EUA
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Pacientes que não apresentam sintomas são os novos "vilões" da pandemia

Pelo menos 25% das pessoas infectadas pelo novo coronavírus nos Estados Unidos são assintomáticas. A estimativa é de Robert Redfield, diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças americano (CDC). O especialista alertou na última terça-feira para o risco que esse número pode apresentar para a estratégia de contenção da Covid-19 no país.

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Por isso, já estão no radar novas orientações de proteção antes restritas a pacientes e profissionais da saúde, com a universalização do uso de máscaras. Os EUA se tornaram o epicentro global da Covid-19 .

O papel dos assintomáticos é objeto de estudos de diversas pesquisas ao redor do mundo e o tema é fundamental para a compreensão do comportamento da pandemia do Sars-CoV-2 . Redfield defende que os números ajudam a entender como o vírus continua a se espalhar pelo território americano. Por isso, o órgão já estuda expandir a recomendação do uso de equipamentos de proteção, como máscaras, para a população em geral.

Até o momento, a orientação é que os materiais sejam utilizados apenas por quem foi diagnosticado com a Covid-19, além de profissionais de saúde . Essa situação deve mudar, no entanto. A ocorrência de infecções antes do aparecimento de sintomas tem instigado especialistas a ampliar a recomendação do uso de máscaras para toda a população, contrariando recomendações da Organização Mundial da Saúde ( OMS ) e do próprio CDC, que agora avalia a proposta.

Na prática, pesquisadores não sabem precisar quantas pessoas contraíram a Covid-19 mas estão assintomáticas . Também não conseguem definir se alguns deles estão na fase pré-sintomática.

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China contabiliza assintomáticos

Fora dos EUA, pacientes sem sintomas também estão no centro das atenções. Na China , que passou a incluir os casos assintomáticos nas estatísticas nesta quarta-feira, um homem identificado como “ Paciente Z ” por pesquisadores chineses e morador da cidade de Cantão contraiu o novo coronavírus a partir de um contato próximo de Wuhan, berço da pandemia, em fevereiro. Ele não demonstrou qualquer sintoma, no entanto.  

Por volta do sétimo dia do período de incubação do Sars-CoV-2, o vírus já havia tomado conta de suas narinas e da garganta, exatamente como no organismo daqueles que apresentaram sintomas. Embora o Paciente Z apresentasse boa saúde, ele estava doente exatamente como os outros infectados.  

Após o avanço de pesquisas, cientistas  concluíram que casos como esse merecem atenção. No cruzeiro Diamond Princess, que registrou mais de 700 contágios a bordo e ficou em quarentena na cidade de Yokohama, no Japão, durante duas semanas, 18% dos que adoeceram não desenvolveram sintomas. Pesquisadores de Hong Kong estimam que entre 20% e 40% das transmissões na China ocorreram antes que os transmissores sentissem sintomas, o que dificulta o trabalho de contenção da doença.

A dimensão dos casos assintomáticos pode explicar o motivo pelo qual o Sars-CoV-2 é o primeiro vírus fora da cepa influenza , causadora dos diversos tipos de gripe, a causar uma pandemia. Especialistas calculam que o novo coronavírus  também é disseminado por meio de gotículas grandes e pequenas, algumas menores do que 5 micrômetros (chamadas de aerossóis). A contaminação pode ocorrer não apenas através da tosse como também da expiração.

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Estes mesmos cientistas ponderam, no entanto, que a concentração do vírus nas gotículas é pequena.  

"Se você apenas cruzar com uma pessoa infectada (na rua), a chance de uma transmissão ocorrer é muito, muito pequena", explica Benjamin Cowling, epidemiologista da Universidade de Hong Kong.

Disseminação mais rápida do vírus

Os riscos aumentam em interações mais diretas, como conversas face-a-face ou em ambientes fechados e compartilhados por um longo período. Cowling, no entanto, vê estranheza nas recomendações da Organização Mundial da Saúde.  

"A OMS tem dito que a transmissão por aerossol não está acontecendo, o que causa perplexidade. Acredito que ela está equivocada", disse o epidemiologista.

Diversos estudos têm demonstrado que pacientes da Covid-19 disseminam mais o vírus nos três primeiros dias após o surgimento de sintomas. Esse tipo de transmissão pré-sintomática não ocorreu nos outros coronavírus que causaram emergências sanitárias, como a Síndrome Aguda Respiratória Grave (Sars), na China, e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers).

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"Esse é o motivo pelo qual tivemos muita sorte com a Sars, que não era transmitida até que pessoas demonstrassem sintomas. Isso tornou a detecção muito mais fácil, bem como a contenção a partir de medidas agressivas de saúde pública", explica Carl Bergstrom, especialista no surgimento de doenças infecciosas na Universidade de Washington ( EUA ).  

Especialistas também têm debatido sobre a definição de um paciente assintomático. Há muitas pessoas que não apresentam qualquer sintoma, mas muitos que se encontram em quadros leves da doença confundem reflexos da doença com sinais que já estão acostumados, como a tosse no caso de fumantes ou de alérgicos. 

Apesar da divergência quanto à definição, identificar assintomáticos se mostra um passo importante para compreender a verdadeira dimensão da pandemia. A missão da OMS enviada à China concluiu que a maioria das pessoas que contraíram a Covid-19 apresentaram sintomas relevantes, mas, nas primeiras semanas do surto da doença, os critérios adotados pelo governo deixaram de lado casos leves ou assintomáticos. Por isso, a escala da gravidade foi subestimada.

Por isso, temendo uma segunda onda do novo coronavírus no país a partir de casos importados, a China passou a divulgar nesta quarta-feira o número de casos assintomáticos identificados no país. A ideia é evitar que a Covid-19 volte a se alastrar pelo governo chinês no momento em que a doença está controlada na maior parte das províncias.

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Só hoje, os chineses reportaram 1.367 casos assintomáticos, mas o governo já alertou que o número deve flutuar ao longo dos dias.  

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