O atual presidente, que faz tratamento contra câncer, garante que votação de 7 de outubro de 2012 trará 'grande vitória'

A campanha para a eleição presidencial de 2012 na Venezuela começou extraoficialmente nesta quarta-feira, com o presidente Hugo Chávez e seus oponentes buscando apoio e prevendo vitórias. As autoridades eleitorais estabeleceram a votação para 7 de outubro, dia do santo patrono da cidade natal de Chávez, Sabaneta, e também o aniversário de um líder da oposição.

Chávez coloca 'chapéu da cura' oferecido por índia durante cerimônia em Caracas (10/09)
AP
Chávez coloca 'chapéu da cura' oferecido por índia durante cerimônia em Caracas (10/09)

"Dou a ordem para se prepararem para a batalha e a grande vitória em 7 de outubro", disse Chávez, depois de garantir mais uma vez aos seus partidários que estaria bem depois do tratamento contra o câncer. O diagnóstico do presidente e o tratamento de quimioterapia lhe renderam uma pequena solidariedade nas pesquisas de opinião, nas quais sua aprovação permanece acima dos 50 por cento. Apesar disso, a má saúde prejudicou sua aura de invencibilidade.

O falante líder socialista governa a Venezuela desde 1999. Seu governo remodelou a economia seguindo linhas estatais, e se tornou um dos maiores críticos dos EUA. Mas ele enfrenta um movimento de oposição mais unido do que nunca e que deve se reunir em torno de uma candidatura única depois da eleição primária.

A oposição manteve para 12 de fevereiro a celebração de primárias inéditas nas quais será eleito o candidato que enfrentará Chávez - os jovens governadores de Miranda e Zulia, Henrique Capriles Radonski e Pablo Pérez, respectivamente, são os favoritos. Líderes da oposição temiam que a eleição acontecesse antes, e se disseram satisfeitos. "As eleições nos permitirão uma campanha longa e confortável", afirmou o dirigente político Henrique Ramos a jornalistas.

O porta-voz da coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), Ramón Aveledo, declarou em entrevista coletiva que, desta vez, se sairão vencedores. "A manipulação feita com essa data indica que também há a certeza de que vai haver uma mudança de governo."

Analistas dizem que enquanto Chávez tem muito mais recursos para influenciar os eleitores, a disputa está aberta por causa da divisão da nação e da incerteza com relação a sua saúde.

O presidente deve começar uma quarta sessão de quimioterapia nos próximos dias. Ele disse que essa deve ser a última, mas poucos detalhes são conhecidos sobre sua condição depois da cirurgia em Cuba para retirar um tumor na região pélvica.

Religião

Chávez, que é de família católica e foi coroinha quando criança, nunca escondeu seu lado religioso, mas, em consequência do câncer, o que mudou foi "a dose" de espiritualidade do líder, opinou o diretor da consultoria Datanalisis, Luis Vicente León.

O analista afirma que a cultura místico-religiosa durante o governo Chávez sempre existiu, porém, "sempre foi o tempero, não o prato principal". "Agora, o prato principal, que era essa presença praticamente onipresente na comunicação desaparece, e ele (o presidente) tem de buscar um compensador místico-religioso para preencher esse vazio, que não é de poder, e sim, um vazio de Chávez", disse.

Em julho, durante uma missa em que recebeu a unção dos enfermos, Chávez – que mantém uma tensa relação com a hierarquia da Igreja católica - disse sentir-se "o coroinha que sempre fui" e leu trechos da Biblía durante a cerimônia.

Neste mesmo período, prometeu entregar US$ 22 milhões para a construção de um templo católico, no Estado de Táchira, com capacidade para quase 30 mil religiosos.

Popularidade

De acordo com pesquisas de opinião da consultoria Hinterlaces, a popularidade do presidente venezuelano aumentou nos últimos meses, ao atingir 58% em setembro.

Esse índice contrasta com a queda em sua aprovação que vinha sendo registrada, cujos indicadores flutuavam entre 44% e 48%. O pior indíce dos últimos anos foi registrado em março de 2010, quando apenas 37% dos venezuelanos diziam apoiar o presidente.

O câncer, a moderação do discurso - voltado à classe média e setores empresariais - e a tentativa de dar uma nova roupagem à gestão do Executivo com o lançamento de um megaprojeto de construção de moradia popular teriam alavancado a popularidade do presidente nos últimos meses.

"Chávez diminuiu o volume ideológico e se favoreceu. Tem se comportado mais como um predicador que como um líder político", disse o analista Oscar Schemel, diretor da Hinterlaces.

Para esses especialistas, os pré-candidatos presidenciais da coalizão opositora, por sua vez, também acabaram "contaminados" pela onda religiosa vinda de Miraflores.

Na semana passada, pelo menos sete pré-candidatos participaram de atos de celebração de uma das santas padroeiras da Venezuela, a Virgem del Valle. "Todos acabam amarrados no tipo de liderança de Chávez e tentam ser como ele", afirmou o analista Nicmer Evans. "Chávez, apesar da doença, continua influenciando a atuação de seus opositores."

Chávez deve apostar em uma campanha online para pleito de 2012 (14/8)
EFE
Chávez deve apostar em uma campanha online para pleito de 2012 (14/8)
Campanha virtual

Apesar de ter reduzido as aparições públicas e de seguir uma rotina pessoal mais rígida seguindo ordens médicas, Chávez mantém-se onipresente graças a telefonemas diários para a mídia estatal e mensagens constantes pelo Twitter.

Isso faz os analistas preverem uma campanha virtual, em vez de suas idas e vindas costumeiras pela nação. "Doente ou não, Chávez já está em modo de campanha", disse o instituto sediado na Inglaterra LatinNews.

Uma data de eleição em outubro, mais cedo do que o cronograma tradicional de dezembro na Venezuela para a eleição presidencial, dá a Chávez menos tempo para se recuperar, mas também significa uma campanha mais curta e que exigiria menos de sua saúde.

* Com BBC e Reuters

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