Maria Luiza Maia usando máscara em frente a estátua do Confúcio na Universidade de Macau arrow-options
Arquivo pessoal
Maria Luiza teve poucas aulas presenciais na universidade em Macau, na China

Com aulas canceladas ou acontecendo de forma virtual, estudantes brasileiros vivendo fora do País convivem com rotina de incerteza. Dúvidas sobre prazos, bolsas e formatura afligem aqueles que decidiram ter uma experiência acadêmica internacional.

“Incerteza define tudo”, resume a arquiteta de 25 anos Gabriela Procópio, que faz mestrado na Europa há quase dois anos. Atualmente vivendo na Itália, Gabriela já está em isolamento completo há quase um mês.

Gabriela ganhou uma bolsa para fazer o mestrado e agora, não sabe se, caso o semestre letivo seja prolongado, o auxílio financeiro também será. Outro fator que põe em risco sua permanência na Europa é a validade do seu visto , que também precisaria ser estendida. 

Seu caso ganha um complicador que é o fato de o seu programa de mestrado ter permitido que ela passasse cada semestre do curso em um país diferente .

Gabriela passou pela França, Portugal, Espanha e Itália, e cada uma das universidades onde esteve precisa emitir um parecer para que ela possa se formar, mas os países enfrentam estágios diferentes da pandemia , o que pode atrapalhar a conclusão do curso.

“Está tudo totalmente incerto e agora com esse vírus, com todo esse estrago eu não tenho a menor ideia”, diz, explicando que já teve que adiar planos como o de procurar estágio em outras cidades italianas. “Se alguém souber me fala, pelo amor de Deus”, brinca.

Como está no último semestre do curso e precisa apenas escrever seu trabalho de conclusão, a mineira não foi tão afetada pelo cancelamento das aulas, que acontecem exclusivamente de forma on-line, mas relata dificuldades em estudar exclusivamente de casa.

“Uma coisa difícil para mim está sendo manter e organizar uma rotina de estudos. Agora que o vírus chegou no Brasil é mais difícil ainda me concentrar, porque eu fico preocupada com a minha família. Você dorme pensando nisso, acorda pensando nisso”, relata.

Ela também não conseguiu encontrar seu orientador presencialmente nenhuma vez neste semestre e luta para fazer a dissertação. “Eu estou tentando produzir do jeito que eu posso, escrever de acordo com os livros que eu tenho aqui e tentar achar fontes on-line, porque as bibliotecas estão fechadas”.

Experiência prejudicada

A dentista Maria Luiza Maia, de 40 anos, cursa sua segunda graduação. Estudante de letras com habilitação em português e chinês, ela resolveu fazer um intercâmbio em Macau, território autônomo da China. 

Maria Luiza Maia em frente a cassino em Macau arrow-options
Arquivo pessoal
Maria Luiza Maia teve pouco tempo para conhecer os pontos turísticos de Macau, famosa pelos cassinos

Maria Luiza chegou em Macau no dia 3 de janeiro deste ano e alguns dias depois começou a estudar.

Ela teve duas semanas de aula e logo em seguida uma pausa para a comemoração do ano novo chinês. Já nessa época, entre o final de janeiro e o começo de fevereiro, os casos de covid-19 se multiplicavam na China, especialmente na cidade de Wuhan, que fica no centro do país.

As aulas de Maria Luiza, portanto, nunca mais voltaram a acontecer presencialmente.

Segundo a pernambucana, o cronograma está apenas uma semana atrasado, mas, como Gabriela, também relata alguma dificuldade para estudar à distância.

“Os chineses são extremamente disciplinados. Meus colegas cumprem com todas as tarefas e aulas muito pontualmente, e eu estou aqui ainda aos trancos e barrancos”, conta. “O isolamento afetou a minha concentração, porque eu ficava sempre dispersa, afetou minha produtividade. Aqui a carga de exercícios é muito alta”, completa.

Maria Luiza foi para Macau com o objetivo de ficar seis meses, mas vem tentando prorrogar o intercâmbio para ter a chance de uma experiência completa. “Se eu voltar agora eu voltarei sem ter tido a experiência de intercâmbio. Todos os intercambistas estão tendo uma baita de uma experiência de vida, mas de intercâmbio, infelizmente, não”.

O plano de ficar mais, porém, é outra coisa que cai na incerteza. Ainda que ela venha tentando há meses prolongar seu tempo na China, a USP, onde estuda no Brasil, ainda não definiu um posicionamento sobre o que fará em relações aos intercambistas e se vai autorizar prorrogação de estadias. 

Presa no meio do caminho

Rafaela Dias, de 31 anos, mora em Lyon, no sudeste da França, há quase três anos, onde faz dois mestrados simultâneos, em Relações Internacionais e Direito Internacional, mas passou os últimos seis meses vivendo em Bruxelas em função de um estágio na ONU.

Quando foi decretado o isolamento obrigatório , as fronteiras dos países foram fechadas e Rafaela teve que sair correndo da Bélgica para Paris, pois onde estava não tinha cobertura do seguro saúde. Agora ela vive momentos de incerteza na capital francesa, entre as duas antigas casas.

Rafaela Dias com a echarpe enrolada no rosto na rua em Paris arrow-options
Arquivo pessoal
A echarpe agora cumpre duas funções: proteger do frio e do vírus

“Deixei quase tudo que era meu na Bélgica, pois não podia viajar com as malas grandes. Peguei um trem de última hora, acho que o último trem ainda por cima. Também não me despedi dos colegas do trabalho, nem pude devolver o computador e o badge [crachá para entrar no prédio do trabalho]”, relata. “Agora estou confinada em Paris até não sei quando”.

Trabalhando na ONU, Rafaela contou que recebia alertas e notificações sobre a gravidade da situação desde meados de fevereiro. “No começo eu fiquei muito frustrada porque a maioria das pessoas não estavam levando a sério a situação, achavam que era bobagem, e eu já tinha uma noção da seriedade”, explica. Mas mesmo assim foi pega de surpresa no momento de voltar ao primeiro país onde morou. 

Rafaela queria se mudar para a Espanha para aprender o idioma depois de terminar o mestrado, o que aconteceria no meio deste ano, mas não sabe mais quando poderá dar sequência ao plano, uma vez que acredita que os prazos na faculdade serão estendidos. 

Volta para o Brasil

Mesmo distante da família, Gabriela, Maria Luiza e Rafaella sequer chegaram a pensar em voltar para o Brasil. As três relatam que tiveram medo de se deslocar e trazer o vírus para o país natal, que ainda não tinha casos confirmados quando a situação começou a piorar onde vivem.

Diferente das quatro, alguns estudantes brasileiros vivendo fora não tiveram escolha e  voltaram para o País por questões financeiras e psicológicas. O iG conversou com algumas dessas pessoas e contou suas histórias. Confira!

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