O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) falou sobre a possibilidade de concorrer às eleições presidenciais de 2026. Durante discurso no encerramento do 17º Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores , realizado neste domingo (3), em Brasília, o petista afirmou que, para ser candidato, precisa ser muito honesto consigo mesmo sobre sua saúde e só vai disputar o pleito se estiver “100% de saúde” .
“E eu tenho dito dentro do PT, para alguns companheiros, que para eu ser candidato tenho que ser muito honesto e sincero comigo. Para ser candidato, eu preciso dar 100% de saúde. Eu decidir ser candidato para depois acontecer comigo que aconteceu com o [Joe] Biden, jamais eu irei enganar o partido, irei enganar o povo brasileiro” , assegurou Lula.
O ex-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, revelou em maio deste ano que foi diagnosticado com câncer de próstata em estágio avançado, já com metástase nos ossos. Durante seu mandato na Casa Branca, o norte-americano apresentava sinais de fragilidade, e relatos divulgados pela imprensa indicam que assessores próximos teriam tentado ocultar do público outros indícios do agravamento de sua saúde , ainda antes das eleições de 2024.
Biden disputou a reeleição como o presidente mais velho da história dos Estados Unidos, aos 81 anos, mas acabou desistindo da candidatura, cedendo espaço à então vice-presidente, Kamala Harris . Ela assumiu a cabeça de chapa, mas foi derrotada nas urnas por Donald Trump .
Lula demonstra preocupação com a possibilidade de repetir o cenário da última eleição presidencial dos Estados Unidos. O petista foi o presidente mais velho a assumir a presidência do Brasil em 2023, iniciando seu terceiro mandato aos 77 anos. Caso confirme a candidatura em 2026, também será o mais idoso a disputar a reeleição. Nos bastidores, há apreensão com episódios de saúde enfrentados pelo petista . O mais recente envolveu uma crise de vertigem e labirintite , que o levou a cancelar compromissos oficiais e passar por uma série de exames no Hospital Sírio-Libanês, em Brasília.
Antes disso, Lula passou por uma cirurgia na cabeça, em dezembro de 2024, após uma queda. Apesar desses sinais, o presidente assegurou que está em pleno vigor físico e mental. “Quando eu falo que eu tenho 80 anos e energia de 30, vocês podem não acreditar, mas hoje eu me sinto mais saudável do que quando eu tinha 60 ou 65 anos. Eu me cuido mais. Tem uma mulher que me cuida muito” , afirmou.
“Eu estou preparado, no momento exato, para dizer para vocês, e quero que os meus adversários saibam, que se eu for candidato, eu não vou disputar, eu vou ser candidato para ganhar as eleições” , garantiu Lula.
Lula dá o tom das eleições
O presidente aproveitou o discurso para orientar a estratégia do partido nas próximas eleições. Lula defendeu que o PT precisa ser mais criterioso na escolha de seus candidatos e avaliar com mais rigor a viabilidade eleitoral de cada nome que se coloca à disposição para disputar cargos públicos.
“É preciso ter coragem para olhar para o soldado e dizer: ‘Vamos à guerra’. Mas a mesma coragem é necessária para olhar na calmaria e dizer: ‘Vamos parar a guerra’. Essa é a diferença entre um líder e um bravateiro, entre alguém sério e alguém que não é. E é disso que o PT precisa” , aconselhou Lula.
Lula ressaltou que o PT vive uma divisão interna, com “três ou quatro tendências em alguns estados” , mas que se trata, na verdade, de visões pessoais que não refletem as diretrizes ideológicas e políticas do partido. “Isso precisa acabar. Não é possível que a sigla seja vítima de picuinhas entre relações pessoais” , determinou.
“É importante as pessoas quererem ser alguma coisa. Mas, mais importante ainda, é perguntar se o partido quer que ela seja. Aqui acontece uma coisa muito curiosa: o sujeito se autodeclara candidato sem consultar ninguém, e depois impõe a candidatura ao partido. Seja para vereador, deputado estadual ou qualquer outro cargo. O partido precisa ter protagonismo para articular se o candidato será novo ou não, se faremos alianças ou não, quais são as chances reais de vitória” , avaliou Lula.
O presidente disse que o partido precisa “olhar com atenção para as eleições de 2026” , com o objetivo de ampliar a base petista no Congresso Nacional . A meta, segundo Lula, é eleger uma maioria no Senado e frear o crescimento da bancada da oposição, que, atualmente, conta com 25 senadores. “Se [a oposição] eleger mais 17 senadores, chegam a 41 e fazem maioria. Precisamos avaliar com seriedade quem quer ser candidato, se há apoio, se há viabilidade. Porque, senão, o sujeito é candidato quando quer, e deixa de ser quando quer. Se não mudarmos isso, não normalizamos o partido que fundamos para representar de fato o povo brasileiro” , avaliou.
“É preciso mudar nosso comportamento. Tem gente no governo que não paga o PT. Precisa pagar, Gleisi. Se tiver ministro do PT que não contribui com o partido, me passa os nomes. Não faz sentido. Hoje, se analisarmos corretamente, um deputado é mais forte que o partido nas eleições. Por quê? Porque ele recebe R$ 40, 50, até 60 milhões em emendas. Faz acordos com vereador, prefeito, e o partido fica mendigando candidatura nova, sem estrutura” , reclamou Lula.
O presidente reconheceu que esse tipo de conselho é difícil de ser aceito dentro do partido, mas que são conversas necessárias para o PT se posicionar nas próximas eleições. “É isso que dá direção ao partido. O PT é o maior instrumento político já criado pelo povo brasileiro. E quando falo isso, não é com soberba. Esse país teve dois grandes momentos de inclusão social. O primeiro foi com Getúlio Vargas — ditador, sim, mas criou o salário mínimo, a CLT. O segundo grande momento foi o nosso. Nenhuma outra política de inclusão social chegou perto da que nós implementamos” , destacou.
Relação com o Congresso
Lula também voltou a ressaltar a dificuldade que o governo tem de dialogar com o Congresso Nacional. Na sexta-feira (1º), durante a abertura do 17º Encontro Nacional do partido, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reconheceu que o Executivo tem uma base frágil no Legislativo .
Nesse sentido, Lula acrescentou, no discurso deste domingo que, para o governo conseguir aprovar um projeto prioritário para a agenda da esquerda, são necessárias inúmeras conversas e a superação de embates políticos calorosos. “Você sabe quantas conversas precisamos ter para aprovar uma isenção de R$ 5 mil no Imposto de Renda ? Sabe quantas articulações para aprovar que quem ganha acima de R$ 1 milhão pague um pouco mais? Porque quem vota não é o povo pobre, são os mais ricos” , detalhou.
“Algumas pessoas do PT não queriam que eu vetasse o aumento para deputados na Câmara . Mas eu vetei. Porque não é disso que o Brasil precisa agora. Se for necessário mudar a distribuição de cadeiras com base no novo Censo do IBGE, que mude. Um estado perde, outro ganha. Qual o problema? O Congresso pode derrubar meu veto. Faz parte” , disse Lula.
Na avaliação de Lula, essa dificuldade de convergência com o Congresso ocorre, principalmente, porque o PT não foi capaz de eleger um número expressivo de deputados e senadores nas últimas eleições. Isso fez com que a base do governo no parlamento ficasse encolhida diante do aumento da bancada de partidos da oposição, como o Partido Liberal (PT), do qual o ex-presidente Jair Bolsonaro faz parte.
Nesse sentido, Lula destacou que o PT elegeu apenas 70 dos 513 deputados e 9 dos 81 senadores nas eleições de 2022. Diante desses números, o petista avaliou que "se depender só de nós, a gente não aprova nada" . Mesmo com o apoio de outros partidos aliados, o governo ainda não consegue aprovar medidas sem negociação, isso porque, conforme explicou o presidente, a aprovação de projetos de lei e medidas provisórias depende da capacidade de "convencer quem não pensa igual a gente a votar nas coisas que nós mandamos" .
De acordo com Lula, isso se resume à "arte da política" , que exige "muita conversa, cedendo muitas coisas" . Um exemplo dessa dinâmica foi a aprovação da Reforma Tributária, aguardada por 40 anos, que foi aprovada em um congresso "totalmente adverso" graças a esse processo de diálogo e concessões. O petista ressaltou que "se não for assim, você não faz política e você não governa" .
“A gente pode ser principista quando a gente é candidato, mas quando você ganha uma eleição, você tem que cair na real se não você não governa. Olha, eu não preciso saber se o presidente da Câmara gosta de mim, se o presidente do Senado gosta de mim. Eu tenho que saber que ele é presidente de uma instituição que deu a ele a legalidade de ser eleito e que, portanto, eu preciso mais dele do que ele de mim. Então eu preciso conversar, porque ele ocupa um posto importante” , disse Lula.
Nesse cenário, Lula apontou que existe uma clara diferenciação entre o papel de um líder de bancada minoritária — como o deputado Lindenberg Farias, que é líder do PT na Câmara e pode criticar e debater — e o papel de um líder do governo, — como o deputado José Guimarães (PT), líder do governo na Câmara, ou o senador Randolfe Rodrigues (PT), líder do governo no Senado —, que deve falar "em nome do governo" e "negociar" em um "campo minado" de diversidade. Assim, tudo deve ser construído da "forma mais civilizada possível" .
Além disso, Lula observou que o perfil da oposição passou por uma “mudança drástica” nos últimos anos, o que dificulta o diálogo com o Congresso e o cenário político de modo geral, já que tem sido marcado pela polarização. Na avaliação do presidente, enquanto no passado a oposição era "civilizada" — como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, com quem se chamavam de "companheiros" — , a oposição atual é vista como "inimigos" .
Exemplo disso são os episódios mais recentes, principalmente envolvendo a relação diplomática com os Estados Unidos , onde a oposição, na avaliação de Lula, tem agido como ''traidora do Brasil'' . O presidente acusou a extrema direita de usar símbolos nacionais de forma deturpada e defender " torturas do General Ustra" .