Jair Bolsonaro ao lado dos filhos Flávio, Eduardo e Carlos
Roberto Jayme/Ascom/TSE
Jair Bolsonaro ao lado dos filhos Flávio, Eduardo e Carlos

Membros da  família do presidente Jair Bolsonaro movimentaram, em 24 anos, R$ 1,5 milhão em dinheiro vivo, empregado em transações imobiliárias e no pagamento de despesas pessoais. O montante corresponde à soma de operações em espécie que envolveram o senador Flávio Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro, filhos do presidente, ambos filiados ao Republicanos, bem como as duas ex-mulheres do atual ocupante do Palácio do Planalto, Rogéria Bolsonaro e Ana Cristina Valle. A conta chega a R$ 2,95 milhões em valores corrigidos pela inflação.

As movimentações de dinheiro em espécie são alvo de investigação pelo Ministério Público do Rio (MP-RJ), que confirmou ao GLOBO ontem que apura a contratação de supostos funcionários fantasmas e a  prática de "rachadinha" no gabinete de Carlos durante a vereança.

O inquérito contra Carlos Bolsonaro tramita, em sigilo, na 3ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal Especializada do Núcleo Rio de Janeiro. O Tribunal de Justiça do Rio também confirmou que as quebras foram deferidas no dia 24 de maio.

Nesta terça-feira,  a Justiça do Rio determinou a quebra dos sigilos bancário e fiscal do vereador na investigação que apura a contratação de funcionários "fantasmas". Outras 26 pessoas e sete empresas também tiveram os sigilos quebrados. A informação foi antecipada pela GloboNews.

Segundo o Ministério Público, Carlos Bolsonaro manteve e utilizou grandes quantias de dinheiro em espécie ao longo dos seis mandatos consecutivos como vereador. Em documentos, o órgão cita pelo menos três situações que se enquadram na prática citada: em 2003, Carlos pagou R$ 150 mil em espécie na compra de um apartamento na Tijuca, na Zona Norte do Rio; em 2009, o vereador entregou R$ 15,5 mil, também em espécie, para cobrir um prejuízo que teve na bolsa de valores; e no último ano, Carlos declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter R$ 20 mil em espécie guardados em casa.

Em postagem no Twitter, na manhã desta quarta-feira, Carlos afirma que "na falta de fatos novos, requentam os velhos" que, segundo ele, "não chegaram a lugar nenhum".

Dedicados ao estudo dos mecanismos usados para o combate mundial à prática de lavagem de dinheiro, especialistas em direito e transparência reprovam a utilização de dinheiro vivo para transações que poderiam ser feitas por meio do sistema bancário comum. A prática, embora não seja ilegal, dificulta a rastreabilidade da origem do dinheiro e pode ser utilizada para ocultar aumentos injustificáveis de patrimônios, decorrentes de recursos ilícitos.

Carlos comrprou um apartamento, localizado na Tijuca, na Zona Norte do Rio, com dinheiro em espécie, como mostrou o jornal "O Estado de S.Paulo". Em 2003, aos 20 anos, o vereador pagou R$150 mil pelo imóvel. Houve também a utilização de uma quantia de R$15,5 mil para cobrir prejuízos que ele e o irmão, Flávio Bolsonaro, tiveram após investir juntos na Bolsa de Valores, em 2009. As transações em espécie envolveram ainda a mulher do parlamentar, Fernanda Bolsonaro, e o ex-assessor Fabrício Queiroz.

A transição mais antiga desse tipo feita pela família ocorreu em janeiro de 1996, quando Rogéria Bolsonaro adquiriu um imóvel em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, por R$ 95 mil.  Mãe dos três filhos mais velhos de Bolsonaro, Rogéria estava casada com o então deputado em regime de comunhão parcial de bens — o casal se separou entre 1997 e 1998. Ela não se pronunciou sobre a aquisição.

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No casamento seguinte,  Ana Cristina Valle, a segunda mulher de Bolsonaro, comprou 14 imóveis enquanto esteve ao lado do marido parlamentar. Cinco deles — duas casas, dois terrenos e um apartamento — foram pagos em dinheiro vivo entre 2002 e 2006, movimentando R$ 243 mil. Os negócios imobiliários do casal, que renderam um patrimônio avaliado em R$ 3 milhões na data da separação, foram revelados em reportagem da revista Época. Na ocasião, a defesa de Ana Cristina afirmou repudiar “com veemência qualquer afirmação, de quem quer que seja, indicando a prática de qualquer ato ilícito” por parte da cliente.

Flávio Bolsonaro também manteve o hábito de fazer pagamentos em dinheiro vivo, conforme mostram as movimentações dele identificadas pelo Ministério Público (MP) do Rio de Janeiro entre 2008 e 2018, no âmbito da investigação da “rachadinha” no antigo gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).

Boletos em espécie

Enquanto ocupava uma cadeira de deputado estadual na Casa, Flávio comprou e vendeu imóveis com quantias em espécie e quitou, da mesma maneira, boletos referentes a despesas pessoais.

Conforme revelado no último domingo pelo GLOBO, o MP descobriu que Flávio utilizou, em 2008, R$ 86,7 mil em espécie na compra de 12 salas comerciais na Barra da Tijuca. Em depoimento aos promotores, em 7 de julho, o próprio senador admitiu ter feito o pagamento e afirmou ter pego emprestado dinheiro do pai, de um dos irmãos e de Jorge Francisco, que à época chefiava o gabinete de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados. Flávio disse também que devolveu os empréstimos posteriormente. As salas foram revendidas por ele depois.

Operações semelhantes ocorreram na compra dois apartamentos na Zona Sul carioca: um em Copacabana, pago em 2012 com R$ 638,4 mil em dinheiro vivo, e outro em Laranjeiras. O segundo imóvel teve a primeira parcela paga uma semana após Queiroz ter depositado R$ 25 mil em espécie na conta de Fernanda Bolsonaro, responsável pela quitação. Ainda na aquisição desse imóvel, um policial militar chamado Diego Sodré de Castro Ambrósio admitiu ter pago uma prestação de R$ 16,5 mil para quitar a compra feita pelo parlamentar, de quem afirmou ser amigo.

Cinco anos depois da compra, em 2017, Flávio recebeu, ao longo de um mês, 48 depósitos fracionados em sua conta corrente, totalizando R$ 96 mil em dinheiro vivo. Quando as informações sobre elas vieram a público, o filho do presidente afirmou que os valores eram provenientes da venda do apartamento em Laranjeiras.

Ainda na área de negócios imobiliários, Flávio pagou R$ 30 mil em espécie ao empresário David Macedo Neto durante a compra de um apartamento em um condomínio na Avenida Lucio Costa, na Barra da Tijuca, em 2014. A dívida quitada, dessa vez, seria referente aos móveis deixados por Macedo no local. Aos investigadores, quando questionado sobre essa transação, o parlamentar afirmou que “tinha uma coisinha guardada em casa” e, por isso, preferiu “fazer desse jeito” — sem o intermédio de um banco.

Difícil de rastrear

Ainda durante o período em que exerceu quatro mandatos para os quais foi eleito na Alerj, Flávio teve 116 boletos referentes a despesas pessoais, como mensalidades escolares das filhas e de planos de saúde, quitados em dinheiro vivo. O montante empenhado nesses pagamentos foi de R$ 261,6 mil, entre 2015 e 2018. Houve ainda os pagamentos de dois boletos do tipo, que somaram R$ 6,9 mil, feitos em 2018 por Queiroz, identificado pelo MP por meio das imagens de câmeras de segurança da agência bancária em que ocorreu a quitação.

A defesa de Flávio Bolsonaro defendeu, no último final de semana, que “o patrimônio do senador é totalmente compatível com seus rendimentos e isso ficará inequivocamente comprovado dentro dos autos” do processo sobre a “rachadinha”. Os advogados também reclamaram dos vazamentos dos depoimentos do senador ao MP.

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