Golpe de 1964 só deu certo porque militares tiveram apoio da sociedade civil

Por Natália Peixoto - iG São Paulo |

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Historiadores afirmam que Jango sofria uma campanha massiva de desestabilização anos antes do golpe com apoio de empresários, imprensa, setores da Igreja e o governo dos EUA

Apesar da predominância dos militares no comando da ação que depôs o presidente João Goulart, o golpe de 1964 só foi possível graças à participação da sociedade civil: donos de veículos de comunicação, empresários, setores conservadores da Igreja, o governo dos Estados Unidos, entre outros. Historiadores afirmam ainda que Jango, embora tivesse altos índices de aprovação como presidente, sofria, desde que assumiu o comando do País, uma campanha massiva de desestabilização em rádios, TVs e mídia impressa. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que levou cerca de 200 mil às ruas de São Paulo contra Jango, mostrava que a estratégia de “ameaça comunista” estava dando certo.

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Um dos principais articuladores da parte civil do golpe foi o banqueiro e então governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, junto ao general Castello Branco, então comandante supremo do Exército Nacional. Dez dias antes da queda de Jango, Castello Branco fez um levantamento entre os quartéis em busca de adesões a uma possível ação de resistência contra Jango. Uma semana depois, no dia 28 de março, o governador Magalhães Pinto deu início ao plano, liberando as tropas do general Mourão Filho para marcharem de Juiz de Fora até o Rio de Janeiro, em um movimento que consolidaria o início da ditadura.

Arquivo Brasil Nunca Mais
Para o historiador Carlos Fico, o apoio dos veículos de comunicação foi “absolutamente determinante” para a queda de Jango


Antes da tomada militar do poder, entretanto, grupos organizados de empresários, industriais, representantes da Igreja e donos de veículos de comunicação se articulavam desde 1961 em uma campanha intensiva de desestabilização de Jango, com receio de que o governante populista, conhecido pelo aumento de 100% do salário mínimo enquanto ministro do Trabalho de Getúlio Vargas, criasse uma república sindicalista. Contra essa ameaça, empresários fincaram no Rio e em São Paulo as sedes do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o Ipês.

O grupo, financiado por 95 empresas e 125 doadores físicos, promovia massiva propaganda contra o governo por meio de cursos, palestras, propaganda em revistas e superproduções televisivas contrárias ao governo. “Não tinha a expressão ‘Fora Jango’, mas tinha um discurso de insatisfação fortíssimo contra seu governo”, explica Denise Assis, jornalista e pesquisadora da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro. Cinco empresas contribuíram com 70% da receita do instituto: Listas Telefônicas Brasileiras, Light, Cruzeiro do Sul, Refinaria e Exploração de Petróleo União e Icomi.

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O Ipês, que foi comandado pelo general Golbery do Couto e Silva, na época oficial de segundo escalão do exército, existiu até 1972 quando, já esvaziado de doações, fechou suas portas. Sua principal herança foram as cerca de 3 mil fichas que seus mais de 400 pesquisadores fizeram sobre as principais lideranças suspeitas da esquerda brasileira. Golbery levou esse material para o Serviço Nacional de Inteligência (SNI), criado logo após o golpe.

Denise diz que o Ipês era um “eufemismo para o grupo conspiratório que se formou para tramar a derrubada de Jango”. Em seu estudo, ela aponta que em apenas uma ação, a vinculação de 15 filmes para criar a insegurança na população, entre 1962 a 1964, foram pagos 450 mil cruzeiros semanalmente a 13 canais de TV. “Os jornais e televisões receberam muito dinheiro, mas depois a própria mídia cedeu espaço. Todos os veículos de comunicação apoiaram o golpe, com exceção do ‘A Última Hora’, que foi fechado porque era o único veículo que apoiava o Jango”, explica.

Golpe de 1964: veja imagens de resistência e repressão:

Estudantes protestam contra o golpe militar no centro de São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Nas imagens, aparece o então líder estudantil José Dirceu. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais O movimento estudantil foi responsável por muitas ações de protesto em oposição ao regime militar. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Os estudantes também tiveram apoio de alguns partidos e organizações políticas. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais O auge dos protestos contra o regime militar foi o ano de 1968 . Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Em 1968, houve a “Passeata dos Cem mil”, a “Batalha da Rua Maria Antonia” e o Congresso da UNE em Ibiúna. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Na luta contra o regime, o movimento estudantil assumiu postura mais partidária . Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais ‘Abaixo a ditadura’ e ‘Só o povo armado derruba a ditadura’ eram algumas das palavras de ordem usadas. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Logo que se instaurou o golpe, várias universidades foram invadidas. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais A luta estudantil contra a ditadura militar  se intensificou em 1966. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Em 1966, a UNE decreta em 22 de setembro o Dia Nacional de Luta contra a Ditadura. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes infiltrados se passavam por estudantes para relatar as atividades de movimentos estudantis para a ditadura militar. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Estudantes saíram às ruas em vários Estados e foram violentamente reprimidos. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Os estudantes viraram uma grande força de combate à ditadura. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Estudantes eram duramente reprimidos por agentes da ditadura. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais O auge das manifestações foi em 1968. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais A  repressão perseguiu os líderes estudantis para conter  o avanço do movimento. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Na luta contra o regime, o movimento estudantil assumiu postura mais partidária . Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Em 1966, a UNE decreta em 22 de setembro o Dia Nacional de Luta contra a Ditadura. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais O movimento estudantil foi responsável por muitas ações de protesto . Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais “Abaixo a Guerra do Vietnã!” também era um grito de guerra na época. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes infiltrados se passavam por estudantes para relatar as atividades de movimentos estudantis para a ditadura militar. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes infiltrados se passavam por estudantes para relatar as atividades de movimentos estudantis para a ditadura militar. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Imagens mostram o trabalho dos serviços de inteligência da ditadura militar, que acompanhava de perto as atividades de grupos considerados subversivos. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Imagens mostram o trabalho dos serviços de inteligência da ditadura militar, que acompanhava de perto as atividades de grupos considerados subversivos. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Imagens mostram o trabalho dos serviços de inteligência da ditadura militar, que acompanhava de perto as atividades de grupos considerados subversivos. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Imagens mostram o trabalho dos serviços de inteligência da ditadura militar, que acompanhava de perto as atividades de grupos considerados subversivos. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Imagens mostram o trabalho dos serviços de inteligência da ditadura militar, que acompanhava de perto as atividades de grupos considerados subversivos. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Imagens mostram o trabalho dos serviços de inteligência da ditadura militar, que acompanhava de perto as atividades de grupos considerados subversivos. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Imagens mostram o trabalho dos serviços de inteligência da ditadura militar, que acompanhava de perto as atividades de grupos considerados subversivos. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Imagens mostram o trabalho dos serviços de inteligência da ditadura militar, que acompanhava de perto as atividades de grupos considerados subversivos. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Imagem de dossiê sobre Luís Carlos Prestes pelo Serviços de inteligência da ditadura militar. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Serviços de inteligência da ditadura militar acompanham o líder Luis Carlos Prestes, líder do Partido Comunista Brasileiro. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Serviços de inteligência da ditadura militar acompanham o líder Luis Carlos Prestes, líder do Partido Comunista Brasileiro. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Serviços de inteligência da ditadura militar acompanham o líder Luis Carlos Prestes, líder do Partido Comunista Brasileiro. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Serviços de inteligência da ditadura militar acompanham o líder Luis Carlos Prestes, líder do Partido Comunista Brasileiro. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Serviços de inteligência da ditadura militar acompanham o líder Luis Carlos Prestes, líder do Partido Comunista Brasileiro. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Serviços de inteligência da ditadura militar acompanham o líder Luis Carlos Prestes, líder do Partido Comunista Brasileiro. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Serviços de inteligência da ditadura militar acompanham o líder Luis Carlos Prestes, líder do Partido Comunista Brasileiro. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Carlos Lamarca, um dos líderes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), guerrilha armada que combatia a ditadura militar. Foto: Arquivo pessoalRegistros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Trabalhadores fazem comício no dia do Trabalho, em 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Trabalhadores fazem comício no dia do Trabalho, em 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Trabalhadores fazem comício no dia do Trabalho, em 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Trabalhadores fazem comício no dia do Trabalho, em 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Trabalhadores fazem comício no dia do Trabalho, em 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Trabalhadores fazem comício no dia do Trabalho, em 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais


Popularidade de Jango em alta

Segundo uma pesquisa Ibope recentemente revelada pelo historiador Luiz Antonio Dias, pouco antes do golpe, Jango tinha apoio de 72% da população. Sua proposta de reforma agrária era aprovada por 70% em algumas capitais. Mesmo assim, o golpe foi vitorioso. “Quem derrubou Jango não foi o povo, foi a elite burguesa”, defende Denise. “Empresários e grandes industriais estavam unidos em torno do projeto de um Brasil mais avançado. Eles defendiam a livre iniciativa e o capital, antes do golpe e durante a ditadura.”

A advogada Rosa Cardoso, membro da Comissão Nacional da Verdade e coordenadora do Grupo de Trabalhadores, atribui o sucesso do golpe ao bombardeio de propaganda contra Goulart, associando-o ao comunismo. “Utilizando uma propaganda massiva, eles conseguiram cooptar elementos, conseguiram recrutar militantes entre as mulheres, entre as igrejas católica e protestante”, diz.

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Para o historiador Carlos Fico, o apoio dos veículos de comunicação foi “absolutamente determinante”. “Diariamente o Goulart era atacado, criticavam e fragilizavam o seu governo, e a partir do início de 1964, sugeriam o afastamento do presidente”, diz. E isso começou a aparecer em manifestações contrárias a Jango, como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, apesar dos seus altos índices de aprovação.

Em seu recém-lançado livro “O golpe de 1964, momentos decisivos”, Fico relata a conspiração que culminou no golpe a partir da campanha de desestabilização de Jango dos anos anteriores. Nela, houve participação decisiva também do governo dos Estados Unidos. “A campanha de desestabilização estendeu-se até as vésperas do golpe de 1964. No dia 20 de março, o United States Information Service (Usis) terminou um relatório planejando gastos de mais de US$ 500 mil com atividades de propaganda em rádio, imprensa escrita e unidades móveis de exibição de filmes, entre outras. Contabilizando-se também os gastos com publicações de livros, ensino de inglês e programas de intercâmbio, chega-se ao valor de US$ 2 milhões", escreve.

Fico também aponta o apoio do Congresso como outro apoiador decisivo para os militares. Na época presidido por Ranieri Mazzili, ele declarou a vacância da Presidência com a movimentação militar. “Vários civis deram efetivamente o golpe”, diz.

Entidades como a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) também contribuíram financeira e logisticamente para a concretização do golpe. À Comissão Municipal da Verdade de São Paulo, o coronel do Exército reformado Erimá Pinheiro Moreira denunciou o suborno do então comandante do 2º Exército, general Amaury Kruel pela Fiesp. Segundo Moreira, que estaria presente durante o suborno, o então presidente da entidade, Raphael de Souza Noschese, teria pago U$ 1,2 milhão (R$ 2,4 milhões, em valores atualizados) para que Kruel, ex-ministro da Guerra de Jango, levasse o 2º Exército à adesão ao golpe. Nos anos anteriores ao golpe, as tropas lideradas por Kruel foram reaparelhadas por industriais para o caso de um possível combate com o 3º exército, articulado com o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, um dos líderes da resistência pró-Goulart.

Henning Boilesen

Enquanto partes da Igreja e da imprensa que apoiaram o golpe começaram a criticar o caráter ditatorial do novo regime, os empresários que financiaram a caída de Jango se sentiam à vontade com a modernização capitalista em curso no País. Se o banqueiro Magalhães Pinto foi o líder civil do golpe, o empresário dinamarquês Henning Boilesen é o grande destaque entre os civis que patrocinaram a ditadura. Naturalizado brasileiro, Boilesen dividia com os militares o amor ao nacionalismo e o ódio aos comunistas.

Ele colaborou pessoalmente para o sucesso na caça aos subversivos. Presidente do grupo Ultra, Boilesen ajudou a financiar, junto com outros empresários e industriais paulistas, uma das mais cruéis ofensivas da repressão militar, a Operação Bandeirantes (Oban). Inicialmente clandestina, a operação militar financiada por civis funcionava na rua Tutóia, na zona sul de São Paulo, e deu origem ao DOI-CODI. Era lá que Boilesen ia acompanhar de perto as sessões de torturas dos presos políticos, sendo reconhecido por diversos torturados. O nome do empresário ficou eternizado no aparelho qie importou para garantir a eficácia dos interrogatórios: a pianola de Boilesen, que dava choque elétricos em quem apertasse seus botões.

Os caminhões da Ultragás eram usados nas emboscadas preparadas pela Oban, e em troca, a empresa operava com um “capital de giro negativo”, como relata o filho de Boilesen no documentário “Cidadão Boilesen”, dirigido por Chaim Litewski, recebendo gás da Petrobrás para pagar no mês seguinte. O empenho de Boilesen em manter o avanço do capitalismo no Brasil e sua proximidade aos militares rendeu-lhe um assassinato violento por membros da Aliança Nacional Libertadora (ANL) e do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), que o mataram a tiros em São Paulo, em 1971.

Além do Grupo Ultra, diversas outras empresas, indústrias e construtoras ajudaram a manter o regime militar no poder. “Os empresários participaram sempre, participaram em todos os Estados. Havia uma identificação política significativa com os militares, eles achavam que os interesses econômicos deles eram melhores representados pela ditadura”, diz Rosa Cardoso.

O jornalista Jorge José de Melo, estudioso da vida de Boilesen, escreve em artigo para a Comissão da Verdade que a forma de contribuição dos empresários à repressão militar ainda é obscura. “Existem muitas lacunas e dúvidas sobre as condições em que ocorreu essa colaboração e que certamente demandarão outras pesquisas, já que se trata de tema ainda protegido, inclusive, pela ocultação de arquivos oficiais, públicos e privados”, escreve. Melo ressalta que muitos dos conspiradores civis da derrubada de Jango colaboraram com o regime em formas que iam além do financiamento, como na participação em organizações anticomunistas violentas, por exemplo, integrando o Comando de Caça aos Comunistas, o CCC.

O deputado Adriano Diogo, coordenador da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo, diz que é preciso pensar na punição das empresas que lucraram com o golpe ao patrocinar ações de repressão violentas, em “uma analogia com a punição aos crimes militares”. “Cada ditador trazia um grupo de empresas para o Brasil. O golpe militar foi um grande negócio, ganhou-se muito dinheiro. Os empresários e as empresas também devem ser punidas”, defende.

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