
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em uma proposta de delação premiada, que os dirigentes do União Brasil ACM Neto e Antônio Rueda teriam atuado para viabilizar investimentos de institutos de previdência estaduais no Banco Master em troca de uma comissão equivalente a 10% dos valores aplicados. As acusações constam de uma terceira proposta de colaboração apresentada por Vorcaro, à qual os colunistas Cézar Feitoza, Fabio Serapião e Natália Portinari, do UOL, tiveram acesso.
Segundo o relato, ACM Neto e Rueda teriam aberto portas para o Master em fundos de previdência do Rio de Janeiro, Amapá e Amazonas, além da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae). Vorcaro afirmou que, a partir dessa atuação, o banco teria captado cerca de R$ 2 bilhões.
Pela conta apresentada pelo ex-banqueiro, uma comissão de 10% sobre esse montante representaria uma obrigação de aproximadamente R$ 200 milhões com os dois políticos. No entanto, a proposta não informa quanto teria sido efetivamente pago a ACM Neto e Rueda.
Vorcaro também afirmou que o modelo previa o repasse de 10% do valor de cada aplicação ou de 1% ao ano durante o período em que os recursos permanecessem investidos no Banco Master.
Como os pagamentos teriam sido feitos
De acordo com a versão apresentada por Vorcaro, os pagamentos a ACM Neto ocorreriam de diferentes formas.
Entre elas estariam repasses em dinheiro por meio de empresas ou pessoas ligadas a Augusto Lima, que foi sócio e executivo do Banco Master, e Antônio Carlos Freixo Júnior, empresário do setor financeiro e fundador do Grupo Entre, ligado a transações para um fundo no exterior para o filme "Dark Horse", além de contratos de consultoria que, segundo o ex-banqueiro, seriam usados para justificar os valores.
A proposta cita contratos entre a A&M Consultoria Ltda., ligada a ACM Neto, e o Banco Master, além de acordos com a Reag e com a B6 Capital, empresa de gestão ligada ao político.
No caso de Rueda, Vorcaro afirmou que parte dos valores teria sido repassada em dinheiro por empresas ou pessoas ligadas a Augusto Lima e Freixo. Ele também citou contratos entre empresas do conglomerado Master e o escritório Rueda & Rueda Advogados.
Segundo o ex-banqueiro, esses contratos teriam movimentado cerca de R$ 3 milhões por mês.
Vorcaro afirmou ainda que os pagamentos eram tão recorrentes que o Banco Master mantinha uma espécie de “conta corrente” para registrar valores que, segundo ele, seriam devidos aos grupos políticos.
A proposta também cita mensagens trocadas entre os envolvidos e encontros na sede do Banco Master. Em uma delas, de novembro de 2023, Rueda teria marcado uma reunião com Vorcaro. Há ainda uma mensagem em que o ex-banqueiro pergunta sobre um helicóptero para ACM Neto e Rueda.
Relação com o BRB
Outro episódio citado por Vorcaro envolve o Banco de Brasília (BRB).
Segundo o ex-banqueiro, em junho de 2024, Rueda o convidou para uma reunião em Brasília com o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. O encontro teria ocorrido na residência de Rueda.
Na ocasião, conforme o relato, o BRB precisava de aproximadamente R$ 1 bilhão para um aumento de capital. Vorcaro afirmou que Rueda e Paulo Henrique teriam pedido que ele disponibilizasse o dinheiro em dois ou três dias.
Em contrapartida, o BRB compraria ativos do Banco Master em valor que poderia chegar a dez vezes o montante investido.
Vorcaro disse que o grupo colocou cerca de R$ 750 milhões no BRB e que, no mesmo período, o banco estatal comprou aproximadamente R$ 6 bilhões em carteiras do Master.
Ainda de acordo com o relato, Rueda e Paulo Henrique teriam cobrado uma comissão de 10% sobre os valores que o BRB efetivamente pagasse para adquirir ativos do Master. ACM Neto também teria participado da divisão dos valores, segundo Vorcaro.
Investimentos de fundos de previdência
A proposta menciona quatro instituições que teriam investido no Banco Master após a atuação atribuída por Vorcaro a ACM Neto e Rueda.
Os valores citados são:
- Rioprevidência: R$ 2,97 bilhões entre 2023 e 2025;
- Amprev, do Amapá: R$ 400 milhões;
- Cedae: R$ 200 milhões;
- Amazonprev: R$ 50 milhões.
Somados, os investimentos chegam a aproximadamente R$ 3,62 bilhões — valor superior aos R$ 2 bilhões mencionados por Vorcaro como montante captado a partir da atuação dos políticos.
A própria proposta não esclarece a diferença entre os valores.
O documento também não detalha quanto cada político teria recebido individualmente nem apresenta, para cada investimento, qual teria sido a atuação concreta de ACM Neto ou Rueda. O relato afirma que os dois teriam “intermediado” os aportes.
O que já havia sido identificado
A quebra de sigilo do Banco Master já havia identificado contratos de consultoria envolvendo ACM Neto e contratos de advocacia com Rueda. Na proposta, Vorcaro afirmou que esses documentos teriam sido utilizados para justificar contabilmente parte dos pagamentos que, segundo ele, seriam comissões.
O relato também menciona investigações sobre dirigentes dos fundos de previdência.
No Rioprevidência, o ex-presidente Deivis Marcon Antunes foi preso pela Polícia Federal em fevereiro de 2026. Segundo a investigação citada pelo UOL, ele teria sido indicado ao cargo por Rueda em articulação com o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro.
No Amapá, o investimento de R$ 400 milhões no Master foi aprovado por um comitê presidido por Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha de Davi Alcolumbre e indicado para o cargo pelo senador.
No A mazonas, os R$ 50 milhões foram autorizados por um presidente que havia assumido o posto 28 dias antes e que era ex-contador de campanha do governador Wilson Lima.
Valores não coincidem com registros financeiros
Apesar das acusações, há diferenças entre os valores relatados por Vorcaro e os registros financeiros citados na reportagem.
Dados do Coaf e quebras de sigilo bancário e fiscal apontaram pagamentos de aproximadamente R$ 6,4 milhões, entre 2022 e 2025, a escritórios ligados a Rueda. A empresa de consultoria de ACM Neto teria recebido cerca de R$ 5,4 milhões entre 2023 e 2025.
Os valores são inferiores aos montantes que poderiam resultar das comissões descritas por Vorcaro.
A proposta de delação também não apresenta os valores efetivamente pagos aos dois políticos e não esclarece a diferença entre os R$ 2 bilhões citados pelo ex-banqueiro e os R$ 3,62 bilhões de investimentos mencionados na própria documentação.
Delação foi rejeitada
As acusações fazem parte de uma proposta de delação premiada apresentada por Vorcaro. Segundo o UOL, a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República rejeitaram as propostas por considerarem que não havia informações inéditas suficientes e por falta de garantias para a devolução de valores relacionados às fraudes investigadas.
O ex-banqueiro tenta reabrir as negociações para uma colaboração premiada.
O conteúdo da proposta veio a público em meio às investigações envolvendo o Banco Master e à divulgação, pelo ministro Alexandre de Moraes, do relatório de inteligência da Polícia Federal que mencionava uma suposta demora do ministro André Mendonça para autorizar uma operação contra Rueda.
Mendonça afirmou que a divulgação do documento prejudicou a investigação que envolvia os políticos.
O que dizem ACM Neto e Antônio Rueda
Procurado pelo UOL, Antônio Rueda afirmou que tem dificuldade para se pronunciar sobre um documento ao qual não teve acesso. O presidente do União Brasil também negou qualquer irregularidade relacionada às acusações apresentadas por Vorcaro.
Já ACM Neto classificou as acusações como “absurdas, completamente fantasiosas e mentirosas”.
Os dois negam as acusações apresentadas pelo ex-banqueiro na proposta de delação. O documento também não demonstra quanto teria sido efetivamente pago aos políticos nem apresenta, de forma detalhada, quais atos concretos eles teriam praticado para cada investimento citado.