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Amostras do solo e da crosta revolucionaram as teorias sobre a formação do satélite; alguns dos exemplares seguem guardados em ‘cofre’ da Nasa

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Reprodução/Nasa
Astronautas trouxeram exemplares do solo rochoso da lua na viagem de volta a Terra

Há 50 anos, os astronautas americanos Neil Armstrong e Edwin “Buzz” Aldrin pousavam na Lua, num dos maiores feitos tecnológicos da História. Logo depois de pisar pela primeira vez no satélite e proferir a célebre frase do “pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a Humanidade”, Armstrong tinha uma tarefa urgente: recolher uma pequena amostra do solo junto ao local do pouso, garantia de que não voltariam de “mãos vazias” se tivessem que partir de imediato no caso de uma emergência.

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A viagem histórica da Apollo 11, no entanto, foi um sucesso, com Armstrong, Aldrin e o colega Michael Collins, que ficou esperando por eles na nave de volta na órbita da Lua, retornando em segurança à Terra. No “bagageiro” do módulo de comando Colúmbia, traziam um tesouro científico inestimável: 21,5 quilos de pedras e poeira da lua , que viriam a ajudar a resolver o mistério da formação do único satélite natural de nosso planeta, e ainda hoje trazem revelações aos cientistas sobre os primórdios do Sistema Solar e da Terra.

"Até então, tínhamos três hipóteses principais para a origem da Lua: captura, coformação ou um grande choque", conta Alexandre Cherman, diretor de astronomia do Planetário do Rio. "As análises das amostras da Lua trazidas pelas missões Apollo , no entanto, revelaram que elas tinham uma composição química, uma assinatura nuclear de seus elementos, muito parecidas com as das rochas da crosta oceânica da Terra. Isso reforçou a hipótese do grande choque, já que se a Lua fosse resultado de um processo de captura, ela deveria ter uma composição bem diferente da Terra , e se tivesse se formado junto com nosso planeta, teria que ter composição parecida em várias camadas, e não só com a crosta".

Assim, hoje a hipótese mais aceita pelos cientistas diz que entre 4,6 bilhões e 4,5 bilhões de anos atrás, quando o Sistema Solar ainda começava a se formar, um protoplaneta com tamanho aproximado de Marte, apelidado Theia, se chocou com outro protoplaneta que viria ser a Terra. A força da colisão lançou ao espaço fragmentos de ambos objetos. Parte caiu de volta na Terra, mas outra parte ficou em órbita, lentamente se juntando e solidificando para formar a Lua.

Mas as revelações das rochas da Lua não ficaram por aí. Ao todo, os 12 astronautas que estiveram na superfície do satélite de 1969 a 1972, nos três anos e meio do programa Apollo, trouxeram para a Terra cerca de 382 quilos de pedras e outras amostras da crosta e solo lunares. E agora, 50 anos depois, cientistas aguardam ansiosos a oportunidade de estudar fragmentos intocados desde então.

Seladas a vácuo ainda na Lua ou congeladas logo na chegada à Terra, estas amostras aguardavam o desenvolvimento de tecnologias para análises mais detalhadas e precisas do que eram possíveis na época, momento que a Nasa decidiu ter chegado no início deste ano ao escolher nove equipes de alguns dos principais institutos de pesquisas espaciais e planetárias dos EUA para o trabalho.

"As amostras trazidas (da Lua) foram um investimento no futuro", resume Lori Glaze, diretora interina da Divisão de Ciências Planetárias da Nasa. "Estas amostras foram deliberadamente guardadas para que pudéssemos tirar vantagem da tecnologia mais avançada e sofisticada de hoje para responder perguntas que nem sabíamos que precisávamos fazer".

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Entre as três amostras intactas recém-liberadas pela Nasa, o principal alvo dos cientistas é um tubo de coleta inserido no solo lunar por Harrison Schmitt, único astronauta de formação científica – geólogo - a pisar na Lua, durante a missão Apollo 17, e embalado a vácuo lá mesmo. Isso porque seus cerca de 800 gramas trazem preservadas e isoladas várias camadas da história geológica, a chamada estratigrafia, da Lua, além de materiais voláteis, como água e gases, que podem ser a chave para suprir com oxigênio, combustíveis e outros recursos futuras bases permanentes lá.

Segundo a Nasa , as amostras devem ser abertas até o fim do ano, após discussões entre os nove grupos de pesquisa selecionados para o trabalho de como melhor proceder para atender os objetivos de seus estudos.