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Órgão afirma que Fernando Santa Cruz foi morto por militares e não por militantes de esquerda, como disse o Presidente da República

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CEPE / Divulgação
Fernando Santa Cruz é pai de Felipe Santa Cruz, o presidente da OAB


Divulgado em 2014, o relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV) indicou queFernando Santa Cruz, pai do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, teria sido morto por órgãos de repressão da Ditadura Militar. O documento, entregue à ex-presidente Dilma Rousseff (PT) após 2 anos e 7 meses de investigações, não registrou indícios de que Santa Cruz, integrante de um grupo revolucionário, pudesse ter sido morto por "justiçamento de esquerda",  como afirmou o presidente Jair Bolsonaro nesta segunda-feira (29).

Embora o corpo de Fernando Santa Cruz nunca tenha sido encontrado, o documento da CNV apresenta duas hipóteses para o desaparecimento dele: uma termina no Rio e a outra em São Paulo. Em ambas, a morte é atribuída a agentes do Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). Um documento secreto da Aeronáutica, obtido pelo colunista Bernardo Mello Franco ,confirma que Santa Cruz estava sob custódia do estado desde 22 de fevereiro de 1974. Santa Cruz é pai do presidente da OAB .

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O advogado Pedro Dallari, que foi coordenador e relator da CNV , explica que, além de não se saber qual foi exatamente o fim dado aos restos mortais de Santa Cruz, não há prova de que ele tenha integrado a luta armada do grupo revolucionário Ação Popular (AP).

"No caso dele, não há nenhuma comprovação de atividade relacionada à luta armada, mas isto não é o mais relevante. As famílias têm o direito de velar e sepultar seus filhos. Há dois documentos que indicam que o Fernando Santa Cruz esteve detido em repartição militar em fevereiro de 1974, portanto, ele estava custodiado pelo Estado brasileiro e depois desapareceu. Isto sim é grave", defende Dallari.

 Usina

Uma das possibilidades relatadas pela CNV é de que o pai do presidente da OAB tenha sido encaminhado para a Casa da Morte, um centro de tortura em Petrópolis. O corpo dele teria sido encinerado em uma usina de açúcar. Esta versão tem como base o depoimento do ex-delegado do DOPS do Espírito Santo, Cláudio Guerra.

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Guerra disse à CNV que incinerou uma dezena de corpos de militantes executados pelo regime, entre eles o de Santa Cruz, e que teria utilizado a Usina Cambahyba, em Campos dos Goytacazes (RJ), para realizar a queima de arquivo.

A versão de Guerra foi registrada não só pela CNV, mas também pelos autores Rogério Medeiros e Marcelo Netto no livro "Memórias de uma guerra suja". O ex-agente do DOI-CODI foi procurado pela reportagem para comentar o tema, mas disse que não poderia concender entrevistas uma vez que cumpre pena de prisão domiciliar desde abril. Ele foi condenado pelos assassinatos da ex-mulher e da ex-cunhada, mortas há 39 anos.

Indigente

A segunda hipótese indica que Santa Cruz teria sido capturado no Rio de Janeiro e levado por militares do DOI-CODI até São Paulo. Nesta versão, o corpo de Fernando teria sido enterrado como indigente no Cemitério Dom Bosco, em Perus.

A presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (colegiado ligado ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos), Eugênia Gonzaga, explica que a pista que sustenta essa possibilidade é a identificação dos restos mortais de outro preso político, Aluísio Palhano, que também foi visto na Casa da Morte.

"Ele foi enterrado como indigente no Cemitério de Peruche, em São Paulo. O corpo dele estava em vala clandestina em Peruche. O Fernando Santa Cruz está no rol de pessoas que possivelmente estão na vala. Coletamos sangue da mãe dele, quando ela ainda estava viva", explica Eugênia, em referência à Elzita Santa Cruz, que morreu em junho, aos 105 anos, ainda à espera do filho.

Em abril, um decreto assinado por Bolsonaro para extinguir colegiados ligados à administração federal interrompeu o funcionamento do Grupo de Trabalho Perus, responsável por identificar as ossadas encontradas na vala comum do cemitério no Peruche, na Zona Oeste de São Paulo.

O mesmo ocorreu em relação ao Grupo de Trabalho Araguaia, responsável pela busca e identificação dos restos mortais da guerrilha do Araguaia. Quando era deputado, Bolsonaro afixou um cartaz na porta de seu gabinete com os dizeres: "Guerrilha do Araguaia. Quem procura osso é cachorro".