excelência entendem que o trabalho análogo à escravidão também é escravo. E pau neles."

Bolsonaro criticou a emenda constitucional que pune com expropriação a pratica de trabalho escravo. De acordo com o presidente, uma família dona de propriedade perde a fazenda se estiver oferecendo aos trabalhadores "recinto com ventilação inadequada, roupa de cama rasgada, copo desbeiçado, entre outras 200 especificações". Bolsonaro disse ainda que "Essas regras têm que ser adaptadas à evolução."