
Um homem tetraplégico recuperou o movimento e a sensibilidade nas mãos, após receber um implante cerebral experimental. O caso de Keith Thomas, morador de Nova York, nos Estados Unidos, foi capa da revista Nature Medicine no último mês.

O paciente de 48 anos quebrou o pescoço em 2020, quando mergulhou em uma piscina rasa. A lesão o deixou com tetraplegia completa, perdendo todo o movimento dos quatro membros e do tronco.
Treze meses depois, Thomas ainda não conseguia erguer os braços até o rosto, segurar objetos nem sentir qualquer toque nas mãos e nos punhos.
Bati a cabeça no fundo da piscina, quebrei o pescoço. No dia seguinte, não conseguia me mexer. Keith Thomas, a primeira pessoa no mundo a testar a tecnologia de dupla ponte neural (à ABC7)

A cirurgia do experimento ocorreu em 2023, no Feinstein Institutes for Medical Research, ligado à rede Northwell Health, a maior provedora de serviços de saúde nova-iorquina.
O procedimento durou 15 horas e implantou cinco conjuntos de microeletrodos no cérebro, com 128 canais no córtex motor e 96 no sensorial, sendo batizada de técnica da dupla ponte neural.

Basicamente, quando Thomas pensa em mover a mão, os eletrodos captam a atividade cerebral. A partir daí, um algoritmo de aprendizado da máquina traduz o sinal em estímulos elétricos enviados aos músculos do antebraço, que movem a própria mão. Ao mesmo tempo, sensores de pressão embutidos em uma órtese 3D medem a força e disparam estímulos no córtex sensorial, recriando a percepção do toque.
O sistema atingiu 84,6% de acerto na leitura das intenções, resultado mantido por cinco meses sem retreinamento da dinâmica.
Há sinais da área motora responsável pelo movimento indo para o computador, e sinais do computador voltando para diferentes pontos de estimulação no corpo, no cérebro e na medula espinhal dele. E o objetivo é restaurar o movimento e o sentido do tato de forma duradoura. Chad Bouton, professor do Instituto de Medicina Bioeletrônica do Feinstein Institutes e autor do estudo

Em 35 semanas, a força do braço direito subiu 86%, contra 62% do esquerdo. Thomas passou a coçar o nariz e limpar a boca sem ajuda. Para devolver o tato, a equipe criou o espelhamento cortical, que registra a atividade cerebral durante o toque imaginado e depois reproduz esses padrões por estimulação.

Após 25 semanas voltadas ao punho direito, ele voltou a sentir uma área dormente desde o acidente e passou a erguer cascas de ovo vazias sem quebrá-las em 87% das tentativas, inclusive vendado.
O estudo mudou minha vida drasticamente. Consigo fazer carinho no meu cachorro, consigo fazer outras coisas, como às vezes me alimentar sozinho, limpar o rosto, limpar a boca. Poder sentir a mão da minha irmã, fazer carinho na minha cachorra e sentir o pelo dela: essas experiências que a lesão tirou de mim foram restauradas. Mas, além das sessões do estudo, agora consigo coçar o rosto e limpar os olhos sozinho. A tecnologia me devolveu tanto a conexão quanto o senso de quem eu sou. a primeira pessoa no mundo a testar a tecnologia de dupla ponte neural (à ABC7)

O ponto que mais chamou atenção dos pesquisadores foi a permanência. Os ganhos seguem presentes mais de dois anos depois, mesmo com o sistema desligado, sugerindo uma reconfiguração do sistema nervoso por neuroplasticidade.
Esta pesquisa é promissora para milhões de pacientes, abrindo caminho para futuras pesquisas e aplicações clínicas práticas que poderiam ajudar centenas de milhares de pessoas que vivem com paralisia. Vimos isso na prática quando Keith conseguiu se mover e sentir de novo. Esta abordagem é uma nova forma de tratar a paralisia grave: não estamos apenas contornando a lesão, estamos de fato reconfigurando o sistema nervoso. Nossa equipe de engenheiros, neurocirurgiões e pesquisadores clínicos realizou algo que nunca havia sido feito antes. Comunicado do Feinstein Institutes for Medical Research
Cerca de 15 milhões de pessoas vivem com lesão medular no mundo, sendo que mais da metade tem comprometimento de braços e mãos. Apesar dos avanços, alguns especialistas ponderaram que se trata de um único paciente, salientando que a complexidade do método dificulta isolar o que exatamente produziu cada efeito.
O trabalho é um passo em direção a pesquisas futuras, e não um fim em si mesmo. As melhoras motoras são particularmente impressionantes. É aí que está o verdadeiro valor do estudo, com o participante agora capaz de realizar tarefas cotidianas significativas, como se alimentar sozinho e manipular objetos delicados. David McGonigle, neurocientista da Universidade de Cardiff