
Apesar de serem conhecidos pelo som de “cri-cri", o canto dos grilos nem sempre faz parte da vida desses insetos. Ao longo de milhões de anos, diferentes espécies perderam a capacidade de produzir sons ou até de ouvi-los e se tornaram “ouvintes silenciosos” ou "cantores surdos".
Nos grilos, o canto é produzido pelo atrito entre as asas. Os machos usam esses sons principalmente para atrair as fêmeas durante a reprodução, por meio de estruturas que permitem gerar o ruído e ajudam a espalhá-lo ao redor.
Além disso, para ouvir, esses insetos contam com os chamados tímpanos nas pernas da frente, que permitem notar os sons ao redor e que podem ajudar a identificar outros grilos e até a detectar predadores.
Para entender como essas características mudaram ao longo do tempo, os pesquisadores da USP analisaram 107 espécies de grilos arborícolas da família Oecanthidae.
Os resultados mostram que o ancestral comum das espécies estudadas tinha as estruturas tanto para produzir sons quanto para ouvi-los, mas, com o passar de milhões de anos, diferentes grupos perderam algumas dessas funções.
Em algumas espécies, um ou os dois tímpanos desapareceram. Em outras, as asas que produzem o canto ficaram incompletas ou deixaram de existir.
Essas mudanças deram origem a combinações diferentes. Há grilos que não conseguem mais produzir sons, mas continuam ouvindo, os chamados “ouvintes silenciosos”. Outros ainda cantam, embora tenham perdido a capacidade de escutar, os “cantores surdos”.

O que pode ter levado os grilos a ficar em silêncio
As razões pelas quais algumas espécies perderam a capacidade de cantar ou ouvir ainda não foram confirmadas. Entre as hipóteses estão a presença de predadores e as mudanças no ambiente, que podem ter favorecido outras formas de comunicação.
O canto pode ajudar um grilo a encontrar sua parceira, mas também pode deixar mais fácil para outros animais encontrá-lo. Em certas condições, deixar de produzir sons ou diminuir sua força pode ser uma vantagem.Outras formas de se comunicar
Apesar disso, a perda do canto não significa necessariamente que os grilos deixaram de se comunicar uns com os outros. Esses insetos ainda podem usar vibrações pelas folhas e outras partes das plantas.
Na reprodução, por exemplo, os machos batem as pernas da frente ou usam os palpos, pequenas estruturas próximas à boca, para produzir batidas nas folhas. Essas vibrações podem funcionar como sinais de comunicação sem depender do canto tradicional.
Nas espécies que ainda usam os sons, a comunicação durante a reprodução também envolve diferentes tipos de canto. Em geral, o macho começa emitindo um som para atrair a fêmea. Quando ela se aproxima, ele passa a produzir sons mais baixos durante o cortejo e o acasalamento.
Quando ela chega, começa a cortejá-la com outro canto mais baixo. Durante a cópula, ele faz um som mais baixinho ainda, só para a fêmea ficar entretida e não ir embora. Lucas Denadai de Campos, pesquisador e autor do estudo.
Depois do acasalamento, o macho produz uma cápsula que contém espermatozoides, chamada espermatóforo, e a transfere para a fêmea. Em algumas espécies, ela pode comer essa cápsula. Nesses casos, o macho também pode produzir sons após o acasalamento, mantendo a fêmea envolvida enquanto acontece a transferência do material reprodutivo.
Esses são os quatro principais tipos de canto que nós conhecemos dos grilos nessa relação de reprodução, mas eles também usam o canto para espantar predadores. Lucas Denadai de Campos, pesquisador e autor do estudo.