O ex-ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom) e ex-prefeito de Araraquara (SP), Edinho Silva, assumiu neste domingo (3) a presidência do Partido dos Trabalhadores (PT) . A transmissão do cargo ocorreu durante o encerramento do 17º Encontro Nacional da legenda , em Brasília, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva .
Edinho, que sucede o senador Humberto Costa no comando do partido, foi eleito presidente nacional do PT por meio do Processo de Eleição Direta (PED) , realizado em 7 de julho. Ele recebeu 73% dos votos, o equivalente a cerca de 240 mil filiados, que o escolheram para liderar a legenda.
Ao transmitir a liderança da sigla ao colega, o senador Humberto Costa ressaltou que a maior missão de Edinho será construir alianças e abrir caminhos para a reeleição de Lula, com vistas nas eleições presidenciais de 2026.
Edinho Silva tomou posse como presidente do PT neste domingo (03)
Essa missão já havia sido adiantada pelo próprio Edinho em entrevista exclusiva ao Portal iG, antes da cerimônia de posse como novo presidente do partido. Na ocasião, o dirigente da sigla destacou que a prioridade de sua gestão será “construir a reeleição do presidente Lula”
para que seja possível dar “continuidade a esse projeto de reconstrução do Brasil”
.
“Nós nunca podemos esquecer ou permitir que a sociedade esqueça as condições que o presidente Lula assumiu o governo em 2023, com déficit de bilhões de reais”
, apontou Edinho. O presidente do PT citou que Lula assumiu a presidência do país mesmo depois de um período de "desmonte"
e "compra de votos" por parte do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) com a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que ficou conhecida como ''PEC Kamikaze''.
A PEC foi um conjunto de medidas sociais aprovadas pelo governo brasileiro em 2022, durante a gestão Bolsonaro, em meio ao período eleitoral. Essas medidas incluíam aumentos em benefícios sociais, como o Auxílio Brasil, e a criação de novos auxílios, como o Bolsa Caminhoneiro e o Bolsa Taxista.
“Eu sempre digo que aconteceu em 2022 no Brasil a maior operação de compra de votos da história da República, uma compra de votos institucionalizada e também o desmonte das políticas públicas que existiam há décadas no nosso país. E o presidente Lula tem reconstruído o PAC [Programa de Aceleração do Crescimento], reconstruído minha casa, minha vida, lançou projetos importantes como o Pé de Meia”
, avaliou Edinho ao iG
.
Além disso, de acordo com o petista, a continuidade de Lula no governo do país representa um fortalecimento da soberania nacional frente aos ataques dos Estados Unidos
. “A reeleição do presidente Lula significa a reafirmação do nosso projeto de país, um projeto soberano diante de uma violência diplomática que nós sofremos com o governo de Donald Trump”
, defendeu.
“São tarefas imensas que nós temos pela frente: reeleger o presidente Lula, reorganizar as nossas instâncias, fortalecer o PT nos estados para que a gente construa palanques fortes. O Brasil precisa do PT em relação ao enfrentamento de muitos debates estratégicos”
, acrescentou.
Sucessão de Lula
Ao assumir a presidência do PT, Edinho afirmou que Lula deve disputar sua última eleição em 2026, quando terá 81 anos. Por isso, o novo presidente nacional do partido defendeu que a sigla comece a se preparar para um ciclo político sem a presença do líder petista nas urnas.
“Nós teremos, no próximo período, tarefas fundamentais. Primeiro, temos a responsabilidade de construir o Partido dos Trabalhadores para quando o presidente Lula não estiver mais nas urnas disputando o nosso projeto”
, afirmou Edinho ao destacar que Lula deixará a cena eleitoral após 2026, encerrando a trajetória política que moldou a identidade da sigla ao longo das últimas quatro décadas.
Ao lembrar o papel decisivo do atual presidente da República nos momentos mais críticos da história petista, como a crise do mensalão e a Lava Jato, Edinho apontou que o partido precisará, a partir de agora, consolidar sua força institucional e não mais depender da figura de Lula como principal ativo eleitoral.
“O presidente Lula nos deixa um legado que será fundamental na condução do nosso partido pelo resto da nossa existência. Mas nós sabemos que todas as dificuldades enfrentadas pelo PT, o presidente Lula foi à sociedade, disputou as eleições e reconduziu o partido ao seu lugar de direito. Essas cenas, após 2026, até por direito ao descanso, e por direito de viver um pouco a sua vida pessoal, nós não teremos mais”
, reconheceu.
Segundo Edinho, não se trata apenas de identificar um nome que substitua o presidente, mas de fortalecer o PT como principal referência da esquerda brasileira. “Não nascerá outro Lula, porque as condições históricas, como quando o novo sindicalismo emergiu, os novos movimentos sociais surgiram e a sociedade brasileira lutava pela democracia, e, no meio desse processo, havia um gênio da política brasileira. Esse cenário não volta mais”
, declarou.
“Nós teremos que construir um partido que seja capaz de enfrentar grandes embates, os que já estão colocados na conjuntura e os que virão no próximo período histórico”
, acrescentou. Ao se dirigir à militância, Edinho reforçou que a substituição de Lula não será por uma nova liderança isolada, mas pelo fortalecimento coletivo da organização partidária.
“Como bem disse o presidente Lula, e eu quero reafirmar: o seu substituto não será um nome. O seu substituto será o Partido dos Trabalhadores. Porque, se o PT estiver forte, organizado e dialogando com a sociedade brasileira, a liderança será construída. O nome nós vamos construir juntos”
, afirmou.
Embora a sucessão de Lula ainda esteja em aberto, Edinho deixou claro que a prioridade do PT, no curto prazo, é garantir sua reeleição em 2026. “A principal tarefa do nosso partido é construir a reeleição do presidente Lula, não por vaidade, mas para dar continuidade a esse projeto de reconstrução do Brasil. A reeleição dele também significa a reafirmação do nosso projeto de país, um projeto soberano, de justiça social, de inclusão e de desenvolvimento”
, disse.
Diálogo com o Congresso
Na entrevista ao iG, Edinho reconheceu a dificuldade do governo na relação com o Congresso Nacional. Sobre isso, o presidente do PT reforçou que a presidência de Lula é vista como um governo de diálogo, e o partido deve ajudar nessa construção.
“Eu não tenho nenhuma dúvida que o governo do presidente Lula é um governo de diálogo e penso que o PT tem que ajudar nesse diálogo. Penso também que nós temos que mobilizar as lideranças políticas que, de fato, coloquem os interesses do Brasil em primeiro plano”
, defendeu Edinho.
Na avaliação do presidente do partido, embora o Congresso frequentemente trate da questão das emendas, sejam as individuais, de bancada ou de relatoria, e exista uma legitimidade em tratar sobre isso, esse debate não pode ser maior que a agenda do Brasil ou consumir, por completo, a agenda do Congresso Nacional. Para Edinho, as emendas não devem ser priorizadas em detrimento dos interesses da nação.
“Por mais que seja legítimo o Congresso muitas vezes priorizar a questão das emendas, o debate sobre elas não pode se sobrepor à agenda do Brasil, à construção de um projeto para o país. Então, é hora de unirmos as lideranças preocupadas com o legado que vamos deixar para as próximas gerações, aquelas que têm apreço pelo futuro do Brasil, e dialogarmos em torno dessa agenda”
, ressaltou.
Edinho avaliou que é natural existir divergências entre os partidos, mas isso não pode ser maior que os interesses do país. Por isso, ao defender um pacto em torno de uma agenda nacional, o petista também ressaltou a importância de uma reforma política eleitoral que fortaleça os partidos e reduza a fragmentação no Congresso.
Para ele, o número excessivo de legendas dificulta o avanço de pautas estruturantes para o país. “Nós podemos ter divergências, isso é legítimo. Mas penso que é fundamental priorizarmos uma agenda para o Brasil”
, afirmou. Segundo o presidente nacional do PT, a consolidação da democracia passa, necessariamente, pelo fortalecimento dos partidos.
“É mais fácil pensarmos o futuro do Brasil com cinco ou seis partidos do que nos perdermos em interesses individuais. Por isso, acredito que uma reforma política, com voto em lista ou até o distrital misto, pode nos ajudar a construir esse caminho”
, analisou.
Soberania nacional
Diante das tensões diplomáticas envolvendo o Brasil e os Estados Unidos, após o presidente norte-americano Donald Trump anunciar uma taxação de 50% sobre importações de produtos brasileiros , Edinho pontuou que uma das grandes tarefas de sua gestão será construir uma diretriz política baseada na soberania nacional, “onde nós não admitiremos que nenhuma das nossas instituições sejam atacadas” .
Para Edinho, o Brasil deve ser reconhecido como um "país soberano, um país que não se submete a interesses internacionais"
. Nesse sentido, o governo Lula tem defendido a soberania nacional, afirmando que o Brasil "não é um puxadinho dos Estados Unidos, que nós não somos o quintal dos Estados Unidos."
“O governo Trump cria uma denúncia política, mas nós sabemos que o que está por trás não é essa fumaça. O que está por trás do tarifaço é o nosso posicionamento na construção dos Brics. Ou seja, é como se o Brasil não tivesse o direito de estabelecer outras relações econômicas e tivesse que permanecer dependente dos Estados Unidos”
, opinou ao iG
.
Na avaliação de Edinho, o Brasil, como qualquer outra nação, tem o "direito de construir outras relações econômicas"
e de "diversificar a sua relação de exportação, de troca de tecnologia"
, o que é um direito de um país soberano. Essa autonomia, entretanto, foi colocada em xeque pelo governo Trump com a imposição do tarifaço, interpretado como uma tentativa de impedir o Brasil de construir outras relações econômicas e mantê-lo dependente dos Estados Unidos.
Essa ofensiva de Trump foi classificada por Edinho como uma “violência diplomática”
. Além disso, a investigação conduzida pelos EUA contra o Brasil, em que cita o Pix, foi vista como algo que atinge os interesses de empresas de crédito, "principalmente das empresas norte-americanas"
. O Pix, na visão do presidente do PT, é considerado um "patrimônio do povo brasileiro"
.
“Nós não podemos abrir mão do Pix. O Pix é um patrimônio do povo brasileiro e o governo Lula tem feito essa defesa”
, assegurou Edinho. Outro ponto destacado pelo petista na relação diplomática estremecida com os EUA é o interesse do país norte-americano nas reservas de terras raras do Brasil.
“Para quem não sabe o que isso significa, são metais raros fundamentais para o desenvolvimento tecnológico. De todos os países do mundo, o Brasil tem 25% das reservas de terras raras. Então, se os Estados Unidos quiser dialogar com o Brasil sobre essa nossa riqueza, uma riqueza que pertence ao povo brasileiro, que dialogue reconhecendo o Brasil como um país soberano, um país que não se submete aos interesses internacionais”
, disse Edinho.
Política econômica
Edinho Silva também destacou a política econômica do governo Lula e os desafios estratégicos que o partido precisará enfrentar nos próximos anos. Ao iG, ele defendeu que a legenda deve aprofundar o debate sobre o desenvolvimento nacional, com foco na democratização da renda, no fortalecimento de políticas públicas e em um projeto sustentável para o país.
Entre as prioridades econômicas do partido sob sua gestão, Edinho reforçou a necessidade de reorganizar a economia familiar por meio do crédito ao trabalhador, além de defender a proposta de isenção do Imposto de Renda
para quem ganha até R$ 5 mil e a redução da carga tributária para rendas de até R$ 7 mil. Para o presidente do PT, essa é uma das pautas mais importantes do atual governo. “Esse é o debate central: um Brasil sem privilégios. Um país onde aqueles que podem e devem pagar, paguem tributos, e aqueles que ganham menos, paguem menos ou não paguem”
, enfatizou.
O novo presidente da sigla também criticou o volume de desonerações fiscais permanentes e defendeu uma revisão profunda nos benefícios que favorecem setores específicos da economia sem contrapartidas claras. Segundo ele, o país não pode continuar convivendo com “R$ 860 bilhões em renúncias fiscais”
, que penalizam o conjunto da sociedade.
“O Brasil precisa enfrentar essa distorção. Não existe desoneração a eterno. Ela só se justifica se impulsionar uma cadeia produtiva. Casos como o do PERSE, por exemplo, já perderam a razão de existir”
, pontuou, referindo-se ao programa de incentivo ao setor de eventos instituído durante a pandemia de Covid-19, como forma de evitar demissões e aumento do desemprego, mas que continua em vigor.
Na área social, Edinho ressaltou a importância de fortalecer o Sistema Único de Saúde ( SUS
), com ações concretas para reduzir filas de exames e cirurgias, como o programa Mais Especialidades. Também defendeu a universalização do direito à creche e à educação integral, classificando essa pauta como uma “dívida histórica com a mãe trabalhadora e com a educação brasileira”
.
A transição energética e a urgência climática também entraram no radar do dirigente petista, que cobrou um debate mais profundo sobre a utilização da riqueza da costa equatorial e defendeu a criação de um fundo nacional para financiar projetos de reflorestamento na Amazônia. “Nós não queremos desmatamento, pesca ou caça ilegais. Mas temos que apresentar um projeto concreto para o povo da Amazônia, firmado no desenvolvimento tecnológico e na geração de trabalho sustentável. É isso que pode garantir um futuro digno para a região”
, declarou.
Por fim, Edinho reforçou que o PT tem a responsabilidade de liderar esse processo de reconstrução nacional. Segundo ele, o fortalecimento da democracia passa pela consolidação de um projeto de país que supere os interesses individuais.