Apesar do medo e desconfiança, moradores apoiam ação na Cracolândia

Não quero me iludir e pensar que finalmente vou ter paz e segurança", diz comerciante. Moradora diz estar "mais insegura

Carolina Garcia, iG São Paulo |

Carolina Garcia
Grupo de usuários migram por diversas ruas e continuam usando crack na região central
Moradores e comerciantes da região conhecida como Cracolândia, no centro da capital paulista, palco de uma ação da integrada do governo do Estado e da Prefeitura de São Paulo, ainda veem com desconfiança a ação policial contra o tráfico e consumo do crack na região. A forte presença da Polícia Militar e ações de limpeza nas ruas da Cracolândia demonstram a intenção da primeira fase de reconstrução do local . Mas ainda assim, durante visita do iG no local nesta segunda-feira, no sétimo dia de operação da PM, o forte mau cheiro e o lixo ainda indicam a presença de usuários de crack que ainda estão pela região central da cidade, mas em menores grupos e espalhados por diversos pontos.

Antes e depois: Veja cenas da Cracolândia
Bastidores: Operação na cracolândia foi deflagrada pelo 2º escalão
Problema disseminado: Em São Paulo, até piscinão é usado como cracolândia
'Dor e sofrimento': São Paulo usa 'dor e sofrimento' para acabar com Cracolândia

O problema: Em meio à epidemia de crack, Brasil fracassa em tratamento para dependentes

Como divulgado pela PM, a primeira fase da ação na Cracolândia, iniciada na última terça-feira (3), consiste em quebrar a estratégia do tráfico e eliminar as aglomerações de usuários e traficantes nas ruas do centro. Nas ruas Helvétia, Glete, Dino Bueno e na avenida Rio Branco, usuários ainda são vistos vagando, pedindo dinheiro e, muitas vezes, brigando por comida.

Moradores e comerciantes da região dizem considerar a ação policial como um importante avanço, mas que ainda deve ser celebrado com cautela. “Não quero me iludir e pensar que finalmente vou ter paz e segurança. Hoje a PM está aqui, mas não sei até quando isso vai durar”, é o que diz Marcelo Oshiro, dono de uma banca de jornal há três anos na av. Rio Branco.

Carolina Garcia
Fachada do prédio cercado pela polícia na região central
Oshiro explica que não era comum encontrar usuários de drogas na região da sua banca. “Sei o quanto é importante acabar com aquilo lá [Cracolâdia], mas agora tenho um novo problema. Eles andam sem rumo e tenho medo do que podem fazer para conseguir a droga já que não estão concentrados como antes”, diz preocupado. Essa é posição de muitos outros moradores e comerciantes que, devido ao medo e insegurança, pediram para não ser identificados na reportagem.

Na rua Dino Bueno, casas e bares dividem espaço com prédios abandonados usados como abrigos pelos usuários. Um deles é um casarão com uma enorme quantidade de lixo e itens possivelmente roubados, segundo agentes da PM. Acredita-se que era um dos maiores pontos utilizados por viciados e traficantes. O local permanece vigiado 24h pelos militares para que novas invasões sejam evitadas.

Formigueiro

Para Fran, balconista de uma agência de turismo, “a operação é necessária, mas mexeu em um formigueiro”. Ela mora entre a praça General Osório e av. Rio Branco há cinco anos. “Está quase impossível dormir de madrugada com o barulho que eles fazem quando passam na região da minha casa”.

Segundo ela, mesmo com a constante presença da polícia, está “muito mais insegura”. “Antes para evitar qualquer susto, mudava os caminhos para a minha casa. Agora, com PM tocando eles para qualquer lado, estamos sem opção. Eles estão em todos os lugares”, explicou.

Raiva e agressões

Carolina Garcia
Policiais abordam usuário na avenida Rio Branco. Em seguida ele levanta, anda e se deita na rua seguinte
Em diversas oportunidades, comerciantes da região alertam a imprensa para evitar registrar imagens e se aproximar dos usuários. “Não é nem muito legal a gente conversar com vocês. Eles pensam que polícia só fez isso depois de tanta divulgação na imprensa”, explica o gerente de posto de combustíveis, Juarez Ribeiro da Silva, de 42 anos. Não são poucas as vezes que usuários se tornam agressivos ao ver fotógrafos e jornalistas

Trabalhando há oito anos na esquina da alameda Nothmann com av. Rio Branco, Silva explica que na última semana teve que fechar o banheiro e a loja de conveniência do posto. “Eles já chegam entrando e mexem em tudo. A polícia está aqui, mas parece que eles não têm medo”, explica o gerente dizendo ainda que muitos rejeitam e se tornam agressivos quando são convidados para receber tratamento.

    Leia tudo sobre: Cracolândiacrackdrogastráficooperaçãopm

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG