Astrônomos põem em xeque descoberta de planeta parecido com a Terra

Por The New York Times |

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Planeta de Alfa Centauro B não é o primeiro mundo promissor a desaparecer nas sombras da incerteza

ESO
Ilustração mostra Alfa Centauro

Os corações cósmicos começaram a bater mais acelerados no último outono no Hemisfério Norte quando uma equipe de astrônomos europeus anunciou ter encontrado um planeta com massa comparável à da Terra orbitando ao redor da Alfa Centauro B, parte de uma estrela tripla que é a vizinha mais próxima do Sol, somente a 4,4 anos-luz daqui.

Como afirmou na época Geoffrey W. Marcy, astrônomo da Universidade da Califórnia, campus de Berkeley: "É tão perto que quase que dá para cuspir lá." Segundo astrônomos, perto o suficiente para enviar uma sonda científica que nela chegaria durante nossas vidas. O novo planeta, somente a seis milhões de quilômetros de sua estrela, seria infernalmente quente para ter vida, mas, ainda de acordo com astrônomos, onde existe um planeta, devem existir outros, numa localização mais confortável para a vida. Agora, no entanto, caiu uma ducha de água fria sobre o otimismo cosmológico, pois uma nova análise dos dados europeus levanta dúvida sobre a existência desse planeta em Alfa Centauro B.

Ao escrever para "The Astrophysical Journal" no mês passado, Artie P. Hatzes, diretor do Observatório do Estado da Turíngia, Alemanha, que não integrou a equipe da descoberta original, sustentou que não conseguiu confirmar o planeta quando o procurou sozinho nos dados europeus. "Às vezes, ele está lá, às vezes, não", dependendo do método empregado para reduzir o ruído estatístico, disse o astrônomo por e-mail.

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O que não quer dizer que o planeta não exista, escreveu Hatzes, porém "nos meus anos de experiência extraindo sinais de planetas, isso simplesmente não 'cheira' a um planeta real".

O ceticismo de Hatzes se mostrou contagioso. Suzanne Aigrain, da Universidade de Oxford, citou a máxima de Carl Sagan segundo a qual afirmativas extraordinárias exigem provas extraordinárias, argumentando que o texto de Hatzes "certamente põe em dúvida os indícios originais".

Xavier Dumusque, da Universidade de Genebra, que liderou a descoberta original, afirmou que o questionamento de Hatzes é saudável para a ciência. "Duvidar de uma detecção é sempre proveitoso", ele escreveu por e-mail. Entretanto, acrescentou que o estudo de sua equipe deixou claro que "o sinal investigado está no limite da precisão de dados".

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Todos concordam que mais dados são essenciais e, felizmente, existirão mais informações, segundo Debra Fischer, astrônoma da Universidade Yale que estudou o sistema de Alfa Centauro. Tanto o grupo dela quanto a equipe de Genebra da qual Dumusque faz parte obtiveram mais observações em maio.

Maio foi um mês ruim para os astrônomos de exoplanetas. O Kepler, satélite caçador de planetas da Nasa, a agência espacial norte-americana, perdeu a capacidade de direcionamento.

Citando Jeff Lebowski, o herói do filme "O Grande Lebowski", dos irmãos Coen, Hatzes disse que "a vida é feita de 'altos e baixos' e nesta semana a última foi verdadeira".

O planeta de Alfa Centauro B não é o primeiro mundo promissor a desaparecer nas sombras da incerteza. Astrônomos ainda discutem a existência de Gliese 581g, planeta que estaria na "zona Cachinhos Dourados", não muito quente nem muito fria, e dito como aposta certa de ter vida ao ser descoberto em 2010.

Isso tudo só serve para mostrar como os detalhes são diabólicos enquanto os astrônomos fecham o cerco para encontrar planetas similares à Terra.

Veja imagens do espaço

Dumusque e colegas encontraram o planeta pelo chamado método do bamboleio – aperfeiçoado ao longo dos anos por Michel Mayor e colegas do Observatório de Genebra –, que mede a massa dos planetas pelo tanto que estes se afastam e se aproximam da estrela orbitada.

O grupo utiliza um espectrógrafo criado especialmente, o Harps, sobre um telescópio de três metros e meio do Observatório Europeu do Sul, em La Silla, Chile, para mensurar esses bamboleios, vistos como mudanças levemente rítmicas no comprimento de onda da luz estelar.

A Terra "dá um chute" de cerca de dez centímetros por segundo no Sol enquanto o orbita, mas é muito menor do que a tremulação provocada pelas manchas solares e a atividade magnética.

Em suma, o êxito em detectar planetas de massa baixa depende mais e mais de obter, de uma maneira confiável, um sinal pequeno em meio a um pano de fundo ruidoso e muito maior.

O Kepler, que usa o método da "piscada" para encontrar planetas quando estes cruzam a frente das estrelas, está chegando ao limite das operações.

Tomando por base que três piscadas eram necessárias para verificar uma órbita, os astrônomos do Kepler chegaram a pensar que necessitariam de três anos para verificar a existência de planetas em órbitas confortáveis como as nossas.

Entretanto, as estrelas se revelaram muito mais barulhentas do que o previsto; há um ano, a missão do Kepler foi ampliada para que mais piscadas pudessem ser coletadas, mas a falha de uma roda de reação que permite ao telescópio ser apontado com precisão provavelmente deu um fim nisso.

Ainda existe uma enorme quantidade de dados coletados pelo Kepler, incluindo 132 planetas confirmados e, até a semana passada, 3.216 candidatos a planetas.

Quem está aguardando o lançamento, em 2017, é o Satélite de Pesquisa de Exoplanetas em Trânsito (Tess, na sigla em inglês), incumbido de monitorar aproximadamente dois milhões de estrelas próximas. De acordo com a declaração dada ao Google alguns anos atrás por George R. Ricker, líder do projeto TESS e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), "na verdade, quando as astronaves transportando colonizadores deixarem o sistema solar, elas podem muito bem ir à direção de um planeta descoberto pelo TESS como um novo lar."

Pode até ser em Alfa Centauro.

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