Exemplos apontam caminhos para reverter fracasso no ensino médio

Ensino profissionalizante, aulas atraentes, uso de tecnologias e formação de professores mostram resultado

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo | 25/02/2011 07:00

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Escolas que abrem portas para o mercado de trabalho, aulas ao ar livre, visitas a parques e museus, novas tecnologias à disposição dos alunos e investimento na formação de professores. Para a grande maioria dos jovens brasileiros, iniciativas como essas parecem utopia, mas todas já existem em plena rede pública e dão resultados que apontam caminhos para reverter o fracasso do ensino médio retratado pela série especial do iG Educação.

Foto: Arquivo Pessoal

Alunos de escola estadual de São José (SC) em visita a praia de pescadores em Florianópolis

Uma das ações mais apoiadas por especialistas na área é o crescimento da oferta de vagas em cursos profissionalizantes. Além da conexão com o ambicionado mercado de trabalho que aumenta o interesse dos jovens pelo estudo, os exemplos mostram que as escolas com ensino médio integrado a cursos técnicos conseguem melhores resultados no aprendizado das disciplinas básicas.

Os alunos dos Institutos Federais, que oferecem essa integração, obtiveram nota média igual a dos países mais desenvolvidos do mundo no Programa de Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), que testa capacidades em leitura, matemática e ciências. As Escolas Técnicas Estaduais, em São Paulo, também estão entre as primeiras colocadas no ranking do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

No Brasil todo, no entanto, há apenas 860 mil vagas para cursos assim, incluindo a rede particular: uma para cada 10 jovens que estão no ensino médio. “Nos países mais ricos, a oferta de profissionalizantes é de 20% a 30% do total da etapa. No Brasil, estamos em 10%”, lamenta Wanda Engel, superitendente do Instituto Unibanco.

O governo federal anunciou um programa que deverá ampliar este porcentual dando a alunos de escolas públicas bolsas para cursos no Sistema S, que gerencia Sesi, Sesc, Senai e Senac. A previsão é de que no primeiro ano sejam ofertadas 1,6 milhão de vagas. “Vamos ver como vai funcionar, o ideal seria que essa formação fosse dentro da escola para ajudar a tornar aquele ambiente interessante”, diz a doutoranda em Educação e presidente do Centro de Estudos e Memória da Juventude, Fabiana Costa.

Ensino Médio Inovador

A aposta do Ministério da Educação (MEC) para melhorar a escola tradicional é o projeto piloto Ensino Médio Inovador, que começou a ser implantado no final de 2009 em 357 escolas – 2% das 17 mil unidades desta etapa – em 18 Estados. O governo federal envia uma verba diretamente para a instituição que formular um projeto em que os estudantes tenham 20% mais tempo de estudo com atividades culturais e recuperação de conteúdos em que demonstrem dificuldades.

O responsável pelo projeto, Carlos Artexes, foi diretor de Concepções e Orientações Curriculares para Educação Básica do MEC até janeiro deste ano, quando decidiu voltar a dar aulas em uma instituição de ensino superior no Rio de Janeiro. “Percebemos que era importante fortalecer a cultura das escolas e aumentar o tempo que o aluno passa dentro dela. Vamos ver os resultados em 2012, quando os alunos que estavam no 1º ano em 2010 se formarem”, conta.

Na escola estadual Laércio Caldeira de Andrada, em São José, Santa Catarina, os benefícios já são comemorados. No ano passado, os alunos participantes foram conhecer museus em Porto Alegre, projetos ambientais em Curitiba e áreas históricas em Florianópolis, como a vila de pescadores Pântano do Sul. Dentro da escola, tiveram aulas com a participação conjunta de professores de diferentes disciplinas e novos materiais adquiridos com a verba, como máquina fotográfica, filmadora e laptop.

“Das quatro turmas que temos, duas participaram e a diferença de resultados em evasão e aprendizado foi grande”, diz a assistente técnica pedagógica Rosilane Rachadel Martins, que coordena o projeto na unidade. Ela aponta problemas, como a falta de espaço físico para montar salas e de um profissional pago para tratar apenas do projeto, mas defende que o programa seja estendido para todo o País. “Agora os alunos têm mais expectativas da escola”, resume.

Artexes acredita que o caminho da mudança é esse, ainda que dependa da adesão dos Estados e da criatividade das equipes pedagógicas de cada escola. “O Brasil é uma federação, e os Estados têm autonomia para conduzir o ensino médio, que é responsabilidade deles. Mudanças radicais, como as da China, acontecem em culturas autoritárias. Nós não queremos isso”.

Foto: Fabio Guinalz/Fotoarena

Liliane Oliveira estagia no laboratório de informática da escola: aprende e ensina

Secretários conhecerão novas diretrizes em março

A mesma linha segue o Conselho Nacional de Educação, que discute desde agosto do ano passado novas diretrizes para o ensino médio. O relator da comissão, José Fernandes de Lima, diz que as ideias estão prontas, mas como muitos responsáveis pelas secretarias estaduais foram trocados com os novos governos empossados este ano, haverá uma nova conversa, já agendada para 30 e 31 de março.

Segundo ele, o esboço das diretrizes, que já está pronto, pede ênfase nas disciplinas ligadas a trabalho, cultura e ciências, mas em vez de fórmulas, incentiva que os sistemas e unidades avaliem do que precisam. “O resumo da nossa mensagem para os gestores é: descubram e assumam a personalidade da sua escola e façam com que isso se aproxime dos interesses da juventude que está perto de você”, afirma Lima.

Outros projetos, com bons resultados, ainda que isolados, são de iniciativas de cada secretaria estadual. Em São Paulo, o governo contratou alunos do ensino médio como estagiários do laboratório de informática. Os jovens, que costumam ter uma afinidade maior com a internet do que a maioria dos professores, ganham R$ 400 para passar quatro horas a mais na escola e mantêm abertas as salas de computadores que antes passavam a maior parte do tempo fechadas.

A estagiária Liliane Miranda de Oliveira, de 17 anos, atende professores e alunos da escola estadual Angela Bortolo diariamente. “Eu já sabia informática, mas aprendo a lidar com as pessoas e ajudo quem tem dificuldade”, diz. O diretor da escola, Washington Luis dos Santos Falcão, afirma que os demais estudantes ficaram satisfeitos por contar com o laboratório à disposição no contraturno e que os estagiários apresentam melhora no comportamento estudantil.

Formação e aumento de salário

No Espírito Santo, foi feito um investimento nos professores de matemática, disciplina em que os alunos mais apresentam dificuldades. Uma parceria da Fundação Roberto Marinho com a Secretaria de Educação oferece formação aos docentes da área no ensino médio de 300 escolas desde 2008. Nos dois primeiros anos, os encontros entre os educadores eram quinzenais e, em 2010, passaram a ser trimestrais, mas foi montado um curso à distância com uma rede social própria para 1.500 educadores trocarem ideias.

Foto: Divulgação

Professores de matemática do ensino médio em formação que melhorou média dos alunos em três anos

Para apurar os resultados, é realizada uma avaliação com os alunos nos mesmos moldes do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), do governo federal. Em 2008, a nota média foi 242, em uma escala de zero a 400, no ano seguinte, 251, e no ano passado, chegou a 272. A professora Marinete Santana, de São Mateus, no interior do Estado, usa o próprio exemplo para dizer que a mudança foi maior do que atestam os números. “Antes, a gente pulava conteúdo que não sabia, eu fazia isso com geometria”, assume.

Os professores recebem R$ 160 por mês para fazer a formação com 40 aulas. Também houve um expressivo aumento nos salários na rede estadual. Marinete, por exemplo, ganha R$ 2.400 por 40 horas semanais, o dobro do que há 4 anos. “Ainda não é compatível com a remuneração de outros profissionais com ensino superior, mas percebi que já aumentou o interesse pela carreira”, diz.

São ações que respondem aos problemas de desinteresse e desistência dos alunos, baixo nível de aprendizado e má formação do professor, apresentados nesta série. Falta, agora, deixarem de ser exceções.

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    32 Comentários |

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    • TATIANA MELO | 01/03/2011 12:45

      Não basta discutir novas diretrizes, as diretrizes atuais apresentam boas opções, o fato é que não são aplicadas como deveriam e não ocorre fiscalização. As futuras diretrizes além de estarem no papel devem ser aplicadas. O sistem educacional Brasileiro precisa de uma reciclagem rigorosa.

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    • Ozéias | 28/02/2011 09:47

      Educação nesse país é o que menos importa, todo ano se fala em melhorias na educação e o fim das propostas são os arquivos.

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    • Jáqueson | 27/02/2011 09:51

      Olá amigos,
      Não sou de participar deste tipo de reflexão coletiva, mas pelos bons argumentos apresentados por muitos de vocês resolvi deixar algumas palavras divididas em tópicos.
      1º Não precisamos fazer muita força para confirmarmos a ideia de que escolas que selecionam alunos para o ingresso, que têm professores com remuneração diferenciada (mesmo que não seja o que se espera) e regime de trabalho muito diferente da maioria dos professores, sejam indicadas como modelos a serem seguidos, como “soluções para os problemas que existem na pluralidade de situações que existem no nosso país”. Há bem pouco tempo atrás eu ouvi um chamado quando estava saindo para dar aula e retornei. Era o modelo de eficácia na educação, a escola que tinha conseguido o melhor índice num destes indicativos do governo. Voltei e, para ter a oportunidade de levar a “fórmula para a minha escola”, optei por me atrasar alguns minutinhos. Ao assistir o programa, deparei-me com uma escola numa região de colonos, que viviam do trabalho na roça, com 50 alunos ao todo (desde o pré até o último ano do ensino médio), os professores davam aulas particulares, praticamente, e, quando os alunos não estavam aprendendo, os pais ou alguém da família vinham assistir a aula para ajudá-los a se desenvolver, enquanto que duas das turmas que eu atendia naquele ano tinham 50 alunos cada.
      2º Como não aproveitarmos também para refletir a posição antagônica adotada na maioria das escolas públicas providas das progressões que os nossos alunos das séries iniciais estão tendo de forma automática, ou seja, ao contrário das escolas técnicas e das escolas militares não precisam demonstrar nenhum mérito para ir adiante e, pelo indicado, tende a ir até o 5º ano “para combater a cultura da repetência” e desenvolver o senso comum no qual basta dizer que “está bom”e que ”não precisando provar nada a ninguém”. Infelizmente isso cairá por terra ao observarmos num futuro não tão próximo assim “daqui a uns 10 anos”, pois estes alunos deverão chegar ao final do ensino médio, se chegarem. E aí engrossarem as multidões de menos favorecidos pelo sistema que correm para fazer um curso particular de suplência em seis meses, com uma aula semanal, que o dará, mesmo tendo somente o 7º ano, o certificado de ensino médio após ter demonstrado ter aprendido o suficiente para isso?!?!
      3º E último, para não abordarmos outros temas menos polêmicos, a distribuição paternalista de bolsas-escola que assim como o desenvolvimento nas séries iniciais não precisam dar retorno na parte cognitiva, ou seja, a criança só tem que frequentar a escola não precisando ter um desenvolvimento lá, até mesmo porque a tendência é que todos tenham “um desenvolvimento positivo nas séries iniciais” ( passam automaticamente de um ano para outro sem nenhum pré-requisito) ficando para a família somente a responsabilidade de garantir que o seu rebento entre todos os dias letivos naquela casinha para ouvir um adulto falar coisas que para alguns são desnecessárias na formação do homem moderno, já que eles estão conectados e os avanços tecnológicos somente serão feitos por seres extraterrestres, aqueles que chegaram ao final de um curso técnico ou de uma boa faculdade.
      Desculpem as ironias e um pouco de pessimismo, mas não é fácil ver as soluções simplórias dadas para os problemas pontuais que temos na educação brasileira.

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    • Ubiratan | 26/02/2011 09:51

      Muito bem colocado Celso, precisamos de políticas sérias para que a educação brasileira começe a melhorar, e proporcionar a sociedade uma educação digna, para não perpetuar uma escola pobre para pobre.

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    • Paulo Reis | 25/02/2011 18:32

      Parabéns a IG por proporcionar aos Professores um espaço para expor os graves problemas que afetam a educação pública no Brasil.

      Gostaria que as proposta apresentadas pelos Professores neste espaço fosse tansformadas e um documento e entregue ao ministro da educação, e secretarios etaduais e municipais de todo Brasil, e se possivel for que a IG dê um retorno a todos aqueles que participaram desta discussão.


      Paulo Reis


      Mogi das Cruzes/SP

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      lizete da Penha | 26/02/2011 18:01

      Concordo en gênero, número e grau.

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    • Israel | 25/02/2011 16:36

      Sugerir mudanças, ou realizar questionamentos bem fundamentados sobre os rumos e a qualidade na educação não me parece algo simples. Muitos pormenores dignos de consideração estão envolvidos. Na qualidade de professor de matemática em MG acredito que dentre os fatores que contribuem para fracasso da educação podemos elucidar como decisivos, a falta de supervisão por profissionais competentes, aliado a má remuneração do profissional docente. Compare as escolas técnicas que tem conseguido bons resultados nos exames internacionais com as escolas estaduais. Observe que a estrutura e proposta curricular para o ensino médio não são estão muito distantes, leve em consideração também que houve uma seleção de alunos nas escolas técnicas federais. Ensinar para quem já tem bases bem fundamentadas e até uma ligeira facilidade não é algo tão difícil assim. Somos (nós professores) capazes de ajudar qualquer pessoa; desde que queiramos, desde que exista motivação. Talvez já tenham me interpretado nas entre linhas, é isso mesmo, em uma estrutura capitalista o que motiva é dinheiro e sem ele serão poucos os casos que realmente nos instigarão a dar tudo o que temos a oferecer. Sou capitalista admito, assim como o bom médico, o bom advogado, o bom engenheiro e por aí vai. É importante também retirar da educação os engenheiros os bacharéis em matemática não licenciados, advogados os bacharéis em letras. Talvez até sejam competentes e capazes, mas Sr. Toninho curandeiro lá perto de casa também é, se quiser pode ir até lá realizar uma consulta com ele. Todos nós professores temos que zelar pela nossa carreira, afinal de contas somos os encarregados de umas das tarefas mais nobres da sociedade. Então cidadão não professor que leu as sentenças acima, eis os últimos questionamentos: Zelar pela saúde é uma atividade essencial à sociedade. Quanto ganha um médico que trata da sua saúde? Qual é o rigor para que ele se torne um médico? Legislar é uma tarefa importante para a sociedade. Quanto ganha um deputado, um senador? Qual é o rigor para escolhê-lo? Ter alguém apto a julgar é uma necessidade da sociedade. Quanto ganha um juiz? Qual é o rigor para se tornar um juiz? É acho que pelo que ganha um professor o que fazemos com nossas crianças realmente não importa! Talvez por isso não exista rigor ao escolher os professores.

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      FÁBIO | 28/02/2011 09:38

      Parabéns Israel, o seu comentário veio completar as minhas palavras...

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    • Daniel - História | 25/02/2011 16:36

      Tudo baléla, não conseguimos nem respirar numa sala de aula, e vem com esse papo, estou cansado de papo-furado.

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    • Paulo Reis | 25/02/2011 16:28

      TECNOLOGIA, SALÁRIOS ATRAENTES E FOMAÇÃO CONTÍNUA E DE QUALIDADE

      O uso de tacnologias e formação contínua dos professores, por si so não vai melhorar a qualidade da educação no Ensino fundamental e Médio, se não houver:

      Uma grande reforma nos dois niveis de ensino;

      E os professores receberem salários atraentes para que eles possa se dedicar em tempo integrau a eduacação.


      Paulo Reis

      Mogi das Cruzes/SP

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