mulher falando em palco
Cleia Viana/Câmara dos Deputados
Flordelis durante discurso no plenário da Câmara

"Não se trata de uma família, mas de uma organização criminosa", foi assim que o delegado Allan Duarte definiu o grupo formado pela deputada federal Flordelis (PSD-RJ) e os demais acusados de envolvimento no assassinato do marido dela , o pastor Anderson do Carmo, em junho do ano passado . Segundo a investigação da Polícia Civil, a parlamentar foi quem orquestrou o crime, que envolveu oito integrantes da família.

O inquérito, aceito pelo Ministério Público, narra uma trama complexa e uma dinâmica familiar diametralmente oposta à imagem puritana que o casal transmitia em cultos e eventos pentecostais pelo país. O enredo inclui sexo, traições, envenenamento , rituais nada cristãos e a té a prática das famosas "rachadinhas" — desvio de dinheiro de funcionários de gabinete.

Um ano e dois meses depois do crime e de uma investigação cheia de reviravoltas, a polícia concluiu o inquérito. Aos três suspeitos já presos, se juntaram mais cinco filhos de Flordelis, uma neta e a mulher de um dos detidos anteriormente. A deputada segue em liberdade, graças ao foro privilegiado, embora a polícia não tenha dúvidas de que ela desempenhou papel central na articulação do crime e em seus desdobramentos.

Entenda a participação de cada suspeito na morte do pastor Anderson do Carmo:

Lucas Cezar dos Santos, filho adotivo: Já estava preso, mas não teve mandado de prisão nesta operação. Ele não estava na cena do crime, mas ajudou Flavio na compra da arma utilizada o assassinato. Foi denunciado por associação criminosa.

Flávio dos Santos Rodrigues, filho biológico: Apontado como autor dos disparos, já estava preso e teve um mandado de prisão expedido nesta segunda-feira. Denunciado por associação criminosa e uso de documento ideologicamente falso.

Marcos Siqueira, ex-policial: Auxiliou no episódio da carta falsa e já estava preso com mais um mandado de prisão expedido nesta segunda. Vai responder por associação criminosa e uso de documento falso.

Marzy Teixeira da Silva, filha adotiva: Cooptou luca para matar o Pastor Anderson. Também participou dos envenenamentos. Vai responder por homicídio triplamente qualificado, tentativa de homicídio triplamente qualificado e associação criminosa majorada.

Simone dos Santos Rodrigue, filha Biológica: Responsável pelos envenenamentos. Simone buscou informações sobre o uso de veneno na internet. Vai responder por homicídio triplamente qualificado, tentativa de homicídio triplamente qualificado e associação criminosa majorada.

André Luiz de Oliveira, filho adotivo: Ex-marido de Simone, foi flagrado em conversas com Flordelis combinando o envenenamento. Vai responder por homicídio triplamente qualificado, tentativa de homicídio triplamente qualificado e associação criminosa majorada.
Carlos Ubiraci Francisco Silva, filho adotivo: Pastor, é citado por participação no planejamento da morte. Denunciado por homicídio triplamente qualificado.


Adriano dos Santos, filho biológico: Auxiliou no episódio da carta falsa em que Lucas assumia a autoria dos disparos. Vai responder por associação criminosa e uso de documento falso.

Andreia Santos Maia, mulher do ex-policial Marcos: Auxiliou no episódio da carta falsa. Vai responder por associação criminosa e uso de documento falso.

Rayane dos Santos Oliveira, neta: Buscou por assassinos para as tentativas anteriores, como Lucas. Estava no apartamento funcional da mãe. Vai responder por homicídio triplamente qualificado e associação criminosa majorada.

Arquiteta de um crime

"Não se trata bem de uma família, mas de uma organização criminosa. Descobrimos que toda aquela imagem altruísta, de decência, era apenas um enredo para ela alcançar objetivos financeiros e a projeção política”. Com essa declaração, o delegado Allan Duarte justificou uma denúncia contra a deputada federal Flordelis dos Santos de Souza (PSD-RJ), agora formalmente acusada de ser a mandante do assassinato do marido, o pastor evangélico Anderson do Carmo, em junho do ano passado. E, de acordo com a Polícia Civil e o Ministério Público do Rio, por trás do enredo montado por Flordelis, que também é pastora evangélica, havia uma trama de traições, sexo, rituais de magia negra e até “rachadinhas” — desvios de salários de funcionários de parlamentares.

Flordelis e Anderson tinham 55 filhos, a maioria adotivos. O próprio pastor havia sido adotado pela deputada, e chegou a ser tratado como genro, quando namorou uma de suas filhas. Segundo investigadores, ele controlava a família com mão de ferro, tomando conta de tudo, da partilha dos alimentos às finanças, e ainda administrava a igreja fundada pelo casal, que, até 2019, tinha oito templos.

Morto com mais de 30 tiros na garagem de casa, em Pendotiba, Niterói, Anderson era odiado por parte dos filhos e pela mulher, e foi alvo de oito tentativas frustradas de assassinato, inclusive por envenenamento. Ele foi hospitalizado cinco vezes.

A família tentou esconder evidências dos crimes, segundo a polícia, e fez uma fogueira no quintal da casa para destruir provas. Mas, pouco a pouco, os indícios apareceram ao longo de um ano e dois meses de investigação. O revólver usado na execução estava em cima do armário de Flávio, filho que admitiu ser o autor dos disparos. Outras confissões e contradições em depoimentos também resultaram em provas, assim como mensagens de celulares que revelaram planos criminosos.

Numa das mensagens descobertas por policiais e promotores, Flordelis escreveu a um dos filhos: “André, pelo amor de Deus, vamos por um fim nisso. Me ajuda. Cara, tô te pedindo, te implorando. Até quando vamos ter que suportar esse traste no nosso meio?”. Numa outra, Marzy, uma das filhas, incitou o irmão Lucas a matar o pastor por R$ 10 mil.

Por seis vezes, tentaram envenenar Anderson com arsênico. Investigadores comprovaram que duas filhas fizeram pesquisas na internet sobre venenos que teriam sido colocadas em sucos e pratos servidos a Anderson; misturadas a porções de feijão, a molho de macarrão e a sobremesas. Anderson foi internado cinco vezes com problemas digestivos. Numa mensagem de celular, uma das autoras da tentativa de homicídio lamentou: “Ele é ruim de morrer”. A família ainda tentou forjar dois latrocínios (roubo seguido de execução). O último resultou na morte de Anderson.

Em um recado enviado aos filhos, Flordelis se justificou sobre o plano de execução. “Fazer o quê? Separar não posso, porque ia escandalizar o nome de Deus”, escreveu a pastora e cantora gospel. De acordo com a Polícia Civil e o Ministério Público, parte do grupo participava de orgias com a deputada e o pastor. Além disso, alguns participavam de rituais secretos e tinham braços na atuação parlamentar, dentro do gabinete em Brasília. Esses eram obrigados a fazer “rachadinha” em que devolviam parte de seus salários a Flordelis.

Participaram da cobertura: Ana Carolina Torres, Rafael Nascimento de Souza, Carolina Heringer, Carolina Callegari , Marjoriê Cristine, Diego Amorim e Bruno Goés

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