Hit na internet, vídeo pedindo prisão de líder guerrilheiro de Uganda cria polêmica

Campanha de ONG americana para capturar Joseph Kony, líder do Exército de Resistência do Senhor, divide opiniões

iG São Paulo |

Uma campanha realizada por ativistas americanos para capturar um criminoso de guerra de Uganda tornou-se um sucesso na internet, mas criou polêmica entre moradores do país que criticaram a falta de contexto e a representação simplificada sobre o conflito armado do país.

Cerca de 70 milhões de usuários assistiram ao vídeo de meia hora produzido pela organização não-governamental (ONG) Invisible Children ("Crianças Invisíveis", em inglês), que denuncia o uso de crianças como soldados pelo Exército de Resistência do Senhor, comandado pelo líder guerrilheiro Joseph Kony.

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AP
Foto de 2006 mostra Joseph Kony, líder do Exército de Resistência do Senhor, grupo guerrilheiro de Uganda

A ONG pretende levar Kony ao Tribunal Penal Internacional (TPI), com sede em Haia (Holanda), onde ele é acusado de crimes contra a humanidade desde 2005. Na quarta-feira, dia em que a campanha foi lançada, as hashtags #stopkony ("parem Kony") e #kony2012 (o nome do vídeo) estavam entre os tópicos mais populares entre os usuários do serviço de microblogging Twitter. Várias celebridades, incluindo os músicos P. Diddy e Rihanna, publicaram o vídeo em seus perfis no site.

As forças de Kony são acusadas de atrocidades em Uganda, na República Democrática do Congo, na República Centro-Africana e no Sudão do Sul. Em outubro passado, o presidente americano, Barack Obama, anunciou o envio de cem soldados das forças especiais a Uganda , para ajudar a capturar Kony.

O Exército de Resistência do Senhor começou a atuar no norte de Uganda nos anos 1980. Seus integrantes diziam lutar por um "Estado bíblico" e pelos direitos da população acholi, que habita a região.

O grupo, considerado uma organização terrorista pelos Estados Unidos, agora opera principalmente em países vizinhos a Uganda e é acusado de sequestrar crianças, forçando os meninos a combater como soldados e usando as meninas como escravas sexuais.

Em 2008, Kony se recusou a assinar um acordo de paz com o governo de Uganda, quando descobriu que não poderia garantir a retirada dos mandados de prisão do TPI.

Críticas ao vídeo

Apesar do sucesso na internet, o vídeo foi duramente criticado por moradores de Uganda, ainda que apenas 10% do país tenha acesso à internet. Muitos acusam a ONG de simplificar uma história complexa e omitir o fato de que , inicialmente, o grupo liderado por Kony lutava contra o Exército de Uganda, que cometia violações brutais aos direitos humanos. Diplomatas também afirmam que o governo do país cometeu genocídio na região norte durante a busca pelo líder guerrilheiro.

“Não há contexto histórico (no vídeo). É mais uma coisa da moda”, disse Timothy Kalyegira, cientista político de Uganda. “A perspectiva apresentada (pela ONG) é muito limitada”, disse Ogenga Latigo, um político da oposição.

Veja o vídeo da ONG Invisible Children sobre Joseph Kony:

O analista político Nicholas Sengoba questionou o momento da divulgação do vídeo, meses depois de Obama enviar tropas ao país. “Esse conflito existe há anos e temos que nos perguntar o motivo de isso aparecer agora”, afirmou. “Acredito que estas pessoas têm outros objetivos que não estão claros.”

Mas o vídeo também recebeu elogios de autoridades como o procurador do TPI, Luis Moreno-Ocampo, que chamou a iniciativa de “incrível” e “exatamente o que precisamos”. A Humans Right Watch, organização de defesa dos direitos humanos, disse esperar que a campanha seja útil e elogiou o objetivo de “pressionar líderes a proteger civis”.

Métodos da ONG

Os métodos de atuação da Invisible Children também foram alvo de questionamentos. A ONG é acusada de gastar a maior parte de seu financiamento com salários, despesas de viagem e realização de vídeos.

Alguns blogueiros também afirmam que a entidade de fiscalização de ONGs Charity Navigator deu ao grupo apenas duas de quatro estrelas por transparência financeira. Além disso, um artigo da revista Foreign Affairs acusou a Invisible Children e outras entidades sem fins lucrativos de "manipular fatos por motivos estratégicos".

A ONG publicou uma resposta às críticas em seu site, incluindo prestações de contas e explicações sobre os métodos que emprega.

"Estamos fazendo o nosso melhor para ser mais inclusivos, transparentes e factuais que possível. Construímos esta organização com a filosofia de 'ver para crer' em mente, e é por isso que somos uma organização baseada na mídia", afirma a Invisible Children no comunicado. "Nunca proclamamos um desejo de 'salvar a África', mas, em vez disso, uma tentativa de inspirar a juventude ocidental para 'fazer mais do que simplesmente ver.'"

Com AP e BBC

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