Agente da CIA contrabandeou armas e veneno para ditadura

Ex-delegado do DOPS do Espírito Santo, Cláudio Guerra, diz que empresários simpáticos ao regime receberam armas de forma ilegal

Tales Faria e Wilson Lima, iG Brasília |

Uma agente da Agência Central de Informações norte-americana (CIA) chamado Jone Romaguera Trotte contrabandeou armas e injeções envenenadas que foram utilizadas em atentados contra agentes da esquerda durante o regime militar no Brasil, conforme revelações do ex-delegado do Departamento de Ordem Político Social (DOPS) Cláudio Guerra no livro “Memórias de uma guerra suja”.

Por intermédio da ditadura, Romaguera também fornecia armas de forma ilegal para fazendeiros aliados ao regime.

Guerra disse que foi “parceiro” de Romanguera durante o período em que era delegado do DOPS (Departamento de Ordem Político Social).

Ele afirma que a principal função do agente da CIA no Brasil era trazer armamentos que seriam utilizados em atentados. Tudo com anuência do coronel de Exército Freddie Perdigão (Serviço Nacional de Informações - SNI); do comandante Antônio Vieira (Centro de Informações da Marinha - Cenimar) e do então delegado da Polícia Federal, Cláudio Barrouin.

Uma das armas que entrou no Brasil de forma ilegal foi uma metralhadora Ingra 380m 9mm, com silenciador. Guerra afirma que ela foi doada pelo governo dos Estados Unidos e usada no assassinato do ex-integrante da Scuderie Le Cocq, morto em 1981. A execução, segundo o ex-delegado, foi uma queima de arquivo determinada por Perdigão.

“O esquema de entrada de armas envolvia alguns pilotos da Varig, dos voos que vinham do exterior. Naquela época a tripulação não passava por revistas nos aeroportos”, lembrou. “Eu pegava as armas diretamente na casa do Trotte, na Tijuca, no Rio de Janeiro”, complementa.

Outros armamentos que chegavam ao País por intermédio de Jone Romaguera eram destinadas ao ex-vice-governador do Rio de Janeiro Heli Ribeiro, proprietário da usina de açúcar Cambahyba, localizada no município de Campos. Ribeiro, conforme Guerra, “comandou um grande esquema de receptação ilegal de armas”. “Essas armas iam para os fazendeiros que queriam proteger suas terras, temendo a reforma agrária”, lembra.

O restaurante onde ditadura e artistas se misturavam

Guerra sugere que Ribeiro nunca foi incomodado porque “ajudou a desaparecer com vários corpos dos adversários do regime”. “Eu fornecia carteiras do DOPS para os clientes civis do Jone, permitindo o porte de arma, o que criou um vínculo entre mim, o usineiro e os fazendeiros”, aponta. “O Jone trazia muitas armas. Só na usina Cambahyba deixei várias delas estocadas. Havia tudo o que se pode imaginar, até metralhadora antiaérea”.

Após o regime, Guerra afirma que foi condenado a quatro anos de prisão por contrabando de armas. Ele cumpriu dois. “No final do regime militar, e já na abertura política, no período Geisel, tiver muitos problemas. A Polícia Federal abriu processo contra mim por causa de algumas armas de Jone Romaguera”, declara.

Além de armas, o agente da CIA trouxe material de escuta e substâncias ilegais como a que foi usada no suposto assassinato do técnico da antiga Companhia Telefônica do Rio de Janeiro (Telerj) Heráclito Faffe. Faffe trabalhava em escutas para o SNI. Ele morreu de edema pulmonar após uma estranha tentativa de assalto em Copacabana. Essa mesma substância seria utilizada para provocar um infarto no jornalista Alexandre Von Baumgarten.

Outra função deste agente da CIA, pelo depoimento de Guerra, era mediar treinamento para agentes repressores. Romaguera trouxe até agentes ingleses para capacitar os torturadores brasileiros. “A maior parte dos treinamentos se dava no batalhão da PM, ao lado do Campo dos Afonsos (base da Força Aérea Brasileira no Rio de Janeiro), uma área enorme, com vários alojamentos”, relata.

Durante o regime militar, o governo norte americano deu suporte ao regime militar financiando ações repressoras a guerrilhas como a do Araguaia, por exemplo. Nesse período, houve forte influência do assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Henry Kissinger, em governos ditatoriais na América Latina, como Brasil, Argentina e Chile.

No livro, os autores Marcelo Netto e Rogério Medeiros afirmam que provavelmente Jone está vivo e teria residência no Rio de Janeiro. “Na internet, existe o registro de um processo trabalhista em seu nome; há indicações de que Jone figura como servidor da Dataprev”, citam Netto e Medeiros.

    Leia tudo sobre: memóriasdeumaguerrasujaditaduraCIA

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG