A saga da minha mãe contra um câncer pelo Sistema Único de Saúde

Como uma japonesa acabou passando a perna em uma dezena de doentes brasileiros mesmo tentando fazer tudo certo

Nara Alves, iG São Paulo |

Não sou uma pessoa dadivosa, com vocação para cuidar dos outros. Não faço trabalho voluntário e a última doação que fiz foi para a Wikipedia, o que não pode nem ser considerado caridade. Dito isso, permito-me narrar a história da minha mãe, uma mulher que raramente pensou em si e acabou passando a perna em uma dezena de doentes. Ela veio do Japão aos vinte anos e no Brasil ficou. Há três anos, quando foi diagnosticada com câncer , negou-se a realizar o tratamento no Japão, onde o serviço público gratuito é praticamente a única - e melhor - opção para cidadãos como ela. "Nunca paguei impostos lá, não me dou esse direito. Vou me tratar aqui", decidiu. O comportamento moral japonês é coisa de outro mundo.

Isso foi em 2009, quando hospitais públicos e privados do Brasil enfrentaram a escassez de uma substância radioativa utilizada na realização de exames no tratamento de câncer e doenças cardíacas. Com isso, milhares de pacientes ficaram sem atendimento. Uma dessas pessoas foi Carlos Henrique Andreoli, de 42 anos, que sofreu um infarto em 2008. Seu médico solicitou uma cintilografia cardíaca para avaliar se o stent (uma espécie de tubo) estava funcionando corretamente na desobstrução de artérias.

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O governo, responsável pela importação da substância, dividia os lotes que chegavam ao Brasil igualmente entre os sistemas público e privado de saúde. Numa primeira vista, o critério me pareceu justo. Afinal, rico ou pobre, doente é doente. Não é porque minha mãe pode pagar um plano de saúde que ela merece menos chances de sobrevida do que alguém que depende do Sistema Único de Saúde, o SUS. Acontece que o paciente que chega ao cardiologista ou ao oncologista por meio do sistema público já sofreu tanto com a demora nas filas de atendimento e triagem que o fator tempo, fundamental para garantir maiores chances de cura, deveria ter sido levado em consideração.

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Em outubro do ano passado, médicos do SUS fizem greve por melhorias no atendimento

Andreoli, o cardíaco em questão, teve seu exame cancelado. Talvez após a nossa conversa ele tenha conseguido marcar finalmente a cintilografia, pelo SUS ou por vias privadas. Não sei. Mas, naquele momento, enquanto ele esperava angustiado vendo sua vida em risco, minha mãe fazia os exames necessários para o início de sua radioterapia na região do útero, onde o câncer apareceu. Após o tratamento, cansada, ela decidiu parar de trabalhar. Optou por continuar com o mesmo plano de saúde empresarial por mais dois anos, prazo máximo permitido por lei.

Exatamente ao fim desse prazo, numa dessas coincidências que te fazem questionar o porquê de tanto azar, o câncer voltou. Deu metástase no pulmão. Agora, minha mãe caíra num limbo entre o plano de saúde e o sistema privado. Pela lei de portabilidade de planos de saúde , o consumidor – a lei trata como consumidor, mas na prática é paciente – só pode migrar o plano corporativo para um de pessoa física se ambos forem de nível equivalente.

Se fosse optar pela portabilidade, portanto, ela teria de pagar um plano mais caro do que o total de sua aposentadoria. Ou seja, não é uma possibilidade real. Para aderir a um plano de menor nível, ela enfrentaria uma carência de dois anos para diversos procedimentos, incluindo cirurgias, o que poderia colocar sua vida em risco. Se fosse recorrer ao sistema privado, teria de vender a própria casa duas vezes para pagar o tratamento, sem garantias de que daria resultado na primeira tentativa. Restava a ela o Sistema Único de Saúde, o SUS.

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Informados sobre o dilema imposto à minha mãe pela lei brasileira, seus irmãos, que jamais deixaram o Japão, deram meia volta no mundo para tentar demovê-la da ideia de realizar a quimioterapia no Brasil. E, pela segunda vez, ela não arredou o pé. Foi então que, depois de mais de 30 anos pagando incontáveis impostos, ela decidiu utilizar pela primeira vez o sistema público de saúde.

Na fila do postinho do bairro estava um jovem com um tapa-olhos. Apelidei o jovem de “caolho”. A senha dele era um número anterior à da minha mãe. Como havia duas atendentes, os protocolos foram feitos concomitantemente. Lado a lado, os dois explicavam às mocinhas o que lhes passava. "Acho que peguei uma conjuntivite ", disse um. "Meu tumor deu metástase no pulmão ", disse a outra.

Evidentemente o quadro de minha mãe era muito mais grave. Por isso, segundo as normas da Unidade Básica de Saúde, a UBS, ela ganhou prioridade e uma consulta de encaixe foi marcada para o dia seguinte. Mais uma vez, como no caso da distribuição da substância radioativa, à primeira vista o critério adotado pelo poder público parecia justo. Só que o rapaz e sua conjuntivite foram agendados para dali a um mês. No dia seguinte, portanto, enquanto um clínico geral da UBS examinava um laudo preparado para a leitura minuciosa de um oncologista, o “caolho” poderia espalhar conjuntivite para toda a família.

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Fachada do Hospital Sírio-Libanês, onde se trata o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Munido de uma caneta Bic sem tampa e um dicionário cujas páginas, de tão secas, quebravam nas pontas, o clínico geral da UBS solicitou à Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo atendimento de urgência em um hospital especializado. No mesmo dia, aproveitando os últimos dias de validade do plano de saúde corporativo, minha mãe teve uma consulta no Hospital Sírio-Libanês. A diferença na qualidade das instalações, de preparo profissional e, especialmente, de trato com o doente chocaram minha mãe a tal ponto que, ao final da consulta que durou duas horas, ela chorou.

A médica do Sírio-Libanês trabalha em uma pesquisa sobre uma nova droga de combate ao câncer e minha mãe atendia aos pré-requisitos para participar do estudo. Com isso, o tratamento seria acompanhado pessoalmente por uma médica de um hospital privado, só que no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, o Icesp, um hospital público. Assim que o termo de compromisso com a pesquisa foi assinado, a empresa da minha mãe lhe informou que havia decidido manter o plano de saúde corporativo até o fim do tratamento, ignorando a lei. Mas, como ela já havia se comprometido a participar da pesquisa, decidiu se tratar no Icesp.

O Icesp é um hospital de referência na rede pública de saúde. O governo do Estado tem o maior orgulho dele. De fato, as coisas funcionam por lá. Mas, sempre tem um mas. Há, por exemplo, filas para pegar os elevadores. Quando se abre a porta do elevador, o que se vê poderia ser uma passagem do livro Ensaio Sobre a Cegueira. O paciente circula por cinco ou seis guichês e perde horas lá dentro até conseguir falar com uma atendente que masca chiclete cor de rosa de boca aberta e não ergue o olhar para dizer "sua consulta não consta no Sistema". Boa parte dos acompanhantes não tem coragem de se sentar, apesar das dezenas de cadeiras colocadas nos corredores. Isso porque os próprios pacientes, entre eles muitos idosos entubados, aguardam no mesmo local. Como eu, muitos não têm coragem de se sentar, podendo estar em pé. A demanda é tão maior do que a capacidade que aquilo que teria potencial para ser bom vira uma agonia.

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Numa dessas idas ao Icesp, a médica observou no corpo de minha mãe alguns pontos vermelhos na pele. Preocupada, encaminhou a uma dermatologista do Hospital das Clínicas. Assim como todos os exames referentes à pesquisa, todas as consultas são obrigatoriamente feitas no sistema público, mesmo que o doente tenha condições de pagar por elas (pacientes que não fazem parte do protocolo de pesquisa estão liberados para fazer exames fora do SUS). O HC, ao contrário do Icesp, não é motivo de orgulho para o poder público. Na porta, às vezes achei difícil distinguir quem era paciente, quem era mendigo.

"Eles perceberam que a gente furou fila", sussurrou minha mãe na saída, cheia de remorso

Com um papel amarelo em mãos, minha mãe se encaminhou ao consultório dermatológico. Ali estava uma criança aparentemente com vitiligo , ao lado de um homem aparentemente com lepra – politicamente correto chamado de portador de hanseníase – que embrulhara as feridas no antebraço com Magipac. A menina, bem pequena e bem morena, parecia um panda. Não sei precisar há quanto tempo ela e a mãe aguardavam na fila, mas a média é de 4 horas de espera. Na verdade, não havia uma fila. Eram 14 cadeiras que organizavam o caos. Em cada cadeira era colocado um formulário amarelo, como os que minha mãe portava. Conforme o médico retirava um papel e chamava o paciente, outro formulário era colocado na cadeira. Um processo um tanto embolado.

Sabendo disso, um dos médicos do Icesp telefonou para a dermatologista do HC, com quem é casado, e pediu o favor para a esposa de atender minha mãe com urgência. Assim, a menina com vitiligo e o leproso permaneceram parados no mesmo lugar enquanto minha mãe entregava o papel amarelo diretamente nas mãos da dermatologista. Felizmente, o que minha mãe tinha era uma simples alergia à picada de mosquito.

"Eles perceberam que a gente furou fila", sussurrou minha mãe na saída, cheia de remorso.

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