Favorito da oposição da Venezuela se inspira em Lula contra Chávez

Ao iG, Capriles reconhece avanço chavista na área social, mas aponta Lula e Mandela como modelos para sua 'Venezuela do progresso'

Marsílea Gombata, iG São Paulo |

Em uma Venezuela dividida politicamente e marcada pela confrontação entre chavistas e não chavistas, o opositor Henrique Capriles Radonski prega mais pragmatismo e menos ideologia no estilo de governar e para chegar à "Venezuela do progresso". “No atual governo, falta vontade para solucionar muitos dos problemas que vivemos”, disse ao iG . “Trabalharemos mais e falaremos menos”, prometeu o político de 39 anos que defende parceria entre “o governo e o esforço privado”.

Possível rival: Capriles é favorito da oposição em primárias na Venezuela

AFP
Henrique Capriles Radonski, provável candidato da oposição nas eleições presidenciais da Venezuela, discursa em Caracas (07/02)
Viagem: Hugo Chávez anuncia visita ao Brasil em março

No contexto que marca o renascimento da oposição após um boicote às eleições de 2005, que ajudou Hugo Chávez a completar 13 anos no poder em 2 de fevereiro após um câncer no ano passado, Capriles é o favorito para vencer as primeiras primárias da Venezuela , que definirão no domingo o rival do presidente venezuelano para as eleições de 7 de outubro .

Governador desde 2008 do Estado de Miranda, o segundo mais populoso do país, o político tem 56% das intenções de voto nas primárias, enquanto o governador do petrolífero Estado de Zulia, Pablo Pérez, está com em 31% e a deputada María Corina com 2%, segundo pesquisa do instituto Datanálisis feita entre 9 e 18 de janeiro.

Fã do líder antiapartheid sul-africano Nelson Mandela e do ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva , a quem tece elogios ao modelo socioeconômico e à diplomacia de sua gestão, o candidato do partido Primero Justicia reconhece os benefícios à população causados pelos programas sociais do governo chavista e promete levá-los adiante. “Os programas sociais não são exclusividade do governo, são do povo. Assim, não há por que eliminá-los”, disse.

Recuperação: Após tratamento contra câncer, Chávez volta aos holofotes

Capriles sabe, no entanto, que são justamente as iniciativas sociais nas regiões periféricas que rendem apoio a Chávez. Questionado sobre como pretende conquistar esse eleitorado mais pobre e historicamente fiel ao chavismo, o opositor se esquiva dizendo apenas que os eleitores precisam votar. Ele também ecoa o jargão “A esperança venceu o medo” da campanha de Lula em 2002 (que usa em seu próprio site de campanha) ao afirmar: “Se há algo do qual estou convencido é que a única coisa que se deve ter medo é o atraso, e não a mudança.”

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu por email ao iG .

iG: Quais são suas principais propostas como candidato? Quais êxitos de seu governo em Miranda o sr. pretende ampliar em nível nacional?
Capriles: Nossa proposta é o progresso por igual. O caminho é dar a todos os venezuelanos ferramentas para progredir, sem distinções ou privilégios. Para alcançar isso é necessário trabalho conjunto entre o governo e o esforço privado. Queremos oferecer emprego, moradia, escola, saúde e serviços de qualidade a todos. Na Venezuela do progresso, trabalharemos para poder viver tranquilamente, em um entorno onde haja segurança, paz e moradias dignas. Somos amigos da multiplicação de oportunidades e inimigos dos privilégios.

iG: Durante seus 13 anos de governo, Chávez obteve o controle do Judiciário, do Legislativo e grande influência sobre os militares. Caso eleito em outubro, como o sr. pretende implementar suas propostas num cenário em que chavistas ainda dominarão setores-chave do país?
Capriles: Não corresponde ao Poder Executivo tomar decisões sobre os outros poderes do Estado, por isso deve haver autonomia e separação dos poderes. Se os venezuelanos devem decidir o caminho que terá o país a partir de 7 de outubro, que escolham entre o país que temos e aquele que merecemos. Por isso é tão importante que o povo participe e exerça seu direito ao voto. Essa Venezuela do progresso está a nosso alcance, mas depende de cada um dos venezuelanos convertê-la em realidade.

iG: Qual a sua expectativa em relação a tais obstáculos e governabilidade?
Capriles: Com o tempo, compreendemos duas coisas importantes. A primeira é que todos os problemas recaem sobre o tema da educação, que é o meio para equiparar oportunidades e superar a desigualdade social. Por isso é crucial que haja educação de qualidade em todos os níveis, professores comprometidos e a infraestrutura necessária para promover aulas adequadamente. Também estamos convencidos de que com vontade política as coisas realmente podem acontecer. No atual governo tem faltado vontade para solucionar muitos dos problemas que vivemos, especialmente a falta de segurança. Na Venezuela do progresso, nos encarregaremos de criar oportunidades, buscaremos soluções, trabalharemos mais e falaremos menos.

iG: O fato de a oposição venezuelana unir-se em uma eleição primária para definir um único rival de Chávez seria um reconhecimento de que cometeu um erro de estratégia em 2005, quando boicotou as eleições legislativas?
Capriles: As primárias são um feito inédito em nossa história, porque pela primeira vez haverá um processo para escolha de candidatos à presidência, governos e prefeituras em que qualquer eleitor registrado poderá participar – independentemente de sua posição partidária. As primárias são uma oportunidade única para escutar a vontade do povo, e por isso não retificam decisões tomadas há muitos anos. Esse processo também fortalecerá a unidade entre os partidos políticos.

iG: Acredita que Chávez pode aumentar o cerco à imprensa ou controlar o tempo de exposição eleitoral na TV e em outros meios até as eleições?
Capriles: Nos últimos anos, os meios do Estado são usados para fazer proselitismo político. As cadeias obrigam todos os venezuelanos a ver o mesmo e impedem que cada um escolha o que quer assistir. Acreditamos em meios do Estado cujo fim deveria ser promover a educação e a cultura nacional.

iG: Em 2010, cada Estado tinha um peso diferente na contagem de votos das eleições legislativas, o que acabou favorecendo o partido governista. Há algum tipo de estratégia que Chávez pode tomar para garantir bons resultados na eleição presidencial?
Capriles: O mais importante nessas próximas eleições é que os venezuelanos percam o medo de votar. Cada voto conta e é importante e necessário para mudar o país. O país que queremos, sem privilégios e com educação de qualidade para todos e oportunidades de progresso, conquista-se com o voto em outubro.

iG: Há quem diga que a chegada de Chávez ao poder foi fruto de um descontentamento interno com um status quo que privilegiava os EUA em detrimento da Venezuela. Como a oposição pode se renovar, mostrando que também tem interesse em melhorar a vida das classes mais baixas – uma das principais bandeiras de Chávez?
Capriles: Não concordo com essa análise. Reconhecemos que, nesses últimos anos, enfatizou-se o social - algo que o país pedia. E seria um erro não reconhecer que os venezuelanos pediam uma mudança. Mas também é verdade que não podemos apenas ficar enumerando os problemas. Hoje os venezuelanos pedem que se busquem soluções.

iG: Como convencer partes do país que votam em massa em Chávez, como regiões mais pobres e áreas rurais, a apoiar a oposição?
Capriles: Muitas vezes se pensa que os venezuelanos estão divididos, mas a realidade é outra. Todos os venezuelanos - do mais endinheirado ao mais humilde, do empregado ao desemprego, do funcionário público ao trabalhador do setor privado, do que vive no campo ao que mora na cidade - vivem os mesmos problemas diariamente. Os venezuelanos querem uma educação de qualidade, um país onde haja oportunidade para seguir em frente, empregos de qualidade, um serviço de saúde que beneficie todos. Se há algo de que estou convencido é que a única coisa que se deve ter medo é o atraso e não a mudança.

iG: O que há de bom no governo Chávez que o sr. tentará manter se for eleito?
Capriles: Creio que seja o feito dentro da área social. Manteríamos os programas sociais que o governo adiantou, mas sempre avaliando qual é seu estado atual, verificando se de fato beneficiam quem mais necessita. Os programas sociais não são exclusividade do governo, são do povo. Assim, não há por que eliminá-los.

AP
Partidários do pré-candidato da oposição Henrique Capriles são vistos durante comício em Caracas, Venezuela (30/01)
iG: Qual político é inspiração para o sr. e por quê?
Capriles: Admiro os presidentes Lula e Nelson Mandela. Lula por toda a transformação que sua gestão fez no Brasil, pelo modelo socioeconômico de seu governo e por suas relações com outros países. O presidente Mandela nos inspira por sua capacidade de unir o povo sul-africano após um período difícil e muito doloroso de sua história e convertê-lo em um país que caminha até o progresso.

iG: Em um artigo publicado no site da Foreign Affairs, Michael Penfold diz que os anos 2000 podem ser considerados a década perdida na política do país. O sr. concorda?
Capriles: Cada experiência traz consigo uma aprendizagem e, se não tomamos cuidado, acabamos não vendo o que é bom e o que ainda pode melhorar. Também não podemos nos sentar e pensar no que poderia ter sido quando já não foi. Se quisermos ter um futuro melhor, temos de começar a trabalhar agora. Nosso país tem mais futuro do que passado ou presente.

iG: Qual o grande projeto nacional para a Venezuela?
Capriles: Sabemos que nosso país tem o potencial para que todos tenham oportunidades. Apostamos em uma Venezuela que passe confiança para atrair investimentos de outros países, que desenvolva a área rural, onde a indústria petroleira seja a plataforma para desenvolver outras indústrias como o turismo ou a agricultura. Trabalhamos todos os dias para que os venezuelanos possam receber benefícios pelo simples fato de serem cidadãos do país e não por pertencer a um partido político.

    Leia tudo sobre: venezuelaeleição na venezuelacaprileschávezlulamandela

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG