Barbosa e Lewandowski têm novo bate-boca no julgamento do mensalão

Em mais uma discussão, relator e revisor divergem sobre envolvimento de Emerson Palmieri no suposto esquema de compra de apoio político e viagem de réus a Portugal

iG São Paulo | - Atualizada às

O ministro relator no processo do mensalão, Joaquim Barbosa, e o revisor Ricardo Lewandowski voltaram a bater-boca nesta quarta-feira (26), durante o 28º dia do julgamento em curso no Supremo Tribunal Federal (STF). No retorno do intervalo, Lewandowski voltou a ler seu voto sobre o o sexto item da denúncia, tratando das acusações contra Emerson Parlmeiri, primeiro-secretário do PTB, acusado de lavagem de dinheiro e corrupção passiva. 

Agência Estado
O ministro relator Joaquim Barbosa discutiu nesta quarta-feira com o colega de tribunal, o revisor Ricardo Lewandowski

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"Ele ( Emerson Palmieri ) era um coadjuvante, um protagonista secundário", disse o revisor. "Penso que remanescem sérias dúvidas quanto à sua real participação nos eventos delituosos", afirmou Lewandowski, que disse ter mudado várias vezes seu voto a respeito deste acusado. 

Irritado com a afirmação do revisor, Joaquim Barbosa citou depoimentos de Marcos Valério indicando a participação de Palmieri, questionando mais uma vez o revisor. "Nós não podemos fazer vistas grossas a respeito do que consta nos autos", disse.

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Lewandowski reagiu dando destaque a sua  função no julgamento. "Para que o revisor? Você quer que eu coincida com Vossa Excelência em todos os pontos?", questionou. "Não é possível isso. Seria melhor abolir o revisor", ironizou Lewandowski.

"Eu distribuo o meu voto para ajudar a sociedade. Seria bom que o senhor fizesse o mesmo", provocou novamente Barbosa. "Não será Vossa Excelência que dirá o que eu devo fazer", rebateu Lewandowski. Foi necessária a intervenção de outros ministros para acalmar a discussão. "Policie a sua linguagem, ministro", pediu Marco Aurélio Mello ao relator. Que respondeu estar "usando muito bem o vernáculo".

Outro motivo da discordância foi uma viagem feita por Emerson Palmieri a Portugal, ao lado de Marcos Valério, apontado como o financiador do mensalão, e Rogério Tolentino. Para Lewandowski, a viagem por si só não significa que os três tenham se reunido em torno de uma prática criminosa. Barbosa discordou.

"Infelizmente, talvez a minha formação mais filosófica me leve a ter dúvidas quanto ao contexto probatório de um processo criminal. Eu, com toda a lealdade, estou trazendo provas que militam com o meu raciocínio", afirmou Lewandowski. "A partir da viagem, não se pode chegar à nenhuma conclusão. Eu, pelo menos, não estou chegando, não estou conseguindo." O revisor chegou a dizer que a viagem teria acontecido em decorrência de interesse em torno do processo de privatizações.

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Neste momento, Joaquim Barbosa, que não estava no plenário, retornou e bateu boca com o colega. "Eu estava assistindo pela TV Vossa Excelência dizer que eles foram cuidar de elementos relativos à privatização brasileira. Algum desses senhores tinha representação no Estado brasileiro?", questionou. "Vamos dizer as coisas como elas são, ministro", continuou o relator.

"Não é possível, a meu ver, deduzir dos autos que a finalidade da referida viagem tenha sido esta. Como ocorre com frequência nestes autos, algumas testemunhas estão em franca colisão com outras. A prova oral, nesses casos, se revela totalmente inaproveitável", rebateu Lewandowski.

"Essa viagem é altamente suspeita. Que viagem é essa, meu Deus do céu?", perguntou Barbosa em seguida, impaciente. Até o presidente do STF, ministro Ayres Britto, lembrou ao revisor que Emerson Palmieri, Marcos Valério e Rogério Tolentino viajaram "os três juntos, um do ladinho do outro", para Portugal. "O único fato que restou provado dos autos é que o réu estava ciente do acordo estabelecido com o PT, nada havendo, contudo, que ele tenha concorrido para as práticas dos crimes que lhe foram imputados", finalizou Lewandowski.

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