Roma tenta encontrar solução para tirar gatos de ruínas históricas

Autoridades da capital italiana querem acabar com abrigo de gatos de rua localizado na Piazza Argentina

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Os gatos perambulam pelas ruas de Roma desde a antiguidade, porém recentemente eles têm encontrado refúgio em uma associação de voluntários que carinhosamente cuida de milhares deles ao longo dos anos entre as ruínas da Piazza Argentina, um local onde Brutus esfaqueou Júlio César em 44 a. C.

O abrigo, confinado em um espaço subterrâneo perto de um adorado sítio arqueológico, possui diversas jaulas alinhadas em diferentes quartos que abrigam dezenas de gatos e ganhou fama - e doações – por ser uma atração turística popular.

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Gato na Piazza Argentina, em Roma (01/11)

Mas após algumas décadas de tolerância por sua ocupação não autorizada, os arqueólogos da Itália disseram que a associação tem que se retirar do local, dizendo que os riscos da ocupação ilegal podem prejudicar um monumento frágil. Os apoiadores da organização dos gatos responderam prontamente: eles não têm intenção de sair.

"Se eles querem guerra, vamos dar-lhes guerra", alertou Silvia Viviani, uma cantora de ópera aposentada e uma das fundadoras da associação Santuário de Gatos da Torre Argentina. "Os gatos precisam de nós."

O que se seguiu é uma disputa que incluiu uma série de oficiais da prefeitura recebendo uma enxurrada de e-mails de amantes dos gatos de rua e revelou-se um profundo choque entre a tradição e a legalidade que testou as noções que Roma possui de seu patrimônio cultural.

No meio de tudo isso estão também os gatos, antigos habitantes de Roma que foram oficialmente declarados "parte do patrimônio biocultural da cidade", observou Monica Cirinna, uma legisladora local do Partido Democrata, que criou um departamento de defesa dos direitos dos animais quando o partido de centro-esquerda começou a tomar conta do governo da capital.

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Roma tem inúmeras colônias de gatos, normalmente atendidos por apaixonados pelos felinos que deixam vasilhas de plástico com petiscos para gatos em pátios municipais ou nas calçadas.

Também existem associações de voluntariado mais organizadas para grandes colônias de gatos selvagens, algumas em sítios arqueológicos, incluindo uma localizada na Pirâmide de Céstio, monumento do século I A.C., e outra no Mercado de Trajano, onde os gatos receberam um santuário dentro da antiga área. Mas eles possuem autorização oficial.

O abrigo da Piazza Argentina não possui autorizaçao oficial, disseram os oficiais de arqueologia do Estado, que estão tentando fechá-lo dois anos depois de uma solicitação de autorização para instalar um banheiro. Isso chamou a atenção dos oficiais, e eles agora insistem que o abrigo tem de se retirar do local, mesmo que, contando com apenas equipamentos básicos como jaulas, armários médicos, móveis caindo aos pedaços e cestos de lixo, ele seja muito melhor organizado do que os outros.

O abrigo, que cuida de cerca de 180 gatos, fica perto da Área Sacra do Largo Argentina, um local no centro arqueológico constituído por quatro templos da era da república. Localizado em um espaço criado durante o governo de Mussolini, quando uma rua foi construída sobre o local, o abrigo fica diretamente acima dos restos do pódio travertino do que arqueólogos identificam como sendo o Templo D, uma estrutura do segundo século A.C.

"Os amantes de gatos estão ocupando um dos locais mais importantes na Piazza Argentina e que é incompatível com a preservação do monumento", disse Fedora Filippi, arqueólogo do Ministério da Cultura responsável pela área.

Há dois anos, discussões tentam encontrar uma solução para o abrigo, disse ela. Até agora, elas têm sido infrutíferas, e a menos que uma alternativa seja encontrada em breve, a associação dos gatos vai ser despejada.

Sem o abrigo, o departamento de veterinária de Roma já sobrecarregado seria forçado a lidar com centenas, possivelmente milhares de novos gatos de rua, argumentou a associação.

Mudar o abrigo para uma área menos frequentada não é uma opção, disseram os voluntários. A associação precisa estar em um lugar visível para os turistas, que vêm de todo o mundo para visitar e fazer doações. Ele também precisa de um espaço físico para abrigar jaulas para gatos doentes e para armazenar alimentos e outros suprimentos.

Na semana passada, o prefeito de Roma, Gianni Alemanno, que irá disputar sua reeleição em 2013, deu sua opinião e disse no Twitter que ele e seu gato, Certosino, "estão do lado dos gatos de Roma. Qualquer um que mexer com eles vai ter problemas". "Os gatos não podem votar, mas as pessoas que amam gatos sim", observou Viviani.

Umberto Broccoli, superintendente cultural de Roma, reconheceu que a situação era delicada.

"Os gatos de Roma são, por definição, tão antigos quanto os monumentos de mármore da cidade," disse ele. "Temos que encontrar uma solução que equilibre o cuidado do patrimônio histórico arqueológico de Roma, com uma prática histórica, social, que tem sua própria tradição", disse ele.

Além disso, os gatos têm seus próprios costumes.

"Eles não conseguem ler placas ", disse ele. "Eles vão voltar para a Piazza Argentina", independentemente do abrigo estar lá ou não, e os amantes de gatos e os turistas irão continuar os alimentando. "A situação não é tão simples assim."

Por Elisabetta Povoledo

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