Ataques do 11 de Setembro desataram onda de crises econômicas

Com bases mais sólidas, Brasil sofreu menos com a turbulência e assumiu papel de destaque na tomada de decisões em novo cenário mundial

Ilton Caldeira, iG São Paulo |

Os ataques terroristas do 11 de setembro contra as Torres Gêmeas do World Trade Center (WTC), em Nova York, e o prédio do Pentágono, em Washington, abalaram mais que os símbolos do capitalismo. Atingiram também a estrutura da economia mundial, com reflexos muito presentes até hoje, uma década depois dos atentados, em praticamente todo o mundo.

Para alguns especialistas, as turbulências na economia durante esta década são reflexos, em grande parte, das decisões tomadas pelas autoridades americanas após os ataques. Exemplos disso são as mudanças na política econômica com juros mais baixos, estímulos ao consumo, falhas na regulação do sistema financeiro, descaso com a evolução do endividamento das famílias, farta oferta de crédito e as guerras no Iraque e no Afeganistão, que demandaram investimentos bilionários no setor bélico.

Associated Press
Operadores nervosos no pregão de Nova York (04/08)
Apesar de ter registrado crescimento neste período, a maior economia do mundo não conseguiu mostrar sinais claros de uma sólida recuperação sustentada após os atentados. Como consequência, as economias da Europa e do Japão, que passam por um longo período de baixo crescimento, foram a reboque das oscilações vividas na economia dos EUA.

Nesse cenário, o Brasil e as economias emergentes sofreram impactos menores e ocuparam mais espaço na tomada de decisões dentro da nova ordem mundial da economia. Ao contrário do que ocorreu nos EUA - onde a classe média, que sempre foi o principal motor da economia americana, sofreu os maiores impactos da crise -, no País houve redução da desigualdade com políticas sociais e mercado de trabalho pujante, elevação da renda, mobilidade social (com mais pessoas deixando a pobreza), inflação e contas públicas mais ajustadas e um mercado financeiro saudável.

Na avaliação do professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas Maurício Santoro, os problemas econômicos pelos quais passa o mundo atualmente tiveram sua gênese, em parte, após o 11 de Setembro. “Para evitar uma desaceleração econômica naquela época o governo dos EUA reduziu os juros e estimulou o consumo da população”, disse.

“Com baixas taxas de retorno, a população começou a consumir e a procurar opções mais rentáveis de investimentos, como a bolsa de valores. Muitos compraram casas com financiamento a juros baixos, pegaram empréstimos colocando imóveis como garantia e foram investir em ações e consumir mais, alimentando o descontrole sobre as finanças pessoais e o sistema financeiro como um todo. Construíram um castelo de cartas que ruiu com a crise financeira de 2008”, afirmou.

Nesse período de uma década desde os ataques, a economia americana teve momentos de crescimento, mas sem aumento na criação de postos de trabalho. A taxa de desemprego ficou durante muito tempo entre 4% e 4,5% e agora atinge cerca de 9%. “Entre os homens negros, jovens e com ensino médio essa taxa é bem maior e revela o desequilíbrio social que ocorre nos EUA”, disse Santoro.

Esse cenário amplia o clima de medo e insegurança e faz com que as empresas e as pessoas comuns adiem investimentos e a compra de produtos menos essenciais. E as economias mais maduras, como a dos Estados Unidos, Europa e Japão, dependem muito do consumo privado.

Processo inverso no Brasil

O Brasil, entre as nações emergentes, viveu uma realidade oposta. O País se beneficiou do processo de alta das commodities, reflexo da enorme demanda da China e da Índia por alimentos e produtos básicos. A demanda americana diminuiu, e o mercado externo dos EUA perdeu participação como destino para as exportações do Brasil.

Para os analistas, houve uma alteração importante no eixo da economia ao longo da década, causada pela invasão americana ao Iraque e seus efeitos sobre as cotações do petróleo, com impactos no mundo todo. No fim de 2000, a cotação do barril do petróleo dos tipos Brent e WTI estava em US$ 28,50 e US$ 30,37, respectivamente. Em 2004, um ano após a ocupação do Iraque e a queda do ditador Saddam Hussein, a cotação do barril já superava os US$ 40 e seguiu uma valorização extraordinária fechando 2008, ano da crise financeira internacional, em mais de US$ 100.

Creomar Lima de Carvalho Souza, professor de Relações Internacionais no Ibmec Brasília e especialista em economia internacional e dos EUA, cita que o Iraque é um dos maiores produtores do mundo e o Oriente Médio é um dos principais fornecedores de energia do planeta. “Criou-se um foco de animosidade na região que mais produz petróleo no mundo com a invasão americana”, disse o especialista. “Esse cenário somado ao apetite voraz da China por energia, exerceu uma grande contribuição para deteriorar o cenário econômico ao longo dos anos.”

Na questão energética, o Brasil também conseguiu manter-se mais protegido das oscilações com as novas descobertas de petróleo e gás e a ampliação da capacidade de produção de derivados, praticamente não dependendo mais das importações desses produtos.

Para Santoro, da FGV, a disparada nos preços do petróleo após as operações americanas no Oriente Médio teve outro efeito: transformar atores políticos secundários, como Hugo Chávez, em um ator de destaque. “Talvez, sem o 11 de Setembro e as investidas americanas no Iraque após os ataques e suas consequências na valorização do petróleo, ele seria um fenômeno passageiro”, disse.

Segundo Lima, os EUA deram outras contribuições para minar a confiança da economia mundial. O presidente George W. Bush (2001-2009) herdou do antecessor, Bill Clinton (1993-2001), uma economia em crescimento e geradora de sucessivos superávits anuais. E duas frentes abertas por Bush, uma no campo externo, com a invasão do Iraque, e outra interna, com a desoneração de impostos incidentes sobre as grandes fortunas e as grandes corporações e mudanças no sistema financeiro, alteraram o ritmo de crescimento da economia.

Selmy Yassuda
Primeiro produtor do pré-sal de Santos, navio-plataforma que fez 1º teste de longa duração em Lula (ex-Tupi) produz em média 20 mil barris diários de petróleo (21/3)
“Com esses movimentos, houve em poucos anos uma mudança rápida, com os EUA saindo de uma situação muito confortável para um quadro de caos no ambiente financeiro”, explicou o professor. “O foco na guerra ao terror tirou de cena uma maior preocupação com a preservação dos pilares da economia.”

Esse crescimento da desigualdade e da insatisfação nos EUA ajudou a eleger Barack Obama como presidente em 2008, que vinha com um novo discurso. Mas também ajudou a ampliar a radicalização de alguns segmentos da política americana. “O discurso mais inflamado de alguns setores contrários a uma revisão profunda da economia se alinha com interesses menores de alguns políticos”, afirmou Santoro, da FGV.

A forma como a economia americana se coloca hoje precisa de uma reestruturação, segundo os especialistas. É necessário um melhor aparato de fiscalização e regulação do sistema financeiro e uma política de desenvolvimento mais eficiente.

“A próxima década americana é a da definição. Se o país optar por um caminho defendido por uma ala minoritária conservadora e à direita das forças políticas dos EUA é provável que se amplie o fosso das diferenças sociais”, analisa Lima. “E isso pode ter um custo enorme para as próximas gerações”, complementa.

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