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Casos de pedofilia custaram mais de
US$ 2 bilhões à Igreja Católica

Padre Edênio Valle diz que bispos no Brasil 'não tem ideia' do que devem fazer para enfrentar escândalos de abusos sexuais

iG São Paulo |

O custo financeiro direto do escândalo de pedofilia supera para a Igreja Católica US$ 2 bilhões, informaram nesta quarta-feira dois especialistas no simpósio organizado pelo Vaticano para discutir os escândalos de abusos sexuais enolvendo clérigos, enquanto um padre brasileiro disse que os bispos católicos do Brasil "não têm ideia" do que devem fazer para enfrentar casos desse tipo.

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AP
Participantes do simpósio do Vaticano participam de vigília na Igreja de São Ignácio, em Roma

No terceiro dia de reunião, realizada na Pontifícia Universidade Gregoriana, Michael Bemi, do National Catholic Risk Retention Group, de Vermont, e Patricia Neal, diretora do programa de proteção de crianças VIRTUS, disseram que os casos de pedofilia tiveram "profundas consequências negativas" para a Igreja Católica.

Os dois especialistas detalharam que não é possível avaliar os danos causados nas vítimas, cujas vidas foram mudadas para sempre, e por isso analisaram apenas os prejuízos causados à Igreja por esses escândalos.

Esses US$ 2 bilhões foram pagos nos acordos estabelecidos durante os processos das vítimas contra as dioceses, em julgamentos, assessorias legais, tratamentos para as vítimas e acompanhamento dos agressores, entre outros.

Sobre as vítimas de abusos, Bemi e Neal destacaram que ainda não existe um estudo global, mas que, só nos EUA, a estimativa é que 100 mil pessoas foram abusadas em instituições católicas.

Esse número deve ser somado às centenas de casos denunciados na Irlanda, Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Brasil, Canadá, Chile, Índia, Holanda, Filipinas, Suíça, entre outros.

Bemi e Neal frisaram que os escândalos sexuais, além de custar uma quantidade de dinheiro que poderia ser destinada à construção de hospitais, escolas, seminários e igrejas, causaram doenças e transtornos psíquicos, emocionais e sexuais às vítimas, assim como traumas nos familiares.

E, além disso, dispararam as suspeitas em relação a todos os padres e aumentou o distanciamento dos laicos da Igreja. Os dois especialistas asseguraram que é preciso dissipar qualquer equívoco e reconhecer que os escândalos não foram exagerados pelos "meios de comunicação ateus" e que os crimes nada têm a ver com a orientação sexual.

Brasil

O padre Edênio Valle, da congregação do Verbo Divino, analisou perante representantes de 110 conferências episcopais e 30 ordens religiosas a situação da Igreja no Brasil, onde "milhões de famílias vivem em condições de miséria e abandono, o que faz com que as crianças sejam mais vulneráveis a indivíduos sexualmente imaturos", disse.

O religioso denunciou que enquanto os meios de comunicação brasileiros informam amplamente os casos de abusos sexuais a menores que ocorrem no mundo, reagem moderadamente em relação aos casos nacionais.

"Formulo a hipótese que essa relativa moderação no tocante aos escândalos dos sacerdotes católicos se deva ao fato que a pedofilia e a efebofilia são um comportamento culturalmente mais tolerado no Brasil que nos países da Europa e da América do Norte", afirmou.

Valle lembrou a considerável presença de prostituição infantil, sobretudo feminina, e o peso do turismo sexual em algumas capitais e cidades turísticas "que atraem europeus justamente pela facilidade que encontram aqui para a exploração sexual de menores".

Em relação à atuação da Igreja brasileira contra esses casos, Valle frisou que há uma "certa perplexidade" por parte dos bispos sobre o que é preciso fazer, acrescentando que outros críticos "mais severos" pensam que há uma falta de "vontade política por parte do clero em geral".

"Que eu saiba, a Igreja não está programando medidas e procedimentos efetivos em curto, médio ou longo prazo. Não está debatendo seriamente problemas de fundo. Há, isso sim, iniciativas pontuais de pessoas ou grupos, mas não uma resposta coerentemente pensada e posta em prática em termos gerais", continuou.

Edênio Valle comentou que no Brasil não há lugares onde acolher, recuperar e curar as vítimas, que, em geral, "são apenas retiradas de cena", denunciou. Segundo o religioso, as medidas adotadas pelos bispos costumam ser improvisadas e paliativas.

"Não há centros especializados para atender nem os sacerdotes, nem suas vítimas. É dada pouca atenção às consequências que têm os comportamentos dos abusadores para a comunidade na qual cometem os abusos", salientou.

Valle destacou que ultimamente, "perante a insistência" da Santa Sé, dá-se mais atenção à pederastia, "apesar de as medidas parecem limitar-se mais à aplicação de sanções canônicas, como a suspensão das ordens".

O padre se mostrou convencido que no Brasil as penas de clérigos pedófilos trarão consigo consequências financeiras para as dioceses e para as congregações religiosas, como ocorreu em outros países, entre eles os EUA.

Valle concluiu dizendo que o problema do abuso sexual entre o clero católico "não tem nem terá uma solução fácil em curto prazo", e que suspeita que há "silêncios" e que "certas verdades não estão sendo ditas".

A Igreja Católica foi atingida por milhares de escândalos de abuso nos últimos anos, a maior parte na Europa e nos Estados Unidos. Funcionários do Vaticano alertam que muitos casos na África, Ásia e América Latina ainda não vieram à tona.

A conferência de quatro dias na Universidade Gregoriana do Vaticano tem por objetivo aplicar na Igreja Católica com mais força as estritas regras contra abusos adotadas em países como os Estados Unidos, onde os escândalos dos abusos foram divulgados primeiro. Hoje, foi realizada uma vigília penitencial na qual o cardeal Marc Oullet, prefeito da Congregação para os Bispos, pediu perdão a Deus e às vítimas pelos abusos sexuais cometidos por padres, que classificou como "fontes de vergonha e um escândalo enorme".

Com EFE e AFP

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