Oscar Niemeyer morre aos 104 anos

Arquiteto estava internado no Rio desde o início de novembro e teve insuficiência respiratória

iG São Paulo | - Atualizada às

O arquiteto Oscar Niemeyer morreu às 21h55 de quarta-feira (dia 5). Ele tinha 104 anos. Segundo médicos do hospital Samaritano, Niemeyer teve insuficiência respiratória.

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Niemeyer havia sido internado no início de novembro no mesmo hospital, em Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro, com um quadro de infecção respiratória e desidratação.

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O corpo de Niemeyer foi enterrado no início da noite de sexta-feira (dia 7), no cemitério São João Batista, no Rio. Na tarde de sexta, familiares, amigos e fãs do arquiteto realizaram ato ecumênico no Palácio da Cidade, onde música de Dorival Caymmi e a "Internacional Socialista" foram cantadas.

Além do Rio de Janeiro, Brasília também recebeu o corpo de Niemeyer. O velório ocorreu na quinta-feira, no Palácio do Planalto. Na capital do País, ministros como Aldo Rebelo (Esporte) e Celso Amorim (Defesa) foram prestar homenagens ao arquiteto . "Ele fez de tudo, mas não conseguiu fazer um estádio de futebol", disse Rebelo.

Nos últimos anos, Niemeyer já havia passado por internações no mesmo hospital para ser submetido a cirurgias de retirada da vesícula e de um tumor no cólon, e também para tratar uma infecção urinária.

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No Hospital

De acordo com o médico Fernando Gjorup, responsável por seu tratamento no Hospital Samaritano, Niemeyer estava acompanhado da mulher, Vera Lúcia Cabreira, e cerca de dez pessoas da família quando morreu, na unidade coronariana. "Desde ontem, ele teve sinais de piora, nos exames laboratoriais, com infecção respiratória. Hoje (dia 5) de manhã, foi entubado e ventilado por aparelhos. Ele não tolerou", explicou o médico.

"De repente começou a ficar quietinho, quietinho", contou Vera Lúcia sobre os últimos dias do arquiteto no hospital.

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Gjorup revelou que durante a internação de 33 dias o arquiteto chegou a conversar sobre projetos futuros e nunca falou sobre morte.

Dias antes de morrer, Niemeyer mantinha o bom-humor e a crença de que sairia em breve do hospital . Ao enfermeiro que cuidava dele, dizia: "Temos que fazer o nosso samba!".

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Mesmo com 104 anos, Niemeyer não parava de trabalhar e deixou vários projetos em andamento . Entre eles, estão uma universidade, uma igreja, uma vinícola, um centro cultural, uma revista trimestral que já está em sua 11ª edição e um livro, centrado em museus e centros culturais que ele criou pelo mundo

Após completar 100 anos, Niemeyer tomava aulas semanais de filosofia, cosmologia e física . “Nunca houve dúvida de que o mestre era ele”, disse ao iG o professor Luiz Alberto Oliveira.

O brasileiro deixou prontos projetos de universidade, vinícola e igreja , que estão em andamento no mundo.

A morte de Niemeyer foi destacada pela mídia internacional , com textos que comentam sua importância para a história da arquitetura mundial. "Morre Niemeyer, o poeta da curva", afirma o título destacado na edição online do diário espanhol El País. "O mundo da arquitetura está de luto por um de seus grandes nomes", afirmou o diário alemão Frankfurter Allgemeine.

Em entrevista à rede BBC em 2001 , Niemeyer dizia ver o homem como "um ser completamente abandonado", e que entendia a vida como "um sopro, um minuto" - justificando assim sua falta de interesse pelo dinheiro. Perguntado se havia ganhado dinheiro com a construção da capital federal, o arquiteto disse: "Eu ganhava em Brasília salário de funcionário. Então eu fechei meu escritório e Brasília só me deu prejuízo".

O arquiteto Rodrigo Ohtake, em texto especial para o iG , afirma que "Oscar Niemeyer é o maior do século 20" . "O reconhecimento universal de Oscar Niemeyer é motivado pela sua extrema competência em surpreender constantemente o frequentador e sempre inovar sua linha autoral inquestionável", escreve Ohtake.

Arquitetos ouvidos pelo iG  afirmam que Niemeyer deixou uma herança imensurável na arquitetura brasileira e internacional. "A obra de Niemeyer tem muito mais poesia que tecnologia", disse Carlos Bratke.

Luiz Roberto Lima/Futura Press
Vera Lúcia, mulher de Oscar Niemeyer, no hospital Samaritano, no Rio

A morte de Niemeyer causou comoção no Brasil . Em nota oficial, a presidenta da República, Dilma Rousseff, citou uma frase do arquiteto, para quem “a gente tem que sonhar, senão as coisas não acontecem”. De acordo com Dilma, “poucos sonharam tão intensamente e fizeram tantas coisas acontecer como ele”. Para a presidenta, “sua história não cabe nas pranchetas. Niemeyer foi um revolucionário, o mentor de uma nova arquitetura, bonita, lógica e, como ele mesmo definia, inventiva”.

O crítico de arquitetura Nicolai Ouroussoff afirmou que Oscar Niemeyer "absorveu" o modernismo europeu e o transformou em "identidade brasileira" . Para Ouroussoff, o brasileiro "reinventou o modernismo com sua própria linguagem e identidade nacional".

Se muitos celebram a obra de Niemeyer, alguns especialistas veem "esgotamento" criativo em parte do trabalho do arquiteto . "Hoje existe uma 'marca Niemeyer' na arquitetura, tanto que quase todas (as suas obras recentes) são encomendas de memoriais ou homenagens sem grande função prática", afirma Rodrigo Queiroz, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). "O que muitas autoridades e empresas querem é apenas ter uma obra de um dos grandes arquitetos da história recente, não importando muito para quê."

Biografia

Nascido Oscar Niemeyer Soares Filho em 15 de dezembro de 1907, no Rio de Janeiro, Oscar Niemeyer foi o principal arquiteto brasileiro da história.

Formou-se em arquitetura pela Escola Nacional de Belas Artes em 1934 e, dois anos depois, integrou a comissão criada para definir os planos da sede do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, com a supervisão do arquiteto suíço Le Corbusier (1887-1965).

Frases: 'Para mim o importante é a vida, conhecer as pessoas, haver solidariedade'

Entre 1940 e 1944, projetou, por encomenda do então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek (1902-1976), o conjunto arquitetônico da Pampulha. As construções são um marco em sua obra, porque pela primeira vez utiliza superfícies curvas, explorando as possibilidades plásticas do concreto armado.

Em 1947, é convidado pela Organização das Nações Unidas a participar da comissão de arquitetos encarregada de definir os planos de sua futura sede em Nova York. Seu projeto, associado ao de Le Corbusier, é escolhido como base do plano definitivo.

Em 1956, o presidente da República, Juscelino Kubitschek, o convida a colaborar na construção da nova capital do Brasil, Brasília, cujo plano urbanístico é confiado a Lucio Costa. Em 1958, é nomeado arquiteto-chefe de Brasília, para onde se transfere e permanece até 1960.

Entre os projetos mais importantes de Niemeyer destacam-se o Parque Ibirapuera, em São Paulo, de 1951; a sede do Partido Comunista Francês, em Paris, de 1965; a Escola de Arquitetura de Argel, na Argélia, de 1968; o Memorial da América Latina, em São Paulo, de 1989; e o Museu de Arte Moderna, em Niterói, de 1996.

Casou-se pela primeira vez em 1928, aos 21 anos, com Anita Baldo. O casal teve uma filha, Anna Maria Niemeyer (1931-2012), que deu ao arquiteto cinco netos e treze bisnetos. Ficou viúvo em 2004 e, dois anos depois, casou-se com sua secretária, Vera Lúcia Cabreira.

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