Professores grevistas dão aula de reforço para o Enem no Ceará

Docentes reúnem estudantes em praças e em algumas salas de aula para prepará-los, sem cobrar nada, para o exame

Daniel Aderaldo, iG Ceará |

A gente não faz isso por amor, como diz o governador, mas pelo dever. A greve é uma luta nossa, mas não para prejudicar o futuro dos alunos”

Faltando pouco mais de um mês para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) , parte dos alunos de 3º ano matriculados na rede estadual do Ceará continua tendo aula, apesar da greve dos professores – que já dura 44 dias. Grupos de professores se organizaram e estão promovendo “aulões” para diminuir os impactos da paralisação sobre os estudantes que pretendem ingressar no ensino superior.

Na Escola de Ensino Médio Governador Adauto Bezerra, localizada no Bairro de Fátima, 20 professores se revezam durante seis dias por semana em aulas, simulados e plantões de redação no auditório da instituição de ensino. Dos 600 alunos matriculados no 3º ano, 550 estão inscritos no Enem e cerca de 250 frequentam as aulas diariamente.

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Divulgação/Projeto Clio
Aula de reforço para o Enem em praça pública de Fortaleza
“A ideia surgiu em 2009, quando houve uma situação idêntica”, explica o diretor da escola, Humberto Mendes. Ele conta que o material didático usado nas aulas foi desenvolvidos especificamente para o projeto. Os professores apresentam conteúdos que até então não haviam sido abordados, comentam questões de provas anteriores, realizam provas simuladas e corrigem redações aos sábados. “Tudo isso só é possível porque a colaboração dos professores é voluntária”, acentua.

As aulas voltadas para o Enem durante a greve dos educadores não fazem parte do calendário escolar. Isso significa que os alunos não precisam registrar presença e não são submetidos a avaliações por nota. “Ou seja, vem quem quer”, pondera o diretor.

Sem pressão para passar de ano

Judson Pontes, de 18 anos, estuda na Escola Adauto Bezerra e vai tentar ingressar no curso de geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Ele lamenta a greve, mas consegue enxergar um lado bom na paralisação. “Sem a pressão da preocupação em também passar de ano, estou até mais focado", diz ele. 

Eles vêm espontaneamente, por isso participam mais, evitam a conversa paralela, mesmo com o tamanho da turma. Isso até dá mais prazer”, diz professor

Fábio Ferreira Menezes, 18 anos, vai concorrer a vagas nos cursos de farmácia de universidades federais dos Estados de Pernambuco e da Paraíba. Ele pensa parecido com o colega. “Toda greve tem prejuízo, mas estou gostando mais das aulas em auditório do que das salas convencionais, porque no dia a dia tem trabalho e atividades obrigatórias para fazer em casa, além das provas. Agora a gente se dedica só aos estudos para o Enem”.

O professor de química Regis Melo está sentindo a diferença. “Eles vêm espontaneamente, por isso participam mais, evitam a conversa paralela, mesmo com o tamanho da turma. Isso até dá mais prazer”, afirma. “A gente não faz isso por amor, como diz o governador , mas pelo dever. A greve é uma luta nossa, mas não para prejudicar o futuro dos alunos”.

A estudante Isabella Mota, de 17 anos, vai concorrer a uma vaga para engenharia de energia, um dos cursos mais novos da UFC - e também um dos mais concorridos. Ela é assídua frequentadora dos aulões no auditório, mas reconhece que o aluno precisa ser estimulado pelo compromisso das aulas formais. “Quando veio a greve eu fiquei parada. Eu tava em um ritmo e entrei em outro diferente, porque essas aulas não tem a obrigação de assistir”.

Daniel Aderaldo/iG
Apesar da greve, professores dão aula de reforço para alunos em Fortaleza - dentro das escolas
Iniciativas coordenadas

Esse tipo de iniciativa está presente em pelo menos mais 25 escolas estaduais de Fortaleza. No Colégio Estadual Presidente Humberto Castelo Branco, as oito turmas de alunos dos três turnos também contam com aulões diários e com o Prevest – uma espécie de cursinho pré-vestibular para alunos da rede pública.

Os aulões para o Enem não partem somente das escolas. Um grupo de 30 professores da rede estadual já realizava um projeto voluntário de reforço escolar e, com a greve, resolveu se articular para aumentar o número de participantes e realizar aulões em praças públicas. Segundo o professor de História Helder Gomes, um dos coordenadores do Projeto Clio, atualmente 200 professores ministram essas aulas preparatórias para o exame.

Impasse

O Sindicato dos Professores do Ceará (Apeoc) diz que o governo do Ceará não cumpre a Lei Federal do Piso e o plano de cargos e carreiras dos professores. A categoria quer a aplicação do piso para os profissionais de nível médio, graduados e pós-graduados.

“Está passando da hora do governador Cid Gomes (PSB) agir para resolver a situação da greve. Uma parcela considerável da categoria tem buscado alternativas e coordenadas para que os alunos do 3º ano não sejam os mais prejudicados, mas o governo não pode se acomodar. Essa situação já deveria ter sido resolvida de forma antecipada”, defende o presidente do Sindicato dos Professores do Ceará, Anízio Melo.

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