Há 24 anos o Regimento de Cavalaria 9 de Julho usa seus cavalos para ajudar pacientes com necessidades especiais

Programa de equoterapia desenvolvido pelo Regimento de Cavalaria 9 de Julho, Polícia Militar de São Paulo
Foto: Major Luis Augusto Pacheco Ambar - Comando de Choque, PMSP
Programa de equoterapia desenvolvido pelo Regimento de Cavalaria 9 de Julho, Polícia Militar de São Paulo

É provável que você já tenha escutado alguém questionando a necessidade de policiais montados em cavalos em pleno século 21 numa megalópoles como São Paulo. Curiosamente, quando esses mesmos críticos viajam para outros países, admiram, respeitam e até tiram selfies com policiais e seus cavalos; o caso mais evidente acontece na cidade de Nova Iorque. Recentemente fui convidado para passar um dia Regimento da Cavalaria da Polícia Militar de São Paulo, para acompanhar o trabalho da nossa polícia montada e entender sua real importância na manutenção da segurança publica. Ao chegar no quartel me deparei com um fato tão surpreendente, que decidi mudar o foco da reportagem: a incrível iniciativa social da PM em ter criado, há 24 anos, o programa de equoterapia. 

Leia também: Crianças com câncer têm dia especial no Batalhão de Choque da PM

Este é um método terapêutico e educacional, que utiliza o cavalo nas áreas de saúde e educação buscando o desenvolvimento de pessoas com deficiências e/ou necessidades especiais.  Para operar o programa de equoterapia , a Cavalaria da PM de São Paulo usa voluntários civis e militares, e parte dos seus 205 cavalos, para atender gratuitamente a população mais carente, oferecendo este serviço para crianças e adultos, que possuam necessidades médicas na recuperação de acidentes e na melhora de condições como o autismo, síndrome de Down e paralisa cerebral.

Veja abaixo as fotos deste incrível trabalho:

Perguntei ao Major Luis Augusto Pacheco Ambar, do Comando do Policiamento de Choque, e que me acompanhou durante esta matéria, por que a tropa de elite de policiais montados da PM decidiu atuar na área de atendimento terapêutico. A resposta do Major foi simples e curta: “Uma das missões da Polícia Militar é estar próxima e servir a sua comunidade. Fazemos isso há 185 anos de várias formas, algumas mais visíveis outras nem tanto. A equoterapia é uma das inúmeras iniciativas que desenvolvemos para as camadas mais carentes da nossa sociedade.”

Leia também: Grafiteiros ilustram quartéis do Batalhão de Choque em evento cultural em SP

Durante a visita aproveitei para conhecer o Centro Veterinário do Regimento da Cavalaria, um verdadeiro hospital de primeiro mundo, apto a realizar diagnósticos sofisticados, conduzir operações de grande porte e realizar todos procedimentos pós-operatórios de recuperação. Acompanhe a entrevista que fizemos com o Capitão Syllas Jadach Oliveira Lima, coordenador voluntário do projeto de equoterapia e com o veterinário Tenente Alexandre Correa Borghesan .


ENTREVISTA -  Capitão Syllas, Coordenador Equoterapia

Capitão, muita gente não conhece esse belíssimo trabalho que é feito aqui no Regimento de Cavalatia da PM de São Paulo. Existe um motivo para que esta iniciativa não seja divulgada para que mais pacientes terem acesso? 
Gostariamos de fazer uma divulgação maior, mas como temos fila de espera para o atendimento, preferimos não fazer. Hoje atendemos cerca de 70 pessoas, o limite que nossa estrutura suporta. A equoterapia se transformou numa das principais atividades que o Regimento de Cavalaria executa para a sociedade, mas nossa função primária é o policiamento montado.

Quantos pacientes estão na fila de espera?
Atualmente a fila é de cerca de 90 pessoas e elas devem esperar de 1 a 4 anos, esse prazo depende vários fatores. Para que um novo paciente comece, outro tem que ter alta, e isso acontece, geralmente, um ano após o início do tratamento. Outro ponto é que damos preferência para casos mais graves, como os de crianças que estão sem movimentos e impedidas de fazer as tarefas diárias. Além disso, desenvolvemos um projeto muito bonito que acredito ser pioneiro em São Paulo: recebemos alunos que possuem dificuldades de aprendizado e socialização nas escolas. Os relatos de melhora nesses casos são bastante significativos e encorajadores, nos deixando muito satisfeitos!

Leia Também: 48 anos, avó e policial: um dia na rotina da mulher do Batalhão de Choque

É incrível ver os benefícios que o cavalo traz aos pacientes. Como isso acontece?
Realmente é muito gratificante presenciar e participar do que acontece aqui. Existem dois fatores para o sucesso da interação dos pacientes com nossos animais. O primeiro reside no fato do cavalo ser um animal tão inteligente e sensível, que possui uma percepção muito aguçada do que ocorre ao seu redor. O cavalo entende e retribui o carinho e amor que recebe criando um vinculo emocional e de confiança com o paciente, que age como um  estimulante terapêutico muito potente. O segundo fator diz respeito a parte física e motora. Os exercícios que conduzimos com os pacientes montados nos cavalos, transmitem estímulos capazes de ativar partes do cérebro, como equilíbrio, percepção do ambiente, concentração, etc... No caso de lesões físicas, a repetição do movimento ajuda a retomada algumas funções, estimula a circulação e o uso de músculos. 

Programa de equoterapia desenvolvido pelo Regimento de Cavalaria 9 de Julho, Polícia Militar de São Paulo
Foto: Major Luis Augusto Pacheco Ambar - Comando de Choque, PMSP
Programa de equoterapia desenvolvido pelo Regimento de Cavalaria 9 de Julho, Polícia Militar de São Paulo

Como é que uma força policial se organiza para prestar um atendimento tão eficaz?
Nossa equipe é formada principalmente por voluntários civis e militares apaixonados por cavalos, e que querem fazer o bem para a parcela mais carente da nossa população. Os civis são terapeutas e profissionais da educação que já se formaram ou que estão no ultimo ano da faculdade. Eles participam dos atendimentos que ocorrem todas segundas, terças e sextas (cada paciente tem sessões de 40 minutos) e de aulas práticas, palestras e leituras que são disponibilizadas aqui mesmo. Meu papel é de selecionar e acompanhar as equipes que vão cuidar de cada paciente, e assegurar que suas necessidades sejam atendidas da melhor forma possível.  

Como você classifica a importância dos cavalos na atividade de policiamento? 
Importantíssimo. Em cima do cavalo o policial possui uma presença ostensiva, de comando e controle muito maior do que se estivesse a pé. A altura em que o policial se encontra, lhe confere duas vantagens táticas muito importantes: a primeira permite o policial ter uma visão ampla e privilegiada do ambiente patrulhado e a segunda faz com que o policial se destaque na multidão e seja visto a longa distancia, dissuadindo potenciais criminosos e projetando tranquilidade e segurança para a população. Além disso, o cavalo permite ao policial uma locomoção muito rápida. Outro ponto positivo é o fato do cavalo ser um animal que a maioria das pessoas gostam, ele facilita a aproximação e interação da polícia com a população. Essas características transformam o cavalo num instrumento perfeito para policiamento preventivo e ostensivo em grandes centro urbanos.

Leia Também: Batalhão de Choque do Estado de São Paulo defende a democracia

Muita gente se preocupa se os cavalos da polícia recebem um tratamento adequado. 
Esse questionamento é compreensível, já que algumas modificações nas condições naturais de qualquer animal podem ter consequências negativas. Mas esse não é o caso dos nossos cavalos. O que acontece aqui é a mesma situação de uma hípica ou de um jóquei clube, por exemplo. Os animais possuem uma alimentação de ótima qualidade e totalmente controlada, assim como os cuidados físicos diários como as escovações do pelo que chegam a ser realizadas duas vezes por dia, a limpeza de casco e o tratamento bucal. Somos os primeiros interessados no bem estar dos nossos cavalos, pois nosso trabalho e, em inúmeras ocasiões nossas vidas, dependem deles estarem com sua saúde física e mental perfeitas. Os cavalos do nosso Regimento recebem todo cuidado, respeitando padrões rígidos estipulados por profissionais da área. 

Você pode dar exemplos?
Claro. Seguimos padrões de tempo máximo que o cavalo pode estar em serviço de patrulhamento, quantidade de intervalos de descanso, tempo máximo que o policial pode ficar montado no animal, intervalos de alimentação e hidratação. O tempo e tipo de treinamento desenvolvidos dentro do quartel também são controlados para evitar qualquer tipo de stress do animal. O comportamento calmo dos nossos cavalos, seu porte, pelagem e forma física indicam a qualidade do tratamento que recebem aqui nosso Regimento de Cavalaria.

Programa de equoterapia desenvolvido pelo Regimento de Cavalaria 9 de Julho, Polícia Militar de São Paulo
Foto: Major Luis Augusto Pacheco Ambar - Comando de Choque, PMSP
Programa de equoterapia desenvolvido pelo Regimento de Cavalaria 9 de Julho, Polícia Militar de São Paulo

Qual a maior causa das visitas dos cavalos aqui no seu hospital veterinário?  
Isso varia de acordo com a atividade que cada um faz. Os que estão em atividade de policiamento costumam sofrer com pequenos cortes e escoriações. Já os que participam de atividades atléticas e de treinamento, apresentam problemas de tendinites, luxações e alguns traumas que podem acontecer durante os exercícios. Recebemos também animais com problemas intestinais e cólicas, algumas vezes pela formação de cálculos criados pela ingestão de um corpo estranho, como um pedaço de cerca, ou uma pedra. Nesses casos eles precisam ser operados para retirá-las. 

Vocês tem estrutura para realizar esses procedimentos? 
Total. Nossa estrutura é muito boa, adequada e não deixa a dever a nenhum centro veterinário que conheço. Temos laboratório para vários tipos de exames, máquinas de endoscópio, raio-x digital, centro cirúrgico com cama hidráulica, focos de luz, aparelho de anestesia inalatória e ar comprimido. Temos também uma sala de indução e recuperação cirúrgica, totalmente acolchoada até a parede. Com essa estrutura fazemos qualquer tipo de cirurgia aqui.

Como seus cavalos são selecionados para servir aqui no Regimento de Cavalaria? 
Os animais são comprados através da Secretaria de Agricultura, seguindo a análise de alguns requisitos. O primeiro é a pelagem (alazã ou castanho), para facilitar a divisão dos esquadrões. A segunda é ter altura mínima de 1,62. A idade também é levada em conta, o animal deve ter no mínimo 3 anos, para já possuir uma estrutura capaz de ser treinada, e no máximo 7 anos, para não ter um tempo de trabalho muito reduzido. Na compra também é feita uma avaliação completa da saúde, dentes, andamento e de sua índole. Se ele é muito assustado já não serve para a cavalaria, por exemplo. 

Você falou sobre o tempo de trabalho. Com quantos anos o animal se aposenta? E por ser de grande porte, para onde ele vai?
Não existe uma idade exata para a aposentadoria, mas geralmente ela acontece aos 20 anos. Se o animal completar essa idade e estiver muito bem de saúde, o tempo de trabalho dele pode ser estendido. Outros podem acabar se aposentando antes, por desenvolver um comportamento inadequado para o trabalho (ser muito medroso ou assustado, por exemplo) ou por alguma doença. Na maioria das vezes eles são adotados pelos próprios policiais que tem um sítio ou uma fazenda. Eles enxergam o animal como um filho e fazem de tudo para leva-lo para casa. 

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.