Em meio a tensões globais, Dilma deve oferecer 'visão moderada' em fala na ONU

Presidenta abre Assembleia Geral da organização na terça-feira; porta-voz do Itamaraty diz que discurso será reflexo de 'tradição diplomática brasileira' que valoriza diálogo

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Em meio a um cenário mundial conflituoso, sobretudo no Oriente Médio, a presidenta Dilma Rousseff deve fazer um apelo à "moderação", quando discursar na abertura da Assembleia Geral da ONU, na terça-feira.

O porta-voz do Itamaraty, Tovar Nunes, disse a jornalistas em Nova York que os interlocutores do Brasil, em encontros às margens da Assembleia da ONU, têm revelado um "desejo" pela "voz de diálogo" que o Brasil pode trazer.

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Divugação
A presidenta Dilma Rousseff chega a Nova York para encontro da ONU (23/09)

"Existe um sentimento de que o Brasil tem uma contribuição a dar e a presidente, vocês vão ver, dará o recado nesse sentido", disse Tovar. "Não gostaria de especular (sobre o conteúdo do discurso da presidente), mas é a tradição diplomática brasileira, é onde nós somos capazes de dar nossa contribuição. Nós temos insistido que não vemos solução militar para vários conflitos atuais no âmbito internacional, de modo que seria natural que fosse por aí."

Diálogo x polarização

A Assembleia Geral da ONU elegeu como um dos temas da sua 67ª sessão a resolução pacífica de conflitos internacionais. É uma agenda atualizada diante da crise na Síria, considerada uma guerra civil por organizações internacionais, e a disputa em relação ao programa nuclear iraniano, que levantou inclusive temores de um bombardeio preemptivo de Israel contra instalações nucleares iranianas.

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Tovar Nunes resumiu a posição brasileira em conflitos dessa natureza como favorável à "necessidade de criar vínculos com todos os atores e de não polarizar". "A polarização tem um grande perdedor: a própria ONU. Quando mais polarizado o Conselho de Segurança, quanto menos entendimento houver, o primeiro perdedor é o sistema multilateral", afirmou o porta-voz.

É um discurso mais ameno que o americano, por exemplo, que não deseja o envolvimento militar de qualquer tipo, mas favorece sanções mais duras contra tanto o regime sírio quanto o iraniano.

Obama

Em sua participação na ONU logo após o discurso da presidente Dilma Rousseff, espera-se que o presidente americano, Barack Obama, reforce essa opinião.

Em meio a uma corrida eleitoral na qual é acusado por rivais republicanos de leniência na política externa, Obama deve tentar passar uma "visão da liderança americana" - e uma mensagem de que os EUA estão "mais fortes" no cenário externo de hoje que quatro anos atrás.

Ou seja, se se confirmarem as previsões dos especialistas, as participações dos dois chefes de Estado, que falam um após o outro, podem oferecer visões contrastantes para a resolução dos atuais conflitos internacionais.

"Aqui em Nova York é hora de (Dilma Rousseff) dar o recado multilateral, para o mundo, para as Nações Unidas, e não necessariamente um recado individualizado", indicou Tovar. "Não há uma intenção de singularizar um país ou outro, um grupo ou outro. O recado que será dado para o Brasil e pela presidente será um recado multilateral."

Avançando a Rio+20

Outro tema que diz respeito ao Brasil e que, espera-se, seja abordado por Dilma é o desenvolvimento sustentável, um prosseguimento do que foi acordado na conferência climática Rio+20, em junho. O acordo final estabelece que as próximas metas de desenvolvimento - que substituirão os atuais Objetivos do Milênio a partir de 2015 - incorporem os conceitos de preservação do meio ambiente, redução da pobreza e igualdade de gêneros, por exemplo.

"O desenvolvimento sustentável é a grande novidade deste ano, já se beneficiando do calendário que foi estabelecido no Rio de Janeiro", disse o porta-voz do Itamaraty. "Nós conseguimos uma plataforma de início do desenvolvimento sustentável e haverá um impulso político muito grande, que será dado aqui não só pela presidente, mas pela Assembleia Geral."

Abrindo os trabalhos da assembleia no início desta semana, o sérvio Vuk Jeremic, presidente da sessão, disse que as 193 delegações da ONU têm de demonstrar um "compromisso decisivo" para cumprir não apenas os prazos do acordo da Rio+20, mas também "os objetivos políticos e financeiros" que desenhou para cumpri-los.

Agenda em Nova York

À parte os trabalhos relativos ao discurso na ONU, o dia da presidente em Nova York incluiu um pouco de descontração, com um rápido passeio e almoço no chamado Upper East Side da cidade.

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Longe das câmeras e microfones dos jornalistas, a presidente deixou de carro o hotel St Regis, em que está hospedada, e dispensou o motorista pouco depois. Segundo sua assessoria, caminhou por Nova York, foi reconhecida por turistas brasileiros e almoçou no restaurante Boulud, à rua 65.

Dilma vem acompanhada da filha, Paula, e dos ministros Antonio Patriota (Relações Exteriores), Marco Aurélio Garcia (Secretaria Especial de Assuntos Internacionais), Aloizio Mercadante (Educação), Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio), Aguinaldo Ribeiro (Cidades) e Helena Chagas (Secretaria de Comunicação Social).

Segundo a assessoria do Planalto, a Dilma deve reunir-se na terça-feira com o secretário-geral da ONu, Ban Ki-moon, e com o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso.

O outro compromisso confirmado até agora é a participação da brasileira em uma reunião na terça-feira do Council on Foreign Relations, que reúne intelectuais e especialistas em política internacionais e publica a revista Foreign Affairs. Mas tais encontros são fechados para o público e a imprensa.

A maior parte da agenda bilateral está sendo encampada pelo ministro das Relações Exteriores. Até a quarta-feira, Patriota terá uma longa lista de encontros com representantes de governos nacionais, grupos de trabalho e organizações multilaterais, entre os quais Alemanha, Turquia, União Africana, Cruz Vermelha e os países Brics - Brasil, Rússia, China, Índia e Africa do Sul.

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