'Revolução eleitoral' deve ficar restrita a vilarejo na China

Analistas não acreditam que sucesso de Wukan, que derrubou líderes antigos e elegeu novos, se torne modelo para o país

The New York Times |

Para os corajosos cidadãos que se manifestaram em dezembro e fizeram com que seus líderes corruptos fossem expulsos de Wukan, na China, a eleição realizada no dia 3 de março nesta vila de pescadores em ruínas foi um grande acontecimento, uma recompensa democrática por terem exigido os seus direitos.

E talvez fosse, mas mesmo antes de os votos serem contados havia indícios de que seu triunfo havia sido superestimado.

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Eleitores são vistos em colégio eleitoral de Wukan, na China (03/03)

Mais de seis mil dos oito mil eleitores da cidade foram ao centro eleitoral improvisado na escola da vila e escolheram um novo conselho da aldeia para substituir o antigo, que se desfez diante de alegações de fraude. Eles preencheram as cédulas rosas dentro de cabines de madeira compensada que garantiram que seus votos permanecessem em segredo e depois as depositaram em grandes caixas de aço seladas com adesivos à prova de falsificação.

Autoridades contaram os votos no pátio da escola diante dos cidadãos. Tudo isso foi acompanhado por cartazes que diziam "Eleição Civilizada, Concorrência Justa" e "Obedecendo a Lei”.

Foi a primeira votação verdadeiramente democrática da região em décadas, talvez a única, e um marco de transparência na política opaca da China. No momento em que terminou, os mesmos homens que protestaram contra o governo corrupto da aldeia haviam sido escolhidos seus novos líderes.

"Esta é de longe a eleição mais transparente que já tivemos nesta aldeia", disse Yang Semao, que foi eleito vice-diretor do novo comitê governante da vila. "As últimas eleições foram todas forjadas." Lin Zuluan, o empresário aposentado que liderou o protesto, foi escolhido como diretor do comitê.

Wukan era tida como um modelo a ser seguido pelos líderes chineses ao resolver as dezenas de milhares de disputas locais, que acontecem todo ano e que muitas vezes terminam em conflitos entre os cidadãos e as autoridades. Sem dúvida, essa eleição foi como um ato de encerramento.

Os moradores de Wukan lutaram durante anos, fazendo petições a se envolvendo em batalhas sangrentas com a polícia, para recuperar as terras de cultivo coletivo das lideranças locais que as venderam sem a sua autorização. A gota d'água veio em dezembro, depois que o ativista Xue Jinbo foi sequestrado pela polícia em uma cidade vizinha e morreu na prisão.

Antes de expulsar seus líderes e a polícia da vila, os cidadãos furiosos tiveram de enfrentar opressões por parte da polícia durante 10 dias até que as autoridades da província de Guangdong reagissem e se oferecessem para administrar as suas queixas e deixá-los escolher um novo comitê para a aldeia.

As aldeias da China têm sido autorizadas a eleger seus líderes, mas os votos são frequentemente controlados por grupos fechados, ou os vencedores acabam sendo todos escolhidos a dedo por oficiais do Partido Comunista. A votação de sábado em Wukan demonstrou um nítido contraste a essas práticas e atraiu uma ampla cobertura, mesmo nos meios de comunicação estatais da China.

Xiong Wei, um ativista baseado em Pequim que passou semanas treinando os moradores para organizar uma eleição justa, disse que as autoridades provinciais em geral haviam apoiado a votação, mesmo quando ficou claro que os líderes da manifestação de dezembro, incluindo dois que tinham sido presos – estavam concorrendo a uma vaga e poderiam ganhar.

Alguns eleitores disseram acreditar que uma liderança eleita livremente pode conseguir o que petições e protestos não conseguiram: o retorno dos milhares de hectares de terras que foram vendidas sem nenhuma aprovação dos moradores.

"Estou muito animado de poder participar desta eleição", disse Zhu Qijie, 25, um comerciante que dirigiu a noite toda para votar. "Sei que eles enfrentarão uma série de dificuldades, mas também sei que eles vão agir com vontade e determinação."

Mas alguns observadores da política chinesa dizem acreditar que Wukan não é um modelo para mudança, apenas um momento de triunfo dentro de um sofisticado sistema que lida com distúrbios civis de maneira individual.

"É o triunfo da esperança sobre a experiência", disse Russell Leigh Moses, um estudioso chinês de política interna, sobre a especulação de que Wukan poderia se tornar um modelo nacional. ”A reforma na China não começa em lugares como Wukan. Ela começa no topo e então parte para os baixos escalões.”

"É um exemplo atraente do que é possível de acontecer. Mas não do que é mais provável que aconteça."

Por Michael Wines

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