EUA querem tirar do mapa cidade na Flórida que nunca existiu

Com cinco habitantes, Islandia foi criada a partir de ilusões das construtoras imobiliárias que imaginavam cidade de resorts

The New York Times |

Assim como muitas outras cidades planejadas da Flórida, a cidade de Islandia nasceu das ilusões das construtoras imobiliárias, que imaginavam uma cidade de resorts em uma região quase inacessível ao norte de Key Largo.

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Pelicano voa em Adams Key, uma das ilhas que formam a cidade de Islandia, na Flórida

No final, seus sonhos não passaram de outra ideia falida do Estado da Flórida, uma ideia que as autoridades finalmente estão prestes a por um fim. No próximo mês, mais de 50 anos após a criação de Islandia, o Conselho de Comissários do Condado de Miami deverá abrir uma votação para acabar com a cidade - formada por uma rede de 33 ilhas, acessíveis apenas por barco.

Islandia não será uma perda para ninguém, em grande parte porque nunca sequer existiu - ela sempre foi mais uma miragem das construtoras do que um lugar no mapa. Islandia não tem nenhuma escola, nenhum sistema de esgotos, nenhum tribunal, não tem nenhuma loja e nenhuma estrada que vá para dentro ou para fora da região. Na verdade, a maior parte dela está situada dentro de um parque nacional.

Ela já teve um governo municipal. Mas isso também era uma piada, uma vez que seu sistema de votação passou incólume pelo município por quase 30 anos. Desde 1961, nenhum dos eleitores que votaram para prefeito e vereador de Islandia viviam na rede de ilhas, fazendo com que o processo eleitoral fosse uma violação das leis federais. Apenas os proprietários de terras votavam e, para simplificar, eles votavam em si mesmos - convenientemente, as reuniões da prefeitura eram realizadas dentro dos escritórios de imobiliárias localizadas na região de Miami.

As aspirações dos oficiais da cidade de Islandia começaram a entrar em crise em 1989. Foi então que a cidade elegeu, sem autorização, um chefe de polícia que fez o seu próprio uniforme e entrou na sede do parque com uma arma no coldre.

Foi uma prova de que estavam indo contra qualquer tipo de legitimidade. Alarmados, os guardas do parque telefonaram para policiais e para o escritório do advogado do Condado de Dade Miami, que chegaram a conclusão de que o governo da cidade de Islandia era ilegal.

A cidade caminhou lentamente em direção à sua própria destruição. Durante anos, o Estado pediu que o conselho acabasse com a cidade, que havia se tornado um problema burocrático. Porém, até não muito tempo atrás, o município pensou em uma maneira de abolir a cidade. "Eles não operam como uma cidade", disse o comissário Dennis C. Moss, cujo distrito inclui a Islandia. "Eles não têm nenhum político legalmente eleito. Certamente aquilo não pode ser considerado uma cidade ".

"Mas não se pode negar que ela tem uma história muito diferente", acrescentou.

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Antes um esconderijo de piratas, as 33 ilhas são agora um dos últimos refúgios intocados do Cabo da Flórida, contornados no início de 1900 pela estrada de ferro Henry Flagler.

Em 1960, conservacionistas tentaram proteger as ilhas da construção de uma refinaria de petróleo e um porto na região, além de planos para cobrir a pequena ilha de 11 km com hotéis de luxo, shopping centers e casas à beira-mar.

Treze dos 18 eleitores registrados da ilha, todos os quais eram proprietários de terras, votaram por incorporar a Islandia, como chamavam a região. A incorporação, de acordo com eles, era uma maneira de contornar as regras de zoneamento estaduais e federais e de poder garantir uma ponte que atravessaria a baía desde o continente.

Luther Brooks, um contrabandista de bebidas com bons contatos, que uma vez descreveu um político como sendo "tão corrupto que nem consegue andar em linha reta", se tornou o primeiro prefeito de Islandia. Com pouco tempo no cargo, ele começou a cobrar favores de políticos para que ajudassem a desenvolver a ilha. Seu trabalho fora do cargo era o de coletar o aluguel da população negra de Miami, que vivia em um conjunto habitacional do governo.

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Lloyd Miller, que ajudou a preservar a cidade de Islandia, em sua casa na Flórida

Em 1963, os proprietários tinham convencido o governador da Flórida para que construísse a ponte e isso parecia inevitável. "Um dia com certeza haverá uma estrada para Islandia," afirmou um editorial do Miami Herald.

Mas os conservacionistas, incluindo Juanita Greene, uma repórter do Herald (e namorada de Brooks) reuniu sua própria equipe. Miller entrou em contato com Stewart Udall, o secretário do Interior, um ambientalista convicto. Ele enviou assessores para analisar Elliott Key, a principal ilha habitada de Islandia, e decidiu que valia a pena salvá-la.

O representante Dante Fascell, o recém-falecido congressista democrata, foi convencido a se unir ao esforço, e começou a pressionar por uma lei para transformar a ilha e seus hectares subaquáticos em um parque nacional.

"Então, Hoover chegou", disse Miller, sobre Herbert Hoover Jr., o diretor da empresa de aspirador de pó, "e junto com ele veio o seu dinheiro".

Hoover tinha se apaixonado pela Baía de Biscayne quando criança, em um tempo que lagostas e camarões ainda habitavam a região. Ele queria que a rede de ilhas fossem declaradas um monumento nacional e apoiou a campanha.

Nada poderia atrapalhar o movimento para conservar as ilhas, nem mesmo um anúncio feito em 1967 por Albert C. Bostwick Jr., herdeiro da fortuna da empresa Standard Oil Co. Seu plano de construir uma série de casas com marinas em Elliott Key acabou nunca saindo do papel.

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Em 1968, oficiais fizeram uma última tentativa de modificar Islandia. Eles levaram tratores em balsas para Elliott Key e ordenaram para que os trabalhadores fizessem uma estrada de 125 metros de largura que atravessasse toda a ilha. Era uma estrada improvisada que fez com que o governo federal não ficasse feliz com a decisão. Ela ia ser chamada de Estrada Spite e algumas das tentativas de sua construção permanecem visíveis até hoje.

Vários meses depois, em outubro de 1968, o presidente Lyndon Johnson (1963-1969) assinou o projeto de lei para transformar grande parte de Islandia em um monumento nacional. A rede de ilhas mais tarde se tornou o Parque Nacional de Biscayne.

Hoje, duas das 33 ilhas permanecem em mãos de proprietários privados. Dos cinco habitantes de Islandia, três são funcionários do parque, uma pessoa é casada com um trabalhador do parque e um é um residente particular.

Deb Johnson, a esposa de um dos trabalhadores do parque, se encontrava em seu jardim na pequena região do Cabo Adams em um dia perfeito. Borboletas e garças voavam pelas proximidades. Seu quintal fica de frente para o Oceano Atlântico. Ela tem como vizinho um guarda do parque e observa o nascer do sol de seu cais todas as manhãs e senta-se em sua sacada para observar as noites de tempestades tropicais.

Os moradores dessa área precisam ser duros. Para comprar leite e pão você precisa pegar um barco. O inverno é perfeito. O verão não.

"Eu preciso usar roupas contra insetos", disse. "Parece uma roupa de apicultor, mas mantém os mosquitos longe de mim. Ela não pode sair de casa sem essa roupa durante o verão."

"Nem sempre é o paraíso", disse, em uma agradável manhã ensolarada de fevereiro. "Nesse momento, está melhor.”

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Adams Key, uma das ilhas que formam a cidade de Islancia, na Flórida

O lugar é tão bonito que quem vai embora muitas vezes não o faz por opção. Um dos responsáveis pela construção de Islandia e seu último prefeito, Jack Pyms, tentou sem sucesso durante anos construir centenas de casas de palafitas em sua ilha. Em 1990, ele perdeu sua propriedade para a execução da hipoteca. Pouco tempo depois, ele se mudou para o Colorado e ganhou na loteria do Estado.

Por Lizette Alvarez

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