São Paulo tem dificuldade em lidar com criminoso 'profissional', diz especialista

Apesar da queda dos homicídios, latrocínios e roubos seguem em alta no Estado de São Paulo nos primeiros meses do ano

Alexandre Dall'Ara, iG São Paulo |

AE
Prédio no bairro da Liberdade invadido em arrastão

Os índices de homicídio no Estado de São Paulo caíram abaixo do patamar considerado epidêmico pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O marco, atingido ano passado, manteve-se nos índices de 2012, mas bom resultado não se repete no caso dos crimes contra o patrimônio, como roubo e latrocínio - roubo seguido de morte -, que aumentaram nos primeiros meses deste ano .

Em fevereiro deste ano, os latrocínios no Estado registraram alta de 12,5% em relação ao mesmo período de 2011. O roubo de veículos cresceu quase 18%.

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Segundo Guaracy Mingardi, cientista político e pesquisador do Centro de Pesquisa Jurídica Aplicada da Direito GV, o que diferencia os dados é o caráter “profissional” dos crimes de roubo, furto e latrocínio. Para ele, o homicídio é afetado diretamente pela melhoria da qualidade de vida e dos índices de desemprego, por exemplo. “No homicídio tem muito amador, pessoas que matam por bobeira, briga de bar. Nos crimes patrimoniais, os ladrões são mais profissionais, as mudanças sociais influem mais lentamente”.

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Mingardi não atribui o sucesso dos índices de homicídio exclusivamente à polícia paulista. Ele diz que é possível que instituição esteja mais eficiente, principalmente no combate às armas de fogo, mas explica que a redução se deve “a uma série de fatores [sociais] que não envolvem a polícia”. O pesquisador critica ainda a falta de investigação dos crimes contra o patrimônio. “Menos de 10% são investigados. O que acontece é que a Polícia Civil foi se burocratizando e virou uma fábrica de boletins de ocorrência”.
O Diretor do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil, Jorge Carrasco, diz que a polícia paulista têm índices melhores do que a média brasileira. “O índice de esclarecimento [dos crimes] é de 25% a 35% dos casos”. Carrasco destaca que para os latrocínios esse número chega a 50%. O diretor considera bons os resultados da Polícia Civil e explica que a resolução dos casos vem contribuindo para acabar com a sensação de impunidade.

Queda histórica

Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública, a queda dos homicídios foi de 4,4% em 2011. Foram mortas 9,8 pessoas para cada grupo de 100 mil habitantes do Estado, número inferior à média nacional, de 22. A OMS considera 10 mortos por 100 mil o marco epidêmico de homicídios. O índice do crime contra a vida permaneceu em queda de 2% em janeiro e fevereiro de 2012. Nos últimos 12 anos, a redução chegou a quase 72%.

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Para o Coronel Marcos Roberto Chaves, comandante do policiamento da capital paulista, a atuação policial interferiu diretamente nos números. Ele explica que 30% do efetivo da Polícia Militar é dedicado ao policiamento comunitário. “O homicídio acontece próximo à residência do autor. A Polícia Comunitária cria uma relação com os moradores e gera grande redução desse tipo de crime na região”.

Ele concorda, no entanto, que o combate aos crimes patrimoniais envolvem outros desafios. “O roubo tem outra característica, ele é praticado em regiões distantes [da residência do autor] e a filosofia de polícia comunitária não gera esse ‘freio social’”. Chaves ressalta também que os índices de roubo são menos confiáveis porque as vítimas nem sempre registram o crime. Essa imprecisão pode afetar o planejamento das ações policiais preventivas. O Coronel conta que os policiais procuram ouvir a comunidade local para ter informações mais corretas. “Nós também sempre indicamos às vítimas que, pelo menos, liguem ao 190 para informar o roubo, assim temos pelo menos a descrição do crime, horário e local, por mais que isso não entre para o registro oficial”.

Roubos a residências preocupam

O orçamento da Secretaria de Segurança Pública paulista cresceu nos últimos anos. Ele saltou de 2 bilhões nos anos 1990 para 12 bilhões em 2012. Segundo o Diretor do DHPP, Jorge Carrasco, a Polícia Civil tem investindo em tecnologia e mapeamento dos crimes. O cientista político Guaracy Mingardi, no entanto, diz que faltam equipamentos para o combate ao crime.

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Para o pesquisador, que participou da criação do setor de análise criminal Ministério Público do Estado de São Paulo, a polícia precisa de um banco de dados que cadastre a forma de agir dos criminosos. Ele explica que é fundamental saber como os bandidos agem, em que horários e locais atuam, qual o tamanho das quadrilhas, entre outros detalhes.

O Coronel Chaves, da Polícia Militar, diz que a PM trabalha para identificar as formas de atuação dos criminosos e vem tendo resultados. Ele destaca que em alguns momentos são identificados ondas de crime, como o que aconteceu recentemente com o assalto a shoppings e caixas eletrônicos. Esses crimes se tornam mais comuns quando os bandidos identificam uma vulnerabilidade.

Segundo a PM, a preocupação mais recente é com os assaltos a carros em semáforos. Eles apresentam riscos à vítima por serem feitos a mão armada e terem chance de terminar em morte quando há reação. Assaltos à residência também despertam especial atenção, diz o Coronel. “Eles tem acontecido com cada vez mais bandidos, com 4 ou 5 assaltantes, porque eles sabem que a reação da polícia será rápida”. Chaves explica que os diferentes crimes exigem ações específicas e diz que a PM age para desenvolver métodos de prevenção e combate adequados.

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