mulher e menino de óculos com armação azul
Polícia Civil do Rio Grande Sul/Divulgação
Personalidade perfeccionista de Alexandra pode ter motivado assassinato do filho

Perfeccionista e obcecada por organização: é dessa forma que a polícia do Rio Grande do Sul classifica a gaúcha Alexandra Dougokenski, de 33 anos, que matou o próprio filho por desobediência no município de Planalto, no norte do estado. O crime, que abalou a cidade com pouco mais de 10 mil habitantes, foi noticiado a princípio como um desaparecimento, mas terminou com a confissão da mulher. A personalidade de Alexandra, segundo a polícia, é peça-chave para entender a motivação de um crime inexplicável para muitos.

Alexandra, que nunca tinha recebido qualquer denúncia ou reclamação pela forma como tratava os dois filhos, foi até o Conselho Tutelar da cidade no dia 15 de maio denunciar o desaparecimento do filho mais novo, Rafael Winques. Segundo a mulher, que era separada do pai do garoto e morava com ele e o filho mais velho, de 16 anos, em uma casa simples, o menino teria saído de casa de madrugada e levado R$ 200 que estavam escondidos dentro de uma bíblia da família.

Na ocasião, porém, Alexandra entrou em contradição: a mulher descreveu claramente a roupa com a qual o menino saiu de casa, mesmo tendo falado aos policiais que ele tinha saído enquanto ela dormia.

Durante o período de investigação do suposto desaparecimento da criança, o temperamento da mãe já levantava suspeitas. Em entrevista ao canal RBSTV, a promotora de justiça responsável pelo caso, Michele Kufner, disse que Alexandra chamava atenção pelo "controle emocional" demonstrado na situação adversa. Em um vídeo divulgado pouco após reportar o desaparecimento do menino, Alexandra afirmava em um tom calmo que “tudo o que a família quer é notícias do Rafael, é o Rafael em casa de novo”.

Confissão e mentiras

No período em que o homicídio de Rafael era tratado apenas como desaparecimento, Alexandra prestou 10 depoimentos. No décimo, que durou oito horas, ela confessou o crime e foi presa temporariamente.

Na confissão, Alexandra disse que matou Rafael de forma acidental após ministrar dois comprimidos de um calmante no menino. Ela apontou o local no qual colocou o corpo, dentro de uma caixa no quintal da casa vizinha. A perícia percebeu, porém, que o menino não tinha morrido por causa da ingestão de remédio, e sim por asfixia . Algumas semanas depois da primeira confissão, a mulher confessou novamente que  matou o filho intencionalmente porque ele não queria dormir para jogar no celular.

Organização impecável

Além da frieza da mulher ao falar do desaparecimento de Rafael, a organização impecável da casa na qual ela morava com os dois filhos chamou atenção da polícia. Segundo o jornal Zero Hora, o perfeccionismo de Alexandra é tão grande que ela chorou copiosamente ao entrar na casa pela primeira vez após confessar o crime e perceber que alguns objetos tinham mudado de lugar, como se ela soubesse meticulosamente a posição de cada item da casa.

No armário de alimentos, ela mantinha uma planilha com o nome de todas as comidas compradas e a quantidade de cada uma delas. Todos os guarda-roupas da família eram organizados em um tom degradê de cores e todos os sapatos também eram organizados por cores e por tipos.

Segundo os depoimentos de pessoas que a conheciam, o filho não podia sequer ter contato com os bichos que viviam na casa para não se sujar, o que demonstrava uma preocupação intensa com a limpeza da residência. Todas as paredes da casa de tijolos eram cobertas por cortinas, o que, segundo investigadores, era um artefato para esconder a irregularidade dos tijolos que constituíam as paredes da residência.

Configuração familiar

Cada um dos filhos de Alexandra tem um pai diferente. O pai do mais velho cometeu suicídio quando o garoto, hoje com 17 anos, ainda tinha três anos de idade. O pai de Rafael, Rodrigo Winques, foi casado com Alexandra até o ano de 2017. A família morava na cidade de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, até que precisou se mudar com o divórcio.

Após o divórcio, Alexandra passou a morar na frente da casa da mãe, na pequena cidade de Planalto. A avó de Rafael, Isaíldes Batista, mora com outros três filhos, um deles seria o dono do remédio ministrado por Alexandra no menino. Após o crime, a polícia chegou a ouvir a avó e os tios do garoto para esclarecimentos. Também em entrevista ao Zero Hora, a mulher afirmou que não considerava mais Alexandra como filha após descobrir o crime.

Na nova cidade, Alexandra também iniciou um relacionamento com o funcionário de um hotel local. O homem chegou a ter participação no crime cogitada, mas comprovou que estava trabalhando na noite do assassinato.

Admirada por vizinhos e pelo filho

Para o “mundo exterior”, a imagem de Alexandra era a de uma mãe cuidadosa, que acompanhava com frequência o filho até a escola e também se preocupava com o desempenho do garoto.

Para o filho assassinado, a mãe era “maravilhosa”. O termo estava escrito a punho pelo garoto em um trabalho da escola encontrado pelos policiais na escrivaninha do quarto de Rafael, local no qual ele foi morto. "A mãe era tudo para ele, a pessoa que ele mais amava no mundo, que ele mais confiava", afirmou a professora do garoto, Ladejane Ravagio, em entrevista à Rede Globo.

O futuro de Alexandra

Alexandra foi indiciada por homicídio doloso (quando há intenção de matar) com as qualificadoras de motivo fútil, emprego de asfixia e recurso de impossibilitação de defesa. Além disso, ela deve responder a um processo de falsidade ideológica, já que fez um boletim de ocorrência falso narrando o desaparecimento do filho assassinado. Ela pode ser condenada a até 30 anos de prisão.

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