Luiz Fux, presidente do STF, e o presidente da República, Jair Bolsonaro
Pablo Jacob / Agência O Globo
Luiz Fux, presidente do STF, e o presidente da República, Jair Bolsonaro

Uma semana após reunir-se com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux,  e ouvir pedidos de respeito à Constituição, o presidente Jair Bolsonaro voltou a acusar nesta segunda-feira, sem provas, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de participar de uma fraude nas eleições.

Em conversa com apoiadores no Palácio da Alvorada, Bolsonaro afirmou que "eleições não auditáveis" são uma "fraude".  O presidente defende a adoção do voto impresso. Bolsonaro fez uma relação com duas decisões do STF, que permitiram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sair da prisão e recuperar sua elegibilidade, com uma suposta irregularidade dentro do TSE.

"As mesmas pessoas que tiraram o Lula da cadeira e tornaram o Lula ilegível, vão contar os votos, dentro do TSE, de forma secreta. As mesmas pessoas", disse, acrescentando depois: "Agora, eleições não auditáveis, isso não é eleição, isso é fraude."

Após chamar o presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, de "imbecil" e "idiota", Bolsonaro disse que não ofendeu o ministro e que apenas mostrou a "realidade". O presidente criticou reuniões feitas por Barroso com deputados e atribuiu a isso o fato de partidos trocarem seus representantes na comissão especial que analisa o voto impresso, fazendo com que a maioria do colegiado fique contrário à proposta.

"Aí o pessoal diz que eu estou ofendendo o ministro Barroso. Não estou ofendendo, estou mostrando a realidade. Eu não posso, de acordo com o artigo 85 (da Constituição), interferir no trabalho do Legislativo. Posso conversar com parlamentar, sem problema nenhum, eu não posso interferir, que é uma coisa mais grave um pouquinho. O Barroso foi para dentro do Parlamento fazer reunião com parlamentares e, acabando a reunião, o que vários líderes partidários fizeram? Trocaram os deputados da comissão especial, deputados, para votar contra o parecer do Filipe Barros, o relator, para não ter o voto impresso."

Moderação adiada

Antes da internação, Bolsonaro estava ensaiando, mais uma vez, recorrer à tática de tentar apresentar uma versão mais moderada de si mesmo e disposta ao diálogo. Aliados e auxiliares vinham aconselhando que o presidente buscasse um "cessar-fogo" para atravessar as turbulências da CPI da Covid e, de olho na reeleição, evitar perder apoio entre eleitores mais moderados. Na época, integrantes do grupo próximo ao presidente admitiam, reservadamente, que era impossível prever quanto tempo duraria a trégua.

O plano havia começado a ser colocado em prática no encontro com Fux na semana passada, Oartiu de Bolsonaro a ideia da realização de um encontro entre os chefes dos Três Poderes. O presidente do STF acatou a sugestão e convidou os presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e da Câmara, Arthur Lira (PP-PI). A reunião foi marcada para quarta-feira, 14, mas foi cancelada porque Bolsonaro foi internado no Hospital das Forças Armadas. No mesmo dia, o presidente foi transferido para o Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, de onde teve alta no domingo. Um novo encontro só será marcado em agosto, quando Fux retornará de um período de férias.

A estratégia de acenar com uma mudança de postura começou a ganhar forma após reações duras às declarações de Bolsonaro que afirmou que sem voto auditável não haverá eleições em 2022. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luís Roberto Barroso, disse que os ataques são “lamentáveis” e “levianos”. Por sua vez, o presidente do Senado disse que quem pretender retrocesso democrático será considerado inimigo da nação. Aliado de Bolsonaro, o presidente da Câmara, em entrevista à CNN, disse que “não tem compromisso algum com nenhum tipo de ruptura política, institucional democrática.”

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Aliados alertaram Bolsonaro que suas declarações mais beligerantes agradam uma parcela da base eleitoral consolidada. Por outro lado, tendem a afastar eleitores que votaram nele em 2018, mas que demonstram cansaço e reprovação à truculência presidencial. A perda dessa fatia do eleitorado pode ser crucial. O presidente, segundo relatos ao GLOBO, ouviu ainda que seu comportamento passou a se tornar munição para a oposição.

A mais recente pesquisa Datafolha apontou que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com 46% das intenções de voto para a eleição presidencial de 2022 contra 25% de Bolsonaro. O levantamento revelou ainda que o presidente não vence nenhum dos principais adversários com vantagem. Pela primeira vez, a sondagem também revelou que a maioria dos brasileiros (54% ) é a favor da abertura de um processo de impeachment, ante 42% que se mostram contrários.

Auxiliares do presidente também defendem que ele passe a dar mais declarações à imprensa e resista a cair no que considera ser “provocação de jornalistas.” Ao deixar o hospital ontem, o presidente também falou com a imprensa por mais de meia hora.

Após visitar Fux, ele já havia conversando com repórteres por 30 minutos. Naquele dia, minimizou a crise política, dizendo que os poderes estão " perfeitamente alinhados". Em determinado momento, convidou repórteres a orar um “Pai Nosso” quando se irritou diante de uma pergunta.

"Eu não vim aqui para brigar com ninguém. Eu acabei de falar para vocês. Vai acabar a entrevista. Depois diz que eu sou grosso. Vai acabar a entrevista. Vamos rezar o pai nosso aqui, vamos? Vamos rezar? Vamos lá, vamos ajudar, vamos rezar o Pai Nosso", disse o presidente.

O presidente, depois, encerrou a entrevista dizendo que é “Jairzinho Paz amor”, em referência a uma expressão criada por Lula para referir-se a si próprio. No mesmo dia de manhã, em conversa com apoiadores no Palácio da Alvorada, Bolsonaro havia dito justamente o contrário:

" Não sou Jairzinho paz e amor. "

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