Até domingo, último dia em que tiveram contato com paroquianos comuns antes de conclave, cardeais aderiram à campanha velada para a sucessão de Bento 16

NYT

O competidor americano beijou bebês e fez piadas sobre a qualidade dos alimentos dentro do conclave papal. O brasileiro abençoou um casal em seu 70º aniversário. O italiano abençoou um grupo de jornalistas e também um bebê. O húngaro não beijou ninguém.

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Menina brinca durante missa celebrada por cardeal canadense Marc Ouellet na igreja de Santa Maria em Transpontina, em Roma (10/03)
Reuters
Menina brinca durante missa celebrada por cardeal canadense Marc Ouellet na igreja de Santa Maria em Transpontina, em Roma (10/03)

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Mas, dois dias antes do início oficial do conclave , os cardeais cuidadosamente aderiram ao que poderia ser chamado de arte de concorrer ao papado, algo que normalmente requer a capacidade de fazer parecer que nada disso está realmente acontecendo. E isso fez com que os cerca de 5 mil jornalistas que se mobilizaram até Roma, juntamente com grande parte do mundo católico, ficassem com pouco espaço para adivinhar quem será o escolhido, limitando-se a interpretar gestos e medir intangíveis papais.

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Será que o brasileiro Odilo Scherer , arcebispo de São Paulo, demonstrou benevolência papal na maneira gentil com que tocou as bochechas do casal de idosos que inesperadamente pediram por uma bênção em seu aniversário de casamento? A graça tranquila de Angelo Scola , arcebispo de Milão, evidenciou uma dignidade papal? Ou que tal o húngaro Peter Erdo, arcebispo de Esztergom-Budapeste? Na verdade, ele não sorriu muito, mas será que sua disciplina e inteligência é o que um Vaticano em desordem precisaria neste momento?

Ninguém consegue realmente dizer qual dos cardeais tem mais chance de se tornar papa. Na semana passada eles se encontraram diariamente nas reuniões pré-conclave, analisando uns aos outros. Na terça-feira, eles entraram na Capela Sistina para a votação secreta para eleger um papa, o que fez do domingo o último dia em que puderam interagir com paroquianos comuns.

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Em Santa Maria della Vittoria, uma igreja no centro de Roma mais conhecida por abrigar a obra-prima barroca de Gian Lorenzo Bernini "Santa Teresa em Êxtase", o reverendo Stefano Guernelli não hesitou em apresentar seu cardeal nomeado, Sean Patrick O ' Malley, de Boston, como candidato papal e implorando para que reconsiderasse sua hesitação pública em relação à vaga papal.

Veja as imagens do conclave:

Tomando o púlpito, O'Malley atenuou a apresentação. "Prometo que voltarei como cardeal a essa igreja após o conclave", disse. Então, aludindo à famosa escultura de Bernini, acrescentou com um sorriso: "Mas talvez leve Santa Teresa para Boston."

Na Basílica dos Doze Santos Apóstolos, no centro de Roma, o italiano Scola havia inicialmente escapado de dezenas de jornalistas ao entrar no local por uma garagem em uma rua lateral. Ele partiu da mesma forma depois da missa, mas não sem antes sair de uma sacristia para enfrentar um bando de fotógrafos e cinegrafistas. "Me disseram que eu deveria abençoá-los", disse, e assim o fez, antes de desaparecer voltando à igreja.

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O brasileiro Scherer, outro favorito, chegou ao Sant 'Andrea al Quirinale, uma igreja perto do palácio presidencial da Itália, em um sedan preto com vidros escuros. O cardeal provavelmente nunca teve uma homilia tão vigiada quanto esta em sua vida como sacerdote: uma câmera de vídeo gravava sua conversa a 4,5 metros de distância, enquanto um repórter de televisão transmitia o evento perto do altar à medida que Scherer distribuía a comunhão aos fiéis.

Carmine e Maria Persichetti foram recebidos com aplausos quando vieram para a frente para uma bênção em seu 70º aniversário de casamento. Scherer acariciou seus rostos e ofereceu um toque pastoral. "Setenta anos?", indagou em italiano fluente. "Ainda não era nascido. É realmente possível?"

Cardeal Odilo Scherer é cercado pro jornalistas ao chegar para celebrar missa na igreja de Sant' Andrea al Quirinale, em Roma (10/03)
AP
Cardeal Odilo Scherer é cercado pro jornalistas ao chegar para celebrar missa na igreja de Sant' Andrea al Quirinale, em Roma (10/03)

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O cardeal Timothy M. Dolan, de Nova York, transformou sua aparição em uma igreja do bairro em Roma em quase uma visita de uma celebridade: beijou bebês e abraçou fiéis. Ele não ofereceu pistas sobre quem apoiaria como o novo papa - "É bom ver todos vocês", respondeu ao ser sondado por um um repórter - e agradeceu aos fiéis por lhe presentearem com uma grande cesta de biscoitos italianos, atum e grão de bico.

Erdo, da Hungria, também considerado um candidato forte, apareceu em Santa Balbina, uma pequena igreja do século 4 em que a maioria dos paroquianos eram húngaros expatriados vivendo em Roma. Ele não fez nada para contrariar sua reputação de brilhante advogado canônico intensamente sério; não pareceu sorrir nenhuma vez durante um culto em que fez a homilia em húngaro e em italiano quase fluente.

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Até o final do dia, parecia que nenhum dos cardeais havia violado seu juramento de manter secretas suas deliberações antes do conclave. Ao brincar sobre o código de sigilo, Guernelli, o carmelita que torcia por O'Malley, disse aos fiéis de sua igreja que o cardeal iria embora do local através de uma porta lateral "secreta".

Lembrem-se, brincou, referindo-se ao livro de Dan Brown "Anjos e Demônios", um best-seller de mistério que também se tornou um filme, “um cardeal foi morto nesta igreja, por isso sabemos como agir nessas situações!"

*Por Jim Yardley

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