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Matemática americana integrava equipe que criou programa de computador responsável por traçar a trajetória que trouxe astronautas de volta da Lua

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Reprodução/Wikipedia
Northcutt foi a única mulher a integrar o grupo que criou a rota espacial até a lua

Normalmente prolixa na descrição de suas missões e objetivos, a Nasa foi incomumente simples e direta na Apollo 11: “Realizar um pouso lunar tripulado e voltar”, afirmava no material distribuído à imprensa do mundo em recém-completados 50 anos atrás.

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No dia 20 de julho de 1969, Neil Armstrong, no comando manual do módulo “Eagle”, cumpriu a primeira parte. Já para a segunda, a tripulação, novamente reunida a bordo do módulo de comando “Colúmbia” dois dias depois, contou com a direção de um programa de computador que teve entre seus criadores Frances “Poppy” Northcutt, única mulher trabalhando como engenheira no controle da missão no Centro Espacial Johnson, em Houston, Texas, na época.

Formada em matemática pela Universidade do Texas em 1965, Northcutt ingressou no programa espacial como uma “computadora” humana da empresa americana TRW, uma das muitas contratadas pela Nasa para o projeto Apollo .

Seu talento, no entanto, logo a fez se sobressair, e pouco mais de um ano depois ela foi promovida a engenheira, integrando a equipe da TRW responsável por desenvolver o programa que realizaria a manobra para trazer os astronautas de volta da Lua , conhecida como “injeção transterrestre”, na qual a nave entra em trajetória livre rumo à Terra, isto é, sem uso de propulsão no caminho, “puxada” apenas pela gravidade de nosso planeta.

Foi neste papel que Northcutt participou do controle das missões Apollo 8, 10, 11, 12 e 13 — a Apollo 9 permaneceu na órbita terrestre, testando os sistemas de separação e acoplagem dos módulos de comando e lunar.

"Em todas missões que participei, meu trabalho foi basicamente o mesmo: eu era a especialista de volta à Terra , o que significa que me especializei em calcular as trajetórias para a manobra que coloca a nave em retorno livre da Lua", disse Northcutt em entrevista ao Globo desde Houston, onde hoje, metamorfoseada em advogada, é ativista e defensora dos direitos das mulheres e da igualdade de gênero.

Lotada em uma sala anexa ao enorme salão semicircular onde ficavam a direção de voo e os principais sistemas de controle da missão no Centro Espacial Johnson , Northcutt se revezava com um colega em prontidão caso precisassem de ajuda com seu programa ou realizar ajustes na trajetória em uma emergência, atuando especialmente quando as naves entravam ou partiam da órbita lunar .

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Ela lembra que os momentos mais tensos foram durante a Apollo 8, a primeira a ir até a Lua e primeiro “teste de fogo” de seu programa, e a malfadada Apollo 13, em que uma explosão no módulo de serviço da nave transformou uma missão de exploração em uma de resgate. Em ambos, porém, sua programação cumpriu a função esperada.

"Era um programa bem desenhado e especializado que trouxe de volta em segurança à Terra todos os astronautas que foram até a órbita da Lua", destaca, modesta.

Mas mesmo em uma sala separada da principal, a presença de Northcutt – uma bela e loura jovem de 20 e poucos anos então - no controle das missões do programa Apollo logo chamou a atenção da mídia, e de seus colegas.

"Eu definitivamente era uma singularidade, uma exceção. Sentia como se as pessoas estivessem me observando, e elas estavam", conta, ainda com um riso nervoso e constrangido, em referência à sua descoberta, por acaso, de que uma câmera instalada na sala onde estava acompanhava seus movimentos, com alguns colegas acessando o canal interno que transmitia as imagens apenas para apreciar sua beleza.

Apesar disso, Northcutt afirma que em nenhum momento se sentiu assediada por ser mulher para além do que era comum na época, ou ainda hoje.

"Mas experimentei o mesmo tipo de discriminação que qualquer mulher sofria em geral nos ambientes de trabalho naquela época, na forma de diferenças salariais, ser preterida em promoções e coisas desta natureza", relata, lamentando serem problemas que persistem, e até são piores, hoje.

"A questão salarial não é tão ruim quanto na época, mas muitas mulheres hoje enfrentam um tratamento pior do que tive que aguentar então, assediadas, perseguidas na internet, tendo suas fotos manipuladas. Estamos vendo muitas coisas doentias hoje nas mídias sociais", ressaltou.

Consciente do impacto de sua atuação no programa Apollo, Northcutt passou a militar no movimento feminista e pelos direitos das mulheres já nos anos 1970. Atividade à qual se dedica integralmente e considera ainda mais fundamental hoje.

"Estamos enfrentando novos desafios com o assédio nas redes sociais e a eleição de governos conservadores que ameaçam trazer retrocessos nos direitos das mulheres. Para combater isso precisamos que as mulheres tenham voz ativa dentro e fora das redes sociais, com iniciativas como o “MeToo” e participação política, se candidatando a cargos de governo", afirmou.

Assim, Northcutt é uma feroz crítica do presidente americano Donald Trump, a quem acusa de legitimar uma cultura de assédio e agressão às mulheres com suas atitudes e palavras.

"Vejo os efeitos que nosso presidente está tendo em nossa cultura. Ele já foi denunciado por mais de uma dúzia de mulheres por agressão e assédio sexual e desdenha destas acusações, muitas delas que considero bem críveis. Acho que esta atitude encoraja as pessoas a pensarem que não tem importância se as mulheres são assediadas ou maltratadas e me preocupa pensar que tipo de cultura isso vai deixar para trás. O presidente de um país, qualquer país, afeta e legitima atitudes. Ele é uma ilustração da norma cultural, e o que temos hoje na Casa Branca está destruindo e desdenhando a norma do respeito às mulheres. Ele é muito cruel e ofensivo com relação às mulheres, e principalmente às mulheres que se opõem e criticam estas suas atitudes. É muito angustiante", lamentou.

Diante disso, nem o projeto de Trump de levar a primeira mulher à Lua em 2024, como parte do programa Ártemis — irmã gêmea de Apollo na mitologia grega —, anima Northcutt.

"Adoraria nos ver retornando à Lua, realizando missões avançadas para explorar completamente o lugar e depois seguir para Marte. Mas creio que o prazo de 2024 é irreal. Se tivéssemos um grande aporte de dinheiro ao programa e um compromisso clara e consistente com este objetivo ele até pode ser alcançável, mas não vejo nosso atual Congresso fazendo isso. Uma meta mais realista seria ir numa cooperação internacional, e com um cronograma mais alongado", finaliza.

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Inspiração e modelo para cientista brasileira

A presença de Northcutt no controle das missões Apollo também serviu de inspiração e modelo para meninas ao redor do mundo, entre elas a brasileira Rosaly Lopes. Hoje pesquisadora do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa (JPL), Rosaly decidiu seguir carreira na ciência depois de ver fotos de Northcutt lá.

"E vi a foto pela primeira vez quando tinha 13 anos, em reportagens da época dizendo que ela era a única mulher a trabalhar no controle da missão da Apollo. Isso me inspirou muito porque já queria ser astrônoma e trabalhar para a Nasa, mas naquele tempo só víamos homens fazendo isso. Então ver ela lá foi muito inspirador para mim", lembra Rosaly.

Embora trabalhe no JPL desde 1989, Rosaly nunca tinha se encontrado ou falado com Northcutt. Só recentemente a história chegou aos ouvidos da americana, por meio de um contato do consulado do Brasil em Houston, e, na semana passada, as duas finalmente se conheceram pessoalmente, com Rosaly levando Northcutt para um tour pelo JPL, num encontro que resumiu em uma palavra: "Maravilhoso!".