Os seios de Scarlett Johansson

Por Paulo Ghiraldelli especial para o iG |

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Única eleita duas vezes a mais sexy do mundo pela Esquire, atriz representa abandono da ideia tradicional de beleza

Não é por causa da bunda, mas pelos peitos, sem dúvida. Scarlett Johansson foi eleita a mulher mais sexy do mundo pela revista Esquire, e pela segunda vez! Todavia, corrijo-me: os seios são naturalmente volumosos e bem dispostos, mas ela surpreende pela boca e, é claro, por se dar bem como loira sem ser aguada. Sem contar que sorrindo mantém o padrão de atriz americana, mas não precisa desse recurso para ser “hot”, o que lhe dá um trunfo em fotos não posadas.

Divulgação
Scarlett Johansson, "uma mulher que provoca"

A atriz americana está com 28 anos. Explora a idade apontada pelos literatos como sendo a de transformações misteriosas, que marcam um ponto de inflexão no corpo e na personalidade da mulher. No livro Do Amor, Stendhal deixou claro que 28 anos é a idade em que a mulher mais se mostra pronta para o amor, em todos os sentidos. Inclusive, é sua fase mais arrebatadora. Ora, é exatamente isso que tem a ver com Scarlett Johansson, uma vez que ela não participou de um concurso de beleza propriamente dito, e sim do concurso “a mais sexy”. Trata-se da mulher que provoca. Quase que a antítese da beleza como em geral definida pela filosofia, em especial a do século XVIII, com Kant à frente.

Kant nos ensinou que a beleza que proporciona prazer estético é uma beleza que não pode provocar interesse. Ou melhor: o juízo de belo expressa o “interesse desinteressado”, como lembra bem Roger Scruton (1). O interesse desinteressado é aquele interesse que não visa trazer o objeto para nós, de modo que possamos consumi-lo ou trocá-lo, mas é o interesse de podermos contemplar o objeto pelo que ele é nele mesmo. Ora, essa noção de beleza e de juízo estético nunca deixou de ser controversa. Por isso mesmo, sempre houve dúvida se podíamos ou não falar de beleza, em termos da estética filosófica, quando se tratava de “concurso de Miss”, principalmente quando esses concursos eram famosos, ou seja, antes do vagalhão feminista. Como teríamos diante da figura da mulher um interesse desinteressado? Teríamos de proferir um juízo estético como aquele que vê a beleza em uma cena natural, um por do sol, por exemplo?

Ora, os concursos com mulheres se livrou desse problema do juízo estético. Deixamos de lado “a mais bela” e passamos a ter a “miss bumbum”, a “miss verão”, a “miss praia” e, enfim, a “miss sexy”. Uma mulher sexy é bela? Ora, sim, mas essa não é mais a questão, porque ser sexy é alguma coisa que se define exatamente pelo ato de provocar. Meu desejo é atiçado pela beleza sexy. Meu interesse deixa de ser desinteressado. Para avaliar uma mulher como sexy o que tenho de saber é se a sua figura me provoca, e se sim, em que grau. Fica mais fácil mensurar graus de erotismo em mim do que avaliar um ponto ótimo no “interesse desinteressado”. Estou diante de um tipo de concurso de beleza que eliminou o dilema do juízo do belo, trazendo para a mesa de votação algo bem menos problemático.

Em um concurso de beleza seria grosseiro falar em “bunda” ou “peito”. Nem mesmo se falava em “quadril” e “busto”, mas em medida do quadril e em medida do busto. Não se falava em “boca”, ainda que os mais ousados pudessem comentar sobre “os lábios”. O vocabulário era o das medidas e harmonias. Mas, em um concurso da “mais sexy”, o vocabulário pode se atualizar sem medo. Não é errado falar em partes da mulher, como efetivamente falamos hoje em dia. Tais partes devem atrair, devem provocar interesse, devem fazer os olhos se abrirem e a respiração se alterar.

A beleza não tem som. Ou se tem, é um som meio que silencioso. A mulher sexy tem som. Ela parece carregar, em seu silêncio, uma trilha sonora. Pois é impossível que Eros não faça algum barulho. Mesmo sendo sorrateiro, não há como não ouvir o bater de suas asas.

Os seios de Scarlett Johansson parecem que vão saltar dos seus sutiãs e que isso irá gerar um barulho agradável. Eles não parecem que vão saltar de forma rápida. Dão a impressão que irão naturalmente aparecer como em câmara lenta, do mesmo modo que a boca semiaberta da atriz está sempre sugerindo um pedido de beijo. Scarlett parece nos atrair para alguma coisa. Aliás, ela nos faz lembrar uma outra observação de Stendhal, a de que “uma amante é alguém para se esfregar”. Ora, nada que é belo deve nos provocar assim. Mas o que é sexy é diferente do que é belo.

Ter abandonado a ideia de beleza e optado pela ideia “do sexy” foi uma redescrição útil de modo a poder absorver sob novas regras um “concurso de miss” de nossos tempos. Nesses novos tempos, é necessário que exista na mulher, como em tudo que é para ser apreciado, o exagero, o quase caricaturesco. Em uma sociedade de gente entediada pela insensibilidade, é necessária a mobilização de todos os sentidos e sentimentos de modo a obter ainda alguma reação de um homem diante de uma mulher.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

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