Vítima de violência doméstica, casal americano luta para combater crime

Por Bruna Carvalho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Mark Wynn ensina policiais a lidar com casos; Valerie fundou ONG para ajudar vítimas a se restabelecer

Mark Wynn teve de lidar com violência doméstica desde os primeiros anos de sua vida. Ele, a mãe e os quatro irmãos eram vítimas de agressões constantes do padrasto alcoólatra em sua casa no Tennessee, nos EUA. Quando tinha 7 anos, Mark e seu irmão de 12 anos decidiram acabar com o ciclo de violência que atingia a família e planejaram matar o padrasto envenenado.

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Mark e Valerie Wynn participaram do Seminário Internacional de Violência Contra a Mulher na Escola Superior do Ministério Público de São Paulo

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Os dois garotos encheram a garrafa de vinho consumida todas as noites pelo parceiro da mãe com repelente e esperavam que, dessa forma, nunca mais teriam de lidar com os espancamentos, a visita constante de policiais em sua casa e o sofrimento da mãe.

"Ele bebeu a garrafa inteira e continuou vivo. Ainda bem, porque, se ele morresse, eu e meu irmão poderíamos ter sido presos em uma instituição juvenil, onde eu sofreria mais violência. Nunca teria me tornado um policial e não estaria aqui hoje, falando para vocês sobre minha experiência", disse durante palestra no Seminário Internacional de Violência Contra Mulher na Escola Superior do Ministério Público de São Paulo.

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O abuso em sua casa se seguiu por anos, até que Mark, sua mãe e irmãos conseguiram fugir para viver com parentes. "Sempre pensava que, se eu sobrevivesse, porque às vezes eu achava que morreria, queria ser policial para lidar com esses crimes da maneira certa. E eu sobrevivi, cresci e me tornei policial", contou Wynn ao iG.

Wynn foi um dos criadores da Divisão de Violência Doméstica no Departamento de Polícia de Nashville, onde serviu por 21 anos. Hoje, ele presta consultoria e treinamento a policiais, juízes, advogados, promotores e legisladores em vários Estados dos EUA e em outras cidades do mundo sobre como lidar com as vítimas de abuso doméstico - desde a forma como se atende uma chamada de emergência, até a coleta de evidências e como ganhar a confiança das vítimas.

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Também ensina a entrevistar crianças presentes na cena dos crimes e promove uma interação e melhor entendimento entre os trabalhos dos policiais, promotores e advogados para proteger as vítimas e responsabilizar criminalmente os agressores.

Para se ter uma ideia, nos EUA, a estimativa é que três mulheres por dia são mortas vítimas de violência doméstica e 15,5 milhões de crianças americanas vivem em casas nas quais os pais se envolveram em algum episódio de violência. Segundo o FBI, entre 75% e 90% dos casos de sequestros estão relacionados a situações de violência doméstica.

Com sua consultoria, Wynn treinou policiais não só nos EUA, mas na China, Geórgia, Austrália, Canadá, Reino Unido, Alemanha, entre outros países. "O que é interessante sobre esses países todos é que os problemas são sempre os mesmos", disse. "A língua é diferente, a cultura é diferente, a religião é diferente, mas a violência é a mesma aonde quer que você vá. É a mesma forma de usar a violência para controlar outra pessoa."

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Foi no Departamento de Polícia de Nashville que Mark Wynn conheceu sua mulher, Valerie, que, assim como ele, luta para combater a violência doméstica, porém em outra frente. Psicóloga, Valerie criou uma ONG em Nashville para ajudar as vítimas a se curar dos traumas do abuso e se reintegrar socialmente.

Assim como Mark, Valerie teve um passado de violência doméstica. A agressão que sofria do ex-marido, entretanto, não era física, mas psicológica. "Quando alguém fere seu rosto, você consegue ver essa violência. Consegue ver as marcas desaparecendo dia após dia. O mesmo não acontece quando alguém fere sua alma", relatou durante a palestra.

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Com a ONG Mary Parrish - que recebeu esse nome em homenagem à mãe de Mark -, Valerie criou um programa que, durante dois anos, oferece abrigo em 11 apartamentos para mulheres e seus filhos até que elas consigam se restabelecer. Funcionando basicamente por meio de doações, a ONG já atendeu 85 mulheres desde 2010.

"Montamos os apartamentos com cuidado. Queremos que eles fiquem bonitos para receber a nova moradora", disse Valerie, que conta já ter recebido críticas de doadores por não aceitar móveis em más condições. "As pessoas se ofendem, porque o pensamento é: 'É melhor isso do que o que elas têm'. Se eu lhe tiro de um abrigo e a coloco em um apartamento feio, qual mensagem estou enviando? As pessoas se perguntam por que (tanto cuidado), e digo que, no momento em que a pessoa entra no apartamento, a cura começa."

Valerie acredita no poder da linguagem para lidar com aqueles que sofreram com violência doméstica. Ela prefere chamá-las de sobreviventes a vítimas. Também não acha que a busca deva ser por uma recuperação de autoestima, mas sim de valor próprio. O seu programa de dois anos oferecido na ONG também não trata as vítimas como pacientes, como portadoras de alguma patologia.  "No fim das contas, são todas mulheres que se apaixonaram pelo homem errado."

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