Revelação de programas de vigilância põe EUA em risco, diz chefe da inteligência

Por iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Perante a polêmica sobre a espionagem de telefonemas americanos e do uso da internet por estrangeiros, Clapper caracteriza vazamento de informações por jornais como 'repreensível'

A revelação da coleta em massa pelo governo dos EUA de registros telefônicos americanos e de uso da internet por estrangeiros desatou uma forte reação, forçando a principal autoridade de inteligência dos EUA a levantar a confidencialidade de detalhes-chave sobre o programa de vigilância secreta, em uma rara medida tomada para tentar conter uma provável onda de protestos.

Vigilância: EUA coletam secretamente registros telefônicos da Verizon

Rastreamento: EUA coletam secretamente dados de nove empresas de internet

AP
Diretor de Inteligência Nacional, James Clapper, é visto em foto de 21/04/2010

Cenário: Revelações sobre vigilância alimentam debate sobre privacidade nos EUA

Em um incomum comunicado na noite de quinta, o diretor de Inteligência Nacional, James Clapper, insistiu que os esforços eram legais, com escopo limitado e necessários para detectar ameaças terroristas. Ele criticou o vazamento dos documentos altamente confidenciais que revelaram os programas e alertou que a segurança americana sofrerá.

Clapper classificou a revelação de quinta nos jornais Washington Post, dos EUA, e Guardian, do Reino Unido, do programa que tem como alvo usuários de internet estrangeiros como "repreensível". Ele também afirmou que o vazamento de um programa que permite ao governo coletar os registros telefônicos dos americanos afetaria como os inimigos dos EUA se comportam e dificultaria a compreensão de suas intenções.

"A revelação não autorizada de um documento ultrassecreto de uma corte americana arrisca causar um prejuízo duradouro e irreversível à nossa habilidade de identificar e responder às muitas ameaças que confrontam nossa nação", disse Clapper sobre o programa de rastreamento de telefonemas.

Reação: Autoridades dos EUA defendem coleta de registros telefônicos da Verizon

A defesa do governo do presidente dos EUA, Barack Obama, aos dois programas ocorreu enquanto membros do Congresso prometiam mudar um programa que votaram para aprovar e ativistas das liberdades civis questionavam como Obama, um ex-acadêmico constitucional que lutou pelas proteções de privacidade quando senador, podia apoiar políticas com fortes ecos do presidente George W. Bush (2001-2009), cuja abordagem em relação à segurança nacional ele prometeu deixar para trás.

Senadores: EUA mantêm ampla base de dados de ligações telefônicas

Discurso: Obama limita extensão da luta contra o terror e defende drones

A revelação chega em um momento particularmente inoportuno para o governo Obama. Ele já enfrenta questões sobre o impróprio rastreamento pela Receita Federal de grupos conservadores e sobre a coleta de registros telefônicos de jornalistas em uma investigação sobre quem vazou informação à mídia.

Maio: Obama promete ação contra três controvérsias que afetam governo

Análise: Escândalos levantam dúvidas sobre o que Obama espera de seu segundo mandato

Em seu comunicado na noite de quinta, Clapper ofereceu novas informações sobre os programas de vigilância, dizendo querer corrigir a "impressão enganosa" criada por reportagens fora de contexto ao mesmo tempo em que reconheceu que a discussão pública dos pogramas vinha com riscos inerentes para a segurança.

Então, quase 24 horas depois de a existência do programa de telefones ter sido revelada pelo Guardian, Clapper adotou a rara medida de levantar a confidencialidade e divulgar publicamente detalhes sobre a autoridade usada para autorizá-lo, incluindo que ele é revisado por uma corte especial a cada três meses e que os dados coletados só podem ser inspecionados quando há uma suspeita razoável - apoiada em fatos - de que a informação tem relação com um grupo terrorista estrangeiro.

Um mandado judicial ultrassecreto, primeiramente revelado pelo Guardian, requer que a Verizon Business Network Services, uma subsidiária da Verizon Communications que oferece serviços a corporações, entregue diariamente à Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) todos os seus registros telefônicos "entre os EUA e o exterior" ou "totalmente dentro dos EUA, incluindo as chamadas telefônicas locais". Sob os termos da ordem, os números de telefones de ambas as partes da ligação são entregues, assim como a data, a duração e o horário da chamada. A ordem não se aplica ao conteúdo das comunicações. Segundo especialistas, é provável que o programa se estenda a outras companhias telefônicas.

Ação secreta: Departamento de Justiça obtém registros telefônicos de agência de notícias

Outro programa secreto que veio à tona quando o Washington Post e o Guardian informaram que a NSA e o FBI (polícia federal americana) podem rastrear as principais companhias de internet dos EUA, extraindo vídeo, emails e outros documentos para ajudar analistas a encontrar movimentos e contatos pessoais. Microsoft, Yahoo, Google, Facebook, PalTalk, AOL, Skype, YouTube e Apple estão entre essas companhias. A maioria delas negou dar ao governo acesso direto a suas informações.

AP
Placa do lado de fora do gabinete da Agência de Segurança Nacional (NSA)

Clapper alegou que as matérias jornalísticas "contém várias imprecisões". Ele não especificou quais seriam elas.

Funcionários graduados do governo defenderam os programas como ferramentas cruciais e disseram que a inteligência que eles reúnem está entre os dados mais valiosos que os EUA coletam. Clapper afirmou que o programa de internet, conhecido como Prism, não pode ser usado para intencionalmente ter como alvo americanos ou qualquer pessoa nos EUA. Ele disse que uma corte especial, o Congresso e o Poder Executivo fiscalizam o programa e que os dados acidentalmente coletados sobre os americanos são mínimos.

Segundo Clapper, as informações sobre o programa de telefones também foram tiradas do contexto. Sua defesa foi ecoada horas antes pelos líderes das comissões de inteligência do Congresso, que desconsideraram o furor sobre o que descreveram como a renovação padrão de três meses de um programa que é operado há sete anos. Os líderes das comissões disseram que o programa recentemente ajudou a evitar o que foi visto como um significativo ataque terrorista doméstico.

A NSA precisa coletar os dados telefônicos de forma ampla, disse Clapper, porque uma coleta restrita dificultaria identificar as comunicações relativas ao terrorismo. A corte proíbe o governo de inspecionar os dados telefônicos indiscriminadamente sem evidências de haver conexão com um grupo terrorista. Ele também afirmou que apenas equipes de contraterrorismo treinadas no programa podem acessar os registros.

Mas a noção disseminada de uma ferramenta do governo inspecionando suspeitos de terrorismo e americanos comuns uniu inimigos políticos para se posicionar juntos contra Obama enquanto ele reforça o que muitos viam como políticas relacionadas a Bush.

“Acredito que é uma informação privada quando americanos que cumprem a lei ligam para seus amigos, quando ligam ou de onde", disse Wyden. “Coletar os dados sobre cada telefonema que cada americano faz seria uma invasão enorme de sua privacidade", disse, acrescentando: "Agora teremos um real debate no Congresso e no país de algo que tinha de ter sido discutido há tempos."

Os poderes de vigilância foram concedidos sob o Ato Patriótico, que foi aprovado depois dos ataques do 11 de Setembro e renovado em 2006 e novamente em 2011.

*Com AP

Leia tudo sobre: registros da verizonregistros da internetprismeuaobamaato patrióticofisansa

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas