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Sigla que defendeu o golpe militar e acabou extinta um ano depois busca retorno por duas vias possíveis, ambas com ideologia de direita: defesa dos valores cristãos e liberalismo econômico

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Marcus Alves (UDN), direita, e Marco Vincenzo (Nova UDN), esquerda, são os líderes das duas iniciativas que pretendem refundar a sigla de 1945

Em abril de 2020, completa 75 anos da criação de um dos primeiros partidos de direita conservadora no Brasil, a União Democrática Nacional (UDN). Fundada em 1945, defendendo o moralismo e o anti-populismo, na época figurado por Getúlio Vargas, o partido foi dissolvido 20 anos após sua criação, em 1965, pela ditadura militar, a qual a UDN havia auxiliado a instaurar. Após 54 anos adormecida, em 2019 o partido aparece, de duas vias diferentes, entre os 76 que estão em processo de formação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

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Se o objetivo da UDN em sua criação era fazer oposição ao varguismo, hoje o partido se reinventaria nos moldes da direita. Mais do que uma nova frente ideológica, a sigla pode agregar os mais conservadores da população brasileira, como explica o historiador Saulo Goulart.

“Qualquer ressurgimento de algo que faça referência a UDN é muito mais o ressurgimento dos tradicionalistas, do que um vínculo com a UDN antiga”. O historiador interpreta que o tradicionalismo é uma característica que permaneceu na sociedade brasileira e se demonstra principalmente quando valores privados impactam o ambiente público republicano.

A antiga UDN defendeu privatização de empresas, flexibilização trabalhista, mais abertura comercial e outras pautas de liberalismo econômico. No entanto, o partido também era conservador nos costumes, defendendo pautas morais na política. 

“Os integrantes da UDN, geralmente, eram banqueiros, industriais, homens com cursos superiores. Representavam o setor mais endinheirado da burguesia urbana no Brasil”, explica o cientista político Pedro Fassoni Arruda. Seu principal líder foi o proprietário de jornais Carlos Lacerda. 

Também havia no partido muitos militares de oposição a Vargas. Em 1964, com o auxílio das Forças Armadas, o partido, pelas mãos de Lacerda, articulou a derrubada de seu opositor, João Goulart, participando do golpe que levaria ao início da ditadura militar.“Embora em sua origem o partido seja uma oposição democrática à ditadura de Vargas, em 1964 a UDN acaba aderindo às ideias golpistas”, explica o cientista político.

Retorno ao passado ou uma nova UDN?

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Reprodução Redes Sociais
A UDN de Marcus Alves


Existem duas tentativas de volta da UDN registradas no TSE. O fundador da primeira diz buscar trazer de volta a sigla com os mesmos valores defendidos há 75 anos e que só acabaram após a ditadura militar. Já o da segunda - batizada de Nova UDN - diz pretender o mesmo, mas trazendo ainda valores cristãos e de defesa da família para o debate político.

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A primeira tem como líder Marcus Alves que já foi presidente do extinto Partido Republicano Progressista (PRP) no estado do Espírito Santo. Ele, contudo, afirma que suas ideias políticas não convergiam com as ideias do PRP que se dissolveu após as eleições de 2018 mesmo tendo eleito o senador Jorge Kajuru por Goiás.

Sua UDN tem como valores ser um partido de direita , conservador nos costumes, liberal na economia e a favor do fortalecimento das instituições, como o Ministério Público. Sua principal característica, segundo o líder do partido, é ser intransigente com a corrupção. O fundador também destaca outro ideal, como se fosse um slogan de sua UDN: “União Democrática Nacional para combater o comunismo”.

Alves pensa que reestruturar a UDN não se trata apenas de resgatar o partido, mas também uma parte da história do Brasil. “A história da UDN é muito bonita de ser recontada, quando a gente fala que a UDN está voltando, as pessoas até se emocionam”.

Já a ideia registrada pelo procurador Marco Vincenzo preza pelos “valores da família, os valores cristãos, pelo liberalismo econômico”. A Nova UDN afirma ser absolutamente contra o aborto, a liberação das drogas e o petismo.“Eu acredito que faríamos frente ao PT, como a UDN fez frente ao Getúlio Vargas”, realça Vicenzo. 

“A busca de um respaldo histórico para uma determinada ação política acontece nessas épocas de maior tensão”, explica o historiador Saulo Goulart. Ele destaca que pessoas que apoiam pautas morais ou religiosas buscam na história do Brasil uma justificativa para suas posições políticas – algo que elas encontram na UDN.

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Marco Vicenzo acredita que não houve a criação de um partido originariamente de direita no Brasil após a redemocratização. Na sua visão, recriar a UDN seria a via adequada para institucionalizar a direita. Ele explica que sempre foi entusiasta da UDN e de Carlos Lacerda , apesar de não ter nenhum vínculo familiar com o partido.

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Wiki Commons
Carlos Lacerda foi governador do estado de Guanabara pela UDN. Grande proprietário de jornais, foi o principal nome do partido


O cientista político Pedro Fassoni Arruda enxerga uma onda de conservadorismo que vem se fortalecendo internacionalmente nos últimos anos. Ele cita como razões para isso o aumento do desemprego, o desmonte do estado de bem-estar social e o desmantelamento da rede de proteção de seguridade social, criando um ambiente propício para ressentimentos e xenofobia.

“Isso acaba refletindo num recuo do campo democrático, popular e progressista. E em um avanço nos setores mais conservadores”, realça, afirmando que dentro dessa grande tendência, surge a tentativa de resgatar a velha UDN.

Mas em relação à recriação da UDN, ele também menciona outra fator fundamental: uma crise no principal partido de direita no Brasil, o PSDB. Até a última eleição, o candidato do partido sempre conseguia ir para o segundo turno. Mas em 2018, além do tucano Geraldo Alckmin ter poucos votos - 4,76% dos votos válidos -, o PSDB perdeu muitas cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado. O cientista político enxerga a reestruturação da UDN como uma tentativa de repaginar a direita. “Uma direita talvez mais liberal do que democrática”, opina.

Novo partido de Bolsonaro atrapalha os planos

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Marco Vicenzo, líder da Nova UDN


O historiador Saulo Goulart acredita que a mesma onda que tenta reestruturar a sigla também está ligada à que elegeu Bolsonaro . Ele percebe semelhanças entre os ideais das novas UDN às que são defendidas pelo presidente. Marcus Alves discorda e diz que as ideias são muito diferentes.

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Marco Vicenzo, no entanto, é grande apoiador de Bolsonaro e chegou a oferecer sua legenda em criação para o presidente, afirmando que com sua sigla o político teria mais chances de conseguir formar o partido a tempo para as eleições do próximo ano. 

O líder da Nova UDN se ressente da escolha de Bolsonaro pela Aliança Pelo Brasil , partido em criação do presidente, já que com o apoio do político, sua legenda teria mais projeção. Contudo, afirma ser importante a criação de mais partidos de direita.

Para os dois fundadores, no entanto a Aliança Pelo Brasil não irá atrapalhar a formulação de seus próprios partidos – que ambos acreditam que estarão prontos a tempo de concorrer às eleições municipais de 2020.

Na “competição” no TSE para a criação do partido, a UDN de Marcus Alves está na frente. O fundador diz ter mais de 500 mil assinaturas em nove estados, quantidade necessária para que a legenda siga para a próxima fase de fundação de um partido – o registro do estatuto. No entanto, no site do Tribunal, aparecem pouco mais que seis mil assinaturas. Alves explica que isso ocorre por causa da burocracia para registros no cartório.

Já a Nova UDN de Vicenzo ainda está em fase de coleta de assinaturas. Ele relata que já possui cerca de três mil, mas no site do TSE não há registros delas. Há ainda uma aposta jurídica, já que foi enviada uma tese no Tribunal Superior Eleitoral de que, como o partido foi dissolvido pelo Ato Institucional nº 2 – que instituiu o bipartidarismo –, a UDN teria o direito de ser recriada (sem necessitar seguir o protocolo). 

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Os líderes das duas UDN têm se desentendido. Ambos se acusam de não resgatar a verdadeira história do partido. Vincenzo, inclusive, demonstra uma vontade de competitividade."Ele [Marcus Alves] está fazendo o trabalho legítimo dele para recolher as assinaturas. Então que vença o melhor né?".