"Eu não vi morte encefálica em nenhum dos casos", diz denunciante

O médico Roosevelt Sá Kalume afirmou que os órgãos retirados das pessoas ainda vivas eram levados para São Paulo

iG São Paulo |

AE
O médico Pedro Henrique Masjuan Torrecillas é um dos acusados do crime em Taubaté
O médico Roosevelt Sá Kalume, principal denunciante no julgamento do caso Kalume, no qual três médicos de Taubaté, cidade do interior de São Paulo, são acusados de terem provocado a morte de quatro pacientes entre setembro e dezembro de 1986, prestou depoimento no Tribunal do Júri nesta segunda-feira. Segundo a acusação, os médicos usavam diagnósticos falsos de morte encefálica para extrair os rins dos pacientes vivos e utilizá-los em uma rede de transplante de órgãos.

Seu depoimento teve início às 14h45 e durou cerca de duas horas, transformando-se ao final em um debate sobre o conceito de morte encefálica. "Dentro da minha concepção eu não vi morte encefálica em nenhum dos casos apresentados. Se eu morrer, só quero ser enterrado quando meu coração parar", disse o médico, que na época era diretor do departamento de medicina da Universidade de Taubaté.

Kalume disse que os órgãos que eram retirados dos pacientes eram levados para São Paulo pela Polícia Rodoviária Federal, conforme lhe foi informado pelo médico Antônio Aurélio de Carvalho Monteiro, que faleceu em maio deste ano. Ele e os demais médicos Pedro Henrique Torrecillas e Rui Noronha Sacramento, com a participação do médico Mariano Fiore Júnior, são os réus no processo. Todos eles sustentam que são inocentes e que a denúncia é mentirosa.

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A enfermeira Rita Maria Pereira, cujo depoimento antecedeu o de Kalume, confirmou ter presenciado a retirada dos rins do paciente José Carneiro, que foram colocados numa caixa. Segundo ela, logo depois desse procedimento, o médico Pedro Henrique Torrecillas teria usado um bisturi para cortar o peito de Carneiro, quando o paciente se debatia na tentativa de levantar da maca.

"O doutor Torrecillas pegou um bisturi e enfiou no peito do paciente e disse: 'Viu? É assim que se faz", afirmou a enfermeira. Carneiro teria parado de se bater e a enfermeira, aconselhada por outro médico, a não comentar com ninguém os fatos que havia presenciado. Outras cinco testemunhas de acusação foram ouvidas até às 18h20

Uma das depoentes, a médica Gilzélia Fernandes Batista, que na época do caso Kalume era responsável pelo departamento que armazenava os prontuários do hospital onde faleceram as pessoas citadas no processo, disse que não houve sumiço de documentos . Ela foi a primeira a ser ouvida. "Também não tenho conhecimento de alterações nos prontuários", disse. Ela explicou que, por causa da repercussão do caso, guardou os prontuários em um cofre de materiais radioativos, no subsolo do hospital, onde funcionava o serviço de radioterapia.

O primeiro dia de julgamento foi encerrado às 19h45, sendo que foram ouvidas sete testemunhas de acusação e uma de defesa. O julgamento será retomado terça-feira (18), a partir das 9h, com o depoimento de outras testemunhas de defesa.

* Com informações da Agência Estado e Agência Brasil

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